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‘2015 será um ano amazônico’, diz a atriz Dira Paes em entrevista

Atriz paraense, grande estrela do filme ‘Órfãos do Eldorado’, baseado na obra de Milton Hatoum, fala sobre sua agenda Amazônica 21/01/2015 às 13:41
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Dira Paes em uma das cenas do filme "Órfãos do Eldorado"
Jornal A Crítica ---

Era 2011, Dira Paes tinha acabado de ler o romance “Cinzas do norte” e quis conhecer seu autor, Milton Hatoum. A atriz foi, então, a um debate no Sesc Copacabana, onde pôde conversar com o escritor amazonense, um dos mais prestigiados do País. Dira disse a ele: “Milton, você é tão árabe. Onde está esse homem amazônico?” Um ano e meio depois, a atriz recebeu um telefonema do cineasta Guilherme Coelho, com o convite para interpretar Florita, personagem de “Órfãos do Eldorado”, outro romance de Hatoum.

Seria a grande oportunidade para que Dira, ela própria uma mulher amazônica, pudesse vivenciar as referências do autor. E, com sua estreia marcada para esta sexta-feira, na abertura da 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes, “Órfãos do Eldorado” representa também um marco para o que Dira chama de “ano amazônico”. Nesta entrevista ao GLOBO, a atriz paraense de 45 anos, que é a grande homenageada desta edição de Tiradentes, explica como pretende ser uma agente para a promoção da Amazônia e lamenta que o preconceito regional siga forte no Brasil.

Quando a gente conversa com alguém sobre homenagem pela carreira, como vai acontecer com você em Tiradentes, a pessoa sempre diz que é sinal de que está envelhecendo. Você sente isso?

É que você sente o tempo passando. Para mim, são três décadas de cinema. Dá para traçar uma antropologia do cinema brasileiro através da minha filmografia. Eu atravessei o final da Embrafilme, a Retomada do cinema brasileiro, essa crescente do público em relação às comédias, todos esses movimentos. Acho que vou ficar muito feliz se um dia observarem minha trajetória com um olhar histórico sobre o cinema brasileiro. Mas não sou afeita a ficar revendo trabalhos do passado. Gosto mais do frescor que está no futuro.

Quando você chegou ao Rio, o fato de ser paraense e ter essa aparência amazônica te ajudou de certa forma? Ou atrapalhou?

As pessoas falavam que eu vinha do Pará, só não sabiam que minha vida era urbana no Pará, extremamente classe média, estudei num ótimo colégio. As pessoas achavam que, pelo fato de vir do Norte, você vem ajudada pelos outros, ganha um quilo de farinha e uma carona. Não foi minha história. Contudo, quando cheguei ao Rio realmente senti uma reação forte ao meu tipo amazônico. Não me enxergava nas outras pessoas, não tinha alguém parecida em quem eu pudesse me espelhar. Não havia uma referência com esse tom de pele, cabelo e olhos rasgados. Então senti um estranhamento, e isso me levou a me encaixar num nicho, um que era mais amplo no cinema do que na TV. Assim os trabalhos foram aparecendo.

No ano passado, falou-se muito sobre o preconceito contra nordestinos e nortistas no Brasil. Como você enxerga esses sentimentos ainda existirem hoje?

Acho que o Brasil está olhando mais para si mesmo. Nós estamos nos absorvendo mais e por isso as diferenças estão mais evidentes. E tem muita gente com medo de encarar as diferenças, pessoas que não aceitam ampliar suas fronteiras. São pessoas estagnadas. Por isso me propus que 2015 será um ano amazônico.

Como imagina esse ano amazônico?

A Amazônia nunca saiu de moda. Ser amazônico hoje em dia é um charme. A beleza morena da miscigenação é um ingrediente apimentado ao qual as pessoas estão dando mais atenção. Quero tentar ser um agente amazônico, usufruir da minha visibilidade para trabalhar pelo que estamos precisando na região. A Amazônia é um remédio não só para os brasileiros, mas para o mundo. O desequilíbrio climático que estamos vivendo acontece porque a Amazônia está sendo insultada. O único antídoto para esses 50 graus de temperatura é uma Amazônia bem cuidada. Quero trazer para as pessoas um pensar amazônico.

Então “Órfãos do Eldorado”, cuja estreia em circuito comercial está prevista apenas para agosto, é a abertura desse seu ano amazônico?

Exatamente isso. É um livro de difícil adaptação, e minha personagem é uma construção que vai além do livro. A história traz um estranhamento sobre os encantos amazônicos, ela trata da busca de um homem (Arminto Cordovil, interpretado por Daniel de Oliveira), uma busca enlouquecedora do que está dentro de você, mas que se vai buscar fora.

Em sua carreira, você já fez filmes tão diferentes com propostas tão diferentes como “Amarelo manga” (2002) e “2 Filhos de Francisco” (2005). Faz novelas, minisséries e teatro. Tem algum papel que você se recusa a fazer?

Já fiz filmes em que não gostava do roteiro, mas gostava do personagem. Também já fiz filmes em que a direção não era tão legal, mas o colega ator me instigava. Às vezes trabalhar com certa pessoa era o principal para mim. Fiz filmes ruins, mas nos quais minhas cenas eram legais. Não dá para esperar só o ideal. Raramente se tem uma situação ideal para trabalhar, e você precisa entender que a dificuldade é importante, deixa a gente mais atenta ao jogo.

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