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A ditadura militar na visão dos contistas brasileiros

Coletânea organizada por Luiz Ruffato reúne 18 nomes da literatura brasileira que viveram durante e após a ditadura militar 28/05/2015 às 17:50
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Luiz Rufatto reúne nomes da literatura brasileira que viveram durante e após a ditadura militar
Luiz Guilherme Melo Manaus (AM)

No aniversário de cinquenta anos do golpe militar de 1964, em março de 2014, não faltaram reportagens especiais, depoimentos, biografias e pontos de vista a respeito do acontecimento histórico. Entre todas as publicações, podemos destacar uma visão mais literária, mas não menos documental a respeito desse período no livro “Nos idos de Março” (editora Geração, 287 páginas, R$ 29,90). Perseguição política, violência, medo e a liberdade de expressão cerceada pelo governo militar são alguns dos temas dos contos que compõem a antologia organizada pelo jornalista e escritor Luiz Ruffato.

A coletânea reúne contos de 18 autores, escritos na época da ditadura militar ou por escritores que tiveram as suas vidas afetadas de alguma forma pelos acontecimentos daquele período.

O resultado são contos que ora usam uma linguagem realista e confessional, ora se servem da fantasia absurda, já que os escritores foram forçados a recorrerem a uma linguagem cifrada, repleta de códigos e alegorias que pudessem mascarar a real intenção por trás de suas palavras. Apenas dessa forma era possível que seus textos passassem pelo crivo da censura encarnada no AI-5 (baixado em 13 de dezembro de 1968), que definiu o momento mais duro do regime.


As breves narrativas espelham um quadro mais complexo daquele período. No conto “Felizes poucos” de Maria José Silveira, por exemplo, temos uma fotografia da juventude da época, com suas roupas, gírias e costumes. “Eram os anos da ditadura. Os tempos de Garrastazu Médici”, situa o narrador.

Já em “O homem que descobriu o dia da negação”, de Ignácio de Loyola Brandão, o leitor acompanha um personagem que um dia sai de casa e não encontra mais o sentido das coisas, pois tudo ao seu redor passa por um processo surreal de ressignificação. “O homem cansou de dizer que tomate é tomate apenas porque há centenas de anos dizem que tomate é tomate. Cansaram de dizer que o sim é o sim e o não é o não. Inverteram para verificar o que acontece”, reflete o personagem ao se chocar com uma nova realidade apresentada de forma alegórica.

Contudo, nem todos os contos falam diretamente da ditadura, mas sobre a exploração do trabalho ou sobre o próprio espírito daquele tempo. No misterioso “A morte de D.J. em Paris”, de Roberto Drummond, temos D.J, um personagem envolvido em acontecimentos que se aproximam muito do realismo fantástico; e “A maior ponte do mundo”, de Domingos Pellegrini, que aborda o tratamento desumano dado aos trabalhadores que atuaram na construção da ponte Rio-Niterói, uma das obras “faraônicas” daquela época, fruto do Milagre Econômico.

Há também os contos “Alguma coisa urgentemente”, de João Gilberto Noll, que inspirou o filme “Nunca fomos tão felizes” (1984) de Murilo Salles, “O homem cordial”, de Antonio Callado, cujo personagem principal vê um Brasil idealizado por ele desabar, “O jardim das oliveiras”, da consagrada Nélida Piñon, entre outros.

Além dos que já se interessam pelo assunto, as narrativas oferecem uma boa amostra do que foi o regime ditatorial brasileiro para quem nasceu quando o Brasil já estava redemocratizado. Pelo menos é um bom ponto de partida.

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