Domingo, 18 de Agosto de 2019
Família

Adoção por puro amor: elas podem gerar, mas decidiram que querem adotar

No Brasil, a declaração da cantora Vanessa da Mata, 40, pelos filhos Bianca, 11, Filipe, 12, e Micael, 14, viralizou nas redes sociais. Em uma carta aberta destinada ao trio, ela diz que nunca sonhou ter "filho da barriga"



1.JPG Solteira e com condições de ter filhos biológicos, a advogada Kely Patrícia decidiu entrar na fila da adoção para ‘gerar’ duas crianças no coração / Foto: Aguilar Abecassis
09/07/2016 às 17:42

Quase sempre, a vontade de adotar está relacionada ao fato de a mulher ou o homem ter um problema de infertilidade. Entretanto, muitas famílias optam pela adoção, mesmo com condições de ter uma ou mais gestações. Entre os famosos, inclusive, há exemplos como Angelina Jolie e Brad Pitt, pais de Maddox, 14, Pax, 12 e Zahara, 11. Eles também têm três biológicos Shiloh, 10, e os gêmeos Vivienne e Knox, de 7 anos de idade.

No Brasil, a declaração da cantora Vanessa da Mata, 40, pelos filhos Bianca, 11, Filipe, 12, e Micael, 14, viralizou nas redes sociais. Em uma carta aberta destinada ao trio, ela diz que nunca sonhou ter "filho da barriga". Os três irmãos biológicos foram adotados juntos, na época, respectivamente com 5, 6 e 8 anos, na chamada "adoção tardia", quando as crianças já são crescidas e ainda moram em abrigos.

Em Manaus, a surpresa das pessoas próximas a Kely Patricia Paixão Silva, 37, é grande quando se fala em adoção. Na fase de habilitação há 1 ano, ela é solteira, quer duas crianças — “em momentos diferentes”— e trabalha arduamente para garantir estabilidade financeira para passar tempo com os filhos que chegarão. O apoio recebido dos familiares e amigos é grande, mas sobram questionamentos de terceiros.

“A motivação adveio do desejo de ser mãe e de constituir minha própria família, que aflorou aos 30 anos de idade. Desde então, comecei a pesquisar tudo sobre a adoção. E, a cada descoberta, tinha mais convicção de que queria ser mãe por meio da adoção. A aceitação familiar foi excelente, mas a social foi e é um pouco mais complicada. As pessoas acham que adoção é um ato de caridade ou promoção pessoal”, afirma.

Segundo ela, muitos “esquecem que é uma decisão muito pessoal” semelhantemente a de um casal que opta por gerar. Um dos argumentos utilizados para arguir com Kely é a ausência de uma figura paterna. “Alguns questionam que estou tirando a possibilidade de uma criança ter um lar com um pai e uma mãe, contam casos de filhos adotados que agridem pai e mãe, dentre outros comentários que não valem nem a pena considerar”, relata.

A estratégia da advogada para lidar com essas situações é comparar a adoção com uma gravidez biológica, onde existem espera e aprendizado diário na construção de um elo entre mãe e filho. “A minha é gerada no coração. Eu posso, sim, oferecer um lar com amor, respeito, educação e saúde, como em qualquer outro. E as dificuldades que talvez eu venha a ter com meus filhos do coração, poderia tê-las com biológicos. Isso é muito relativo”, enfatiza.

Gerando no coração

E por falar em “fases dessa gestação”, Kely Patrícia entrou com o requerimento de adoção em 24 de junho de 2015. Desde então, foi encaminhada ao Grupo de Apoio a Pais Adotivos do Amazonas (Gapam), onde fez um curso preparatório. Em seguida, teve encontros com uma psicóloga e recebeu visita da assistente social. Independentemente do estado civil, ressalta, o processo tramita normalmente.

“Como sei que é um processo demorado, curto ao máximo cada momento. A única expectativa é ser uma boa mãe para os meus filhos quando eles chegarem. Sou consciente que meus pequenos (com idades entre zero e 4 anos) já vêm com uma bagagem de vida, assim como eu também tenho a minha, e de que não posso usurpá-los de conhecer a própria história. Mas tenho certeza que nada nos impede de construir a nossa história”, finalizou.

 ‘Aventura’ ganhou livro

Quem também optou por gerar um filho do coração, mesmo podendo ter um “da barriga” foi a coach de alta performance Paula Abreu, 39. Criadora do programa de sucesso “Escolha Sua Vida”, ela só queria ser mãe. “Embora eu pudesse engravidar, pesei todos os prós e contras e fiz a minha primeira escolha importante relativa à maternidade: eu queria adotar uma criança”, relata.

Logo que compartilhou a vontade com amigos e conhecidos, a carioca teve que lidar com comentários preconceituosos. Entretanto, ao invés de se abater diante das críticas, escolheu “lidar amorosamente com a ignorância das pessoas com relação à adoção”. Assim, concebeu o livro “Aventura da Adoção”, em que relata as experiências e desafios com a chegada do menino, com apenas 20 dias de nascido.

“Foi só quando vi o tamanho do amor que eu era capaz de sentir por uma criança que eu não tinha gerado, gestado, parido ou amamentado, que era parecida comigo em absolutamente nada, que eu descobri o que era o Amor com ‘A’ maiúsculo”, lembra. “O filho que eu escolhi mudou a minha vida. Sempre, sempre, sempre pense em todas as alternativas e faça escolhas conscientes. Porque elas podem vir a mudar a sua vida também”, enfatiza.

Pais: ‘loucos ou santos’?

Fundadora do Grupo de Apoio aos Pais Adotivos do Amazonas (Gapam), Iracy Rocha, 47, cresceu em uma grande família formada por irmãos, primos e tios adotivos. Na opinião dela, o maior desafio está no preconceito social e na “cultura do filho de criação” que, muitas vezes, impedem algumas pessoas de entender “o amor incondicional” na adoção. A psicóloga e o marido, o administrador de empresas Petrarco Rocha, 47, são pais de Lucas, 24, e Ana 14.

“Fomos criticados por adotar. Ou somos ‘loucos’ ou somos ‘santos’. Dificilmente se entende que somos capazes de amar além dos laços consanguíneos e nos envolver afetivamente de forma a ser pertencentes um do outro. Lucas eu adotei na barriga. Ana eu adotei no primeiro olhar”, declara, ao ressaltar que a ansiedade é comum em ambos os casos. “Na adoção, a diferença está na vivência simbólica do filho desejado”, completa.

Blog: Cristiane H. Brito, engenheira de produção

“Temos um filho biológico de 5 anos, Nicholas, e entramos no processo de habilitação em janeiro. Estudamos sobre o tema e nos interessamos em adotar uma criança com idade entre 2 a 4 anos, sem preferência por menino ou menina. Para nós foi algo natural. Antes mesmo de eu ter o Nicholas, conversávamos sobre isso, caso não conseguíssemos ter um biológico. Para mim, filho é filho e ponto final, não tem diferença. As pessoas se chocam, principalmente com a idade e dizem que meu filho ‘vai sentir’. Eu não vejo assim. O Nicholas até já quer comprar um brinquedo pra ele e outro para o irmão, ou irmã, mas não queremos gerar muita expectativa. Quando finalmente chegar, vamos fazer um ensaio fotográfico com a família completa".

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