Segunda-feira, 27 de Setembro de 2021
MANAUS AUDIOVISUAL

AM na Netflix: gravado em Manaus, filme ‘A Febre’ chega na plataforma de streaming

Filme que conta a história de indígena afetado por febre misteriosa entra no rol das produções audiovisuais gravadas em Manaus que começam a fazer parte dos catálogos de streaming, como Bandidos na TV, Aruanas, Cercados, entre outros



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06/02/2021 às 06:44

Com diversas cenas gravadas em Manaus, o filme "A Febre", da cineasta Maya Da-Rin, chegou ao catálogo da Netflix na última quarta-feira (3). Bastante premiado no circuito nacional e internacional, o longa conta a história de Justino, um indígena Desana que trabalha como vigia do porto de cargas de Manaus. O indígena acaba sendo tomado por uma febre misteriosa, enquanto sua filha se prepara para estudar medicina em Brasília.

"A Febre" é apenas mais uma das diversas produções gravadas em Manaus que começam a fazer parte dos catálogos de serviços de streaming, como: Bandidos na TV (Netflix), Aruanas e Cercados (Globoplay), A Floresta de Jonathas (Amazon), entre outras.



Para o crítico de cinema do CineSet, Caio Pimenta, essa conquista pode representar um olhar mais atento do streaming para produções voltadas para o Amazonas.

"Naturalmente, a Amazônia chama a atenção e, por Manaus ser a principal cidade situada nela, vemos grandes produções ambientadas aqui frequentemente - 'Fitzcarraldo' e 'Anaconda' são os mais conhecidos. Os serviços de streaming estão chegando agora e vão fazer produções por aqui naturalmente a partir de temas que eles consideram ser interessantes do ponto de vista global - 'Aruanas' tem a questão ambiental sempre em voga, 'Bandidos na TV' traz uma história cinematográfica de tão inacreditável e o Amazonas estar em 'Cercados' simboliza como fomos um marco mundial negativo desta pandemia", contou Pimenta.

Caio Pimenta ressalta que deve haver uma participação maior dos profissionais locais nessas produções, levando em consideração que muitos projetos vêm equipes de outros Estados. Essa co-produção, segundo o crítico, pode diminuir abordagens estereotipadas.

"O importante neste processo é que os nossos profissionais tenham espaço nestes projetos, sejam as equipes locais produzindo por elas mesmas ou trabalhando junto com quem chega de outros Estados e de fora do Brasil. Além da experiência profissional, isso pode contribuir até nas escolhas de abordagens para fugir de idealizações ou estereótipos locais", ressaltou.

 

Apesar disso, o crítico de cinema destaca que há a necessidade de políticas públicas que incentivem a adoção de mais filmes produzidos por diretores amazonenses nas plataformas de streaming

"Quantos aos filmes e diretores locais em plataformas de streaming, depende muito de políticas públicas que busquem o estímulo de produção nacional nestes serviços. Caso aconteça (o que parece difícil com o atual governo), a Netflix, Amazon, Disney precisarão buscar parceiros para estes projetos. Se não acontecer, será difícil furar este bloqueio de obras locais nestas plataformas. Pode acontecer em streamings menos badaladas – os filmes do Sérgio Andrade e Aldemar Matias foram exibidos no MUBI, por exemplo – ou quando você tem uma distribuidora de, pelo menos, médio porte como foi com 'A Floresta de Jonathas na Amazon', mas, não será uma regra", comentou Pimenta.

Protagonismo indígena

Um dos pontos altos de "A Febre" está no protagonismo indígena muito bem representado por Regis Myrupu, do povo Desana. Segundo o crítico Caio Pimenta, a bela atuação dos personagens indígenas do filme é um belo exemplo do uso não-caricato de indígenas em filmes, se diferenciando de outras produções.

"Essa tem sido uma marca que o cinema do Norte do Brasil está trazendo para a produção brasileira. Filmes em que a ancestralidade indígena se apresenta ao lado dos novos desafios desta integração forçada deles ao contexto urbano em que vivemos. A resistência de toda uma cultura que busca seguir firme mesmo diante de uma opressão econômica e religiosa imposta a eles, algo histórico desde a formação do Brasil. A utilização dos dialetos indígenas em quase toda a produção com poucos momentos em português serve para marcar este terreno. 'A Febre' e 'Antes o Tempo não Acabava' são bons exemplares disso que ainda conta com o curta 'Pranto Lunar', da Dheik Praia", pontuou Pimenta.

Melhor desempenho para o Oscar?

Ao longo de sua exibição em circuitos de cinema, o filme recebeu 29 prêmios até o momento e foi selecionado para ser exibido em mais de 60 festivais ao redor do mundo. Na sua estreia mundial, no Festival de Locarno, na Suíça, “A Febre” levou três prêmios para casa: o Leopardo de Ouro de Melhor Ator, para Regis Myrupu, o prêmio da crítica internacional FIPRESCI e o prêmio “Environment is Quality of Life.

Ainda que sua temática de traz em evidência contextos atuais em relação aos povos indígenas, "A Febre" não conseguiria ter um alcance melhor se fosse escolhido para representar o Brasil na corrida do Oscar, no lugar do documentário da Bárbara Paz, "Babenco".

"Talvez, 'A Febre' conseguisse um pouco mais de visibilidade pela temática amazônica e indígena sempre muito aos astros de Hollywood, além de ser um filme de ficção que são as produções predominantes na categoria. Porém, para chegar no Oscar, seria necessário um investimento pesado que nem o longa da Maya Da-Rin nem o documentário da Bárbara Paz possuem. Neste ano, somente 'Marighella' tinha cacife para isso, mas, ainda era improvável demais que chegasse até na shortlist de 15 pré-selecionados', comentou o crítico.

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Repórter de A Crítica
Amazonense, nascido e criado em Manaus. Graduado em Jornalismo e mestrando em Antropologia Social, ambos pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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