Quarta-feira, 21 de Outubro de 2020
GRADUAÇÃO

Anne Veriato é a primeira trans do Amazonas a obter faixa preta de jiu-jitsu

Ao longo dos anos, faixa por faixa, Anne apanhou, aprendeu lições sobre a luta e sobre si mesma e passou por transformações



anne_06AC462B-970A-4576-A46E-2ADFD869300A.jpeg (Fotos: Divulgação)
26/07/2020 às 17:08

A graduação na faixa preta de jiu-jítsu sempre foi um sonho para a atleta Anne Veriato e no último fim de semana, o objetivo se tornou realidade. Uma conquista que ela perseguia desde que começou a praticar a arte suave aos oito anos. Além de subir um degrau dentro da luta, a faixa preta representa a perseverança da primeira atleta transgênero do estado que precisou superar adversários dentro e fora dos tatames.

Ao longo dos anos, faixa por faixa, Anne apanhou, aprendeu lições sobre a luta e sobre si mesma e passou por transformações. Além de virar uma adulta madura, ela fez a sua transição durante este período e a nova graduação, para ela, é a síntese de todo um processo que, principalmente ensinou o quão forte ela poderia ser e o quanto o respeito conta no esporte e na vida. “A principal lição que eu aprendi foi a nunca subestimar ninguém. Não importa como seja a pessoa, a gente pode olhar de um jeito, mas não sabe a capacidade de alguém quando se quer algo. E foi essa lição que o jiu-jítsu me trouxe. E eu olhava para mim e para as pessoas me subestimavam. Achavam que eu não era capaz, entendeu? E eu fui lá e mostrei que era capaz, assim como todo mundo”, reflete a lutadora que contou a emoção no de receber a faixa.



“Quando você sonha muito com algo, quando chega a hora você não sabe como reagir. Não sabe se chora, se fica alegre... vem todo um filme da trajetória na tua cabeça. Eu estava tão ansiosa que no dia acabei esquecendo algumas coisas”.

Mas o processo de aprendizado não foi fácil. Com a transição, algumas partes do corpo dela ficaram mais sensíveis, o condicionamento físico mudou, mas nada que fizesse Anne desistir de treinar para chegar à faixa preta. 

“Quando comecei a fazer transição logo percebi as mudanças do meu corpo. Vi que algumas partes rapidamente ficaram muito sensíveis, mas não achei que iria me atrapalhar nos treinos. Mas foi na prática que eu percebi o quanto eles atrapalhavam meu desempenho. Eu me batia em certas partes do corpo e, rapidamente, parava os treinos até a dor amenizar. Perdia agilidade e rapidez, porém não parei de treinar”, conta a atleta que a partir das transformações no corpo, se adaptou.

“Hoje em dia nas minhas lutas não sou 100% como antes. Me canso rápido, Às vezes até chego a passar mal (após uma luta). Então sempre tento ganhar a luta no começo, ou garantir e amarrar nas pontuações”, explica Anne que além de jiu-jítsu também luta MMA. Nas artes marciais mistas, ela tem três vitórias em três lutas e fez história em 2018 ao vencer um homem no Cage. A lutadora tinha uma luta marcada para abril, mas a pandemia do novo coronavírus adiou os planos e treinos. De volta à ativa recentemente, Anne conta que a partir de agora terá que treinar dobrado para honrar a faixa preta que recebeu.

Foto: Winnetou Almeida

A rotina dela é de treino em um período já que ela precisa conciliar a preparação com o trabalho, onde dá aulas de dança.

“Treino pela parte da manhã, já que à tarde e à noite eu estou ocupada na musculação, mas isso não é o suficiente para mim. O ideal seria ter dois ou três treinos por dia e nesse sentido, tô tentando me organizar pra, pelo menos, fazer mais um treino na parte da noite”. Apesar da tristeza pelos planos adiados, ela comemora que desde a luta contra Raílson Paixão (no MR Cage 34) que a projetou, portas se abriram na forma de apoio.

“Depois da luta, consegui patrocínios. Antes eu estava sozinha para conseguir o dinheiro da inscrição do campeonato e depois com pessoas me ajudando, me facilitou bastante, então me abriu várias portas até de trabalho. Agora estou me organizando novamente. Estava sem treinador e agora que voltamos de novo, a Academia reabriu ,e vamos organizar tudo pra próxima luta”, explicou.

Luta solitária
Como mulher trans, muitas vezes não é fácil para Anne enfrentar olhares e até preconceito, mas a história que começou com a criança que gostava de luta, que queria aprender os golpes que via nos filmes, a inspira quando as pessoas questionam sua capacidade. Ela conta às vezes corria da escola para a academia para treinar, se esquecendo até de merendar. Entre as crianças e os mais velhos (já que ficava após os treinos), ela criou a casca suficiente para aguentar  os golpes que vêm da vida.

“Receber a faixa preta, sendo que não têm outras, parece que as pessoas me olham e pensam: ah, o que ela ta fazendo ai? Porque são tantas perguntas: por que ela tá aí, se ela luta de verdade? Como começou? Se começou agora. Tem gente que não sabe da minha história do começo, então ganhar essa faixa pra mim é um sonho desde criança. Mesmo com a transição e tudo mais, eu não parei e prossegui até eu conquistar e construir mais coisas”, contou a faixa preta que segue na sua luta diária por respeito e espaço.

“As trans não podem ser vistas como se fossem alienígenas que estão tentando pegar um espaço de alguém. Somos seres humanos normais. Trabalhamos, temos família. Muita gente quer julgar por conta de outros que fazem coisas erradas, então querem nos marginalizar. Pessoas cis (que se identifica no corpo que nasceu) e héteros também fazem coisas erradas e isso vai do caráter da pessoa porque tem gente que trabalha correto para conquistar espaço”, declarou a atleta.


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