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'Antes o Tempo Não Acabava' concorre a melhor filme do Festival de Brasília

Longa-metragem trata sobre o conflito entre tradição e modernidade através da existência de grupos indígenas em grandes centros urbanos como Manaus 24/09/2016 às 08:00 - Atualizado em 24/09/2016 às 09:04
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Produção teve filmagens numa comunidade indígena na área urbana na capital amazonense (Foto: Reprodução)
Antônio Paulo Brasília (DF)

Manaus, a cultura e um recorte da realidade vivida pelos povos indígenas da Amazônia, sem clichês, entram neste sábado (24) na disputa pelo Troféu Candango de melhor filme do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. “Antes o tempo não acabava”, do amazonense Sérgio Andrade e do paulista Fábio Baldo, estreia na tela do Cine Brasília, esta noite, no quinto dia da mostra competitiva de um dos mais respeitados festivais de cinema do País.

Filmado numa comunidade indígena urbana na capital amazonense, “Antes o tempo não acabava” trata sobre o conflito entre tradição e modernidade através da existência de grupos indígenas em grandes centros urbanos como Manaus, onde diferentes etnias se instalam em periferias, ora expulsos de suas terras, ora atraídos pelo falso ideal da vida na cidade. Nesses espaços são criados mundos alternativos, verdadeiros purgatórios entre a floresta e a cidade, onde a tradição das culturas desses povos não encontrou respaldo nos programas culturais ou nas iniciativas socioeducativas locais.

O filme parte de uma observação quase documental desses ambientes para contar a história de Anderson, um jovem indígena que vive nesta situação sociogeográfica, no limiar entre dois mundos tão distintos entre si. Ao fim do dia, após seu expediente como montador numa fábrica do Distrito Industrial de Manaus, ele retorna à sua comunidade, mesmo sem conseguir mais assimilar as tradições de seu próprio povo. Sua personalidade questionadora o coloca em conflito com os líderes locais até o dia em que ele decide romper com os seus e partir para o centro da cidade.

Vivendo sozinho, ele tem que aprender lidar não só com seus conflitos internos, mas também com os desafios que o ambiente urbano traz. Questões complexas como migração, miscigenação, orientação sexual e exploração da mão de obra indígena emergem através de novas experiências. Suas descobertas e decepções são contrastadas com a cidade de Manaus que, incrustada no coração da Amazônia, nasce de seus arredores de mata verde para ser pouco a pouco desnudada. Os nativos que deram origem à cidade são engolidos e revelados por ela. 

Elenco indígena
O ator principal de “Antes o tempo não acabava” é Anderson Tikuna que já havia feito pequenas participações tanto no curta “Cachoeira” (2010) –  vencedor de dois prêmios no 43º Festival de Brasília do Cinema Brasileira – quanto no longa “A Floresta de Jonathas” (2012) de Sérgio Andrade. “No processo de escrita do roteiro, eu já pensava nele para o papel do protagonista. Não é à toa que ator e personagem são homônimos”.

Para os outros papéis, contamos com Carla Menezes, uma ótima profissional de casting em Manaus, responsável por recrutar a comunidade indígena e os atores locais para os testes”, contou o diretor amazonense. Segundo Fábio Baldo, alguns atores indígenas, assim como o Anderson, já tinham feito pequenas participações em curtas e comerciais, mas eles sabiam que atuar em um longa-metragem não seria tão fácil, por isso, precisaram de uma intensa preparação.

“Já havíamos chamado a atriz paulistana Rita Carelli para o papel da Pia, que topou também o desafio de preparar o restante do elenco. Rita foi praticamente criada em aldeias, é filha de um importante indigenista do Brasil, precursor do uso da tecnologia do vídeo para fins dos projetos políticos e culturais indígenas. Essa compreensão e intimidade com o universo do filme foi muito importante na preparação do elenco”. No papel do Velho Pajé, o índio da etnia Tariana, Sérgio Kedassere; Kay Sara e Ana Sabrina, duas índias tarianas, e o ator indígena Fidelis Baniwa, também participam do filme.

Aspectos estéticos e trilha sonora do filme
Para os diretores de “Antes o tempo não acabava”, o filme é um mergulho em um mundo urbano e indígena, em que tradições e lendas dialogam com as ruas e os espaços da cidade. “O fotógrafo Yure César soube captar intensamente esse contraste de mundos, impregnando tudo com uma aparência realista, mas sem deixar de filtrar a poesia das cores amazônicas”, explica Fábio Baldo. Já as intervenções da direção de arte, a cargo do ícone amazonense Óscar Ramos, realçaram, na visão de Sérgio Andrade a diluição dos símbolos nativos pela dureza da cidade.

“A câmera constrói sua narrativa dentro do fluxo de movimento do personagem, seja flertando com frontalidades dentro de um rigor estético enclausurante, na qual revela camadas ambivalentes de desejos e tensões, seja na condição libertária de seus movimentos, apontando caminhos para a busca do personagem em torno da liberdade e da expansão”, afirma.

A escolha da trilha sonora traduz um universo em mutação, fazendo jus à personalidade rebelde de Anderson. O filme perpassa os estilos da cena rock e cosmopolita de Manaus, com suas casas noturnas e personagens incomuns, e também flerta com trilhas eletrônicas e registros de cânticos indígenas gravados há cerca de cem anos.

Cinco perguntas
1. Qual é a intenção do filme? Sair dos clichês do olhar para a Amazônia e de suas populações indígenas e mostrar um Brasil pouco conhecido?
Sérgio Andrade
 – Terminadas as filmagens de A Floresta de Jonathas (2012), Fábio voltou para Manaus para montar o filme, enquanto eu começava a escrever o roteiro de “Antes o tempo não acabava”. Foi um período bem efervescente de troca e desenvolvimento de ideias. Com meus trabalhos anteriores (“Um Rio Entre Nós” e “Cachoeira”), havíamos tido um maior contato com os indígenas de Manaus. Impressionava-me muito como essas comunidades que tinham deixado suas aldeias distantes para viver numa espécie de zona intermediária, onde são, ao mesmo tempo, seres da floresta e da cidade, tendo que trabalhar e lidar com a rotina urbana para sobreviver. O roteiro se impregnou disso e foi ganhando forma.

2. O filme trata do índio amazônico que deixa a sua aldeia para viver na cidade.  Como que esse fato real incide sobre a ficção de “Antes o tempo não acabava”? Qual é o tratamento dado a essa realidade?
Sérgio Andrade
 – Há muito se fala sobre a Amazônia dessa forma estereotipada, dessa maneira exótica. Nós tempos que parar de falar da Amazônia dessa maneira exótica. Eu me interesso muito por isso, em parar de olhar o índio com aquele ser humano que vive só com arco e flecha, na canoa ou que é o filho das águas e das matas. Ele é um ser humano, com uma mentalidade construída lá na aldeia dele e tem todo um modo de agir diferente do nosso, mas é um ser humano como outro qualquer.

3. Conflito cultural, identidade e sexualidade são temas importantes do filme. Como esses assuntos foram abordados e resolvidos pela história contada por vocês?
Fábio Baldo –
 Desde o inicio a gente quis tirar um pouco dessa visão meio eurocêntrica, meio colonizador; de a gente enxergar o índio como outro e por isso não se enxergar parte dele, pois mesmo convivendo há 500 anos e ainda não consegue se colocar no lugar dele. A partir desse princípio, criamos um personagem que é profundo e apresenta essas questões de sexualidade. A gente não queria, a priori, trazer isso (a homossexualidade de Anderson) como o foco principal do filme, visto que a questão da identidade dele perpassa não somente pela sexualidade, mas também se atrela a descobertas, questionamentos das tradições, de onde ele vem e está nesse movimento de sair da comunidade dele e ir se descobrindo na cidade. Então, a sexualidade faz parte dessa jornada do personagem.

Sérgio Andrade - Tivemos muita discussão, em debates, se é comum a homossexualidade entre os índios. Existem mais de 250 diferentes comunidades indígenas no Brasil, cada qual se organiza de forma diferente diante do comportamento de seus membros. Em muitas aldeias, os homossexuais ou gays são como bobos da corte, alegram a comunidade; em outras não há e em algumas não são bem vistos, mas não há um confronto e nem quer dizer que a não aceitação é uma regra geral. Aí vem a pergunta, Anderson tem sua sexualidade dessa forma porque é índio, mas vive na cidade? Não, ele é assim porque é uma pessoa amadurecendo.

4. O filme acaba de ser exibido em Lisboa e em Berlim. Como foi a recepção dos europeus? Por que esse tema ainda os comove?
Fábio Baldo -
 O filme foi apresentado em Berlim/Alemanha em fevereiro deste ano, na estreia internacional, em Toulouse/França e agora em Lisboa/Portugal. Em todos esses festivais e mostras internacionais o filme foi muito bem recebido pelo público e crítica. E essa recepção está ligada justamente porque o estrangeiro ainda recebe essas informações com uma visão estereotipada do indígena. E nós mostramos um índio com questões profundas, psicológicas, as tradições e os conflitos entre a floresta e a cidade. E isso eles ainda não tinham visto no cinema. De alguma forma eles não esperavam esse tipo de abordagem.

5. No Brasil, é a primeira exibição deste trabalho. Quais as expectativas de vocês em relação à aceitação do filme e quanto ao resultado do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro?
Sérgio Andrade
 - Depois de apresentarmos no festival de Brasília, um importante espaço onde a crítica e o debate político estão presentes, vamos levar mostrar o filme ao Brasil. Fomos convidados pela Secretaria de Cultura do Amazonas a participar de uma mostra em Manaus, no mês de novembro. Estamos ansiosos porque é importante que o Amazonas veja esse filme e seja debatido pela sociedade e, principalmente, pelas comunidades indígenas. A previsão de “Antes o tempo não acabava” estrear nas salas de cinemas comerciais de todo o País é em 2017.

Serviço

Filme: “Antes o tempo não acabava”
Direção: Sérgio Andrade e Fábio Baldo
Ficção, 85min, 2016, AM
Classificação indicativa 16 anos

Mostra Competitiva
24/9 - Sábado
21h30, Cine Brasília

Reprise
25/9 - Domingo
17h, Cine Cultura Liberty Mall   
Entrada franca 

Debate
25/9 - Domingo
11h30, Kubitschek Plaza Hotel, salão Caxambu
Acesso livre

Premiação
27/9 – Terça-feira
19h – Cine Brasília
Convidados

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