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Aos 66 anos, Odair José se reinventa em novo disco: 'quero liberdade para criar', afirma

Famoso pelos hits românticos que emplacou nos anos 1970, cantor e compositor goiano acerta as contas com o passado no despojado "Dia 16" 31/03/2015 às 12:35
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Com pegada rock and roll, novo disco de Odair José é produzido por Alexandre Fontanetti
ROSIEL MENDONÇA Manaus (AM)

Dezesseis de outubro de 1923: a Walt Disney Company é fundada. Dezesseis de abril de 1964: o primeiro disco dos Rolling Stones é lançado no Reino Unido. Dezesseis de agosto de 1977: morre Elvis Presley, e na mesma data, 29 anos antes, nascia o goiano Odair José, que já esteve entre os três maiores vendedores de música do Brasil. “Dia 16” também é o nome do novo álbum de inéditas do cantor e compositor, o segundo a ser lançado pelo selo Saravá Discos, do amigo Zeca Baleiro.

Produzido por Alexandre Fontanetti, o trabalho marca o renascimento de um Odair José com pegada mais rock’n’roll, e as 12 faixas vêm para arejar o repertório de um artista facilmente rotulado de brega pelos sucessos que emplacou nos anos 1970 - “Cadê você”, “Eu vou tirar você desse lugar”, “A noite mais linda do mundo”, “Uma vida só (Pare de tomar a pílula)” e “Deixa essa vergonha de lado” estão entre os seus mais conhecidos.

Para Odair, “Dia 16” é o seu disco mais pop desde “O filho de José e Maria”, de 1977, duramente criticado na época do seu lançamento. A repercussão negativa se tornou uma espécie de herança maldita, e o cantor passou a usar a criatividade somente “dentro do que poderia e sabia fazer”. 

“Naquele momento eu mesmo me travei, fiquei chateado com aquilo tudo e passei 20 anos sem ter um trabalho criativo”, admite ele, que considera a gravação do álbum “Praça Tiradentes” (2012), já pelo selo de Zeca Baleiro, como uma virada no jogo.

Agora mais independente, Odair José se reconhece como Odair José, o filho de Morrinhos que se apresenta desde os 15 anos com uma guitarra no pescoço. “Não quero ser diferente, quero apenas ter liberdade para criar. ‘Dia 16’ está bem próximo do Odair do palco. O que vinha acontecendo é que o do palco era um e o do disco era outro, criava um conflito até para o público avaliar”. 

O desconforto do compositor com esse passado se reflete inclusive no repertório que ele apresenta nos shows: ele é taxativo em dizer que, das suas mais de 400 músicas, não toca mais nenhuma referente ao período de 1979 até meados dos anos 2000. 

“Nesse período, as músicas não refletiam o que eu era de verdade, era mais um trabalho de produtores e gravadoras. Tenho rodado o País nos últimos cinco anos e as pessoas têm me visto de uma forma que eu gostaria. Isso é importante porque fica uma coisa bem honesta”, afirma ele, que diz fazer música para gente jovem (de idade e de cabeça).

PORTAS FECHADAS

Recriando uma atmosfera de banda de garagem, “Dia 16” traz entre suas faixas “Fera”, música composta para o disco “O filho de José e Maria”. “Fazia parte do repertório mas nunca havia sido gravada. Tem umas guitarras simples, mas com uma levada muito boa, uma coisa bem ‘Cocaine’, do Eric Clapton”, comenta Odair.

Olhando para trás, o artista atribui o fracasso de “O filho...”, em 1977, ao mesmo falso moralismo que fez a audiência brasileira se escandalizar com o beijo lésbico no primeiro capítulo de “Babilônia”. O disco, pensado como uma “ópera conceitual” para ser tocada em teatros, acompanha a trajetória do protagonista (supostamente um Jesus contemporâneo), incluindo seu envolvimento com drogas e a rejeição social que enfrenta por ser homossexual. As inspirações para esse trabalho vão dos livros de Kalil Gibran ao rock de Joe Walsh, Humble Pie e Peter Frampton.

Por causa do projeto ousado – àquela altura, o cantor era um campeão de vendas com seu estilo de apelo romântico e popular – José se viu obrigado a mudar da Phillips para a RCA, que mutilou a ideia original do compositor cortando de 21 para 10 o número de faixas. Resultado: depois de ser ameaçado até com a excomunhão pela Igreja Católica, que não gostou nada das letras, “O filho...” foi relegado ao limbo da crítica e Odair caiu em certo descrédito.

Cantor fala sobre novo álbum de inéditas e erros do passado (Rama de Oliveira/Divulgação)

“O que aconteceu em 1970 foi tudo isso somado ao que vou dizer: sem querer ser arrogante, esse era um trabalho muito à frente do seu tempo, tanto que choca até hoje. Por outro lado, é um disco tão bem feito e pensando, que 37 anos depois ele é moderno. Já me disseram que foi o disco mais relevante do Brasil; não acho que seja, mas está entre”, comenta ele, tecendo elogios aos arranjos e à execução do disco.

Segundo Odair, o preconceito também ficou evidente na época. “Houve um bloqueio das pessoas, não teve ninguém que ficasse a meu favor, só o meu empresário Guilherme Araújo e os músicos que tocavam comigo. Na mídia, simplesmente diziam que isso não era para acontecer, que o cantor da ‘pílula’ não podia fazer um trabalho como esse. Além do preconceito, teve a questão da igreja e da religião por eu ter tocado no assunto da homossexualidade, da droga, de colocar isso no dia a dia do personagem. É a hipocrisia que a sociedade esconde embaixo do tapete”.

'CEDI E SÓ ME DEI MAL'

Reflexivo, Odair diz que não mudaria nada em “O filho de José e Maria”. “Só teria que ter todas as músicas e ser feito como foi pensado. Quando propus para a gravadora, eu queria um disco de garagem, passei seis meses ensaiando no Morro do Vidigal, inclusive os personagens seriam interpretados pelos músicos. Mas, quando fui gravar, acharam minha banda uma merda dizendo que eles não tinham qualidade. Imediatamente cedi e voltei a gravar com outra banda”, relembra.

Hoje, ele diz não ceder mais nem um centímetro quando o assunto é seu trabalho. “O que mais me deu prazer no ‘Dia 16’ foi eu não ter cedido para nada, talvez uma coisa ou outra poderia ter soado mais agressivo. Mas prometi para mim mesmo que na minha idade... lá atrás, quando cedi, só me dei mal, fiquei 20 anos fazendo trabalhos irrelevantes. Agora quero fazer meu trabalho da forma que eu penso, para as pessoas saberem quem eu sou”, finaliza ele, que entrou em estúdio para gravar o novo disco também num dia 16.

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