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Arquitetos se dedicam à renovação das aldeias da China

Idéia é revitalizar a zona rural e aumentar seu apelo aos jovens, agricultores, visitantes e trabalhadores especializados. Proposta é tornar as aldeias atraentes para as pessoas 21/07/2016 às 19:45
Amy Qin © 2016 New York Times News Service Ling'an, China

Aninhada nas verdes colinas em meio a florestas de bambu e prados, a Comuna do Sol é uma ecofazenda próspera, a quase 100 km a leste da cidade chinesa de Hangzhou. Sua peça central é um celeiro de porcos.

Porém, essa casa de 30 e poucos porcos pretos não é uma dependência comum; é uma estrutura de bambu ao ar livre, com telhado em forma de pirâmide e piscina. Em uma tarde recente, os suínos cochilavam ao som suave de jazz em sua residência customizada, que é chamada de o chiqueiro mais bonito da China.

Ele foi projetado por Chen Haoru, arquiteto e professor da Escola de Arquitetura da Academia de Arte da China, em Hangzhou. Como ele, muitos outros arquitetos estão voltando a atenção para outras fronteiras, como o interior rural, já que o financiamento para projetos nas grandes cidades quase acabou nos últimos anos.

"Dez anos atrás, não havia muitas oportunidades para fazer projetos no interior porque todo o foco estava nas cidades. Não havia interesse nas áreas rurais", disse ele enquanto guiava um passeio pela Comunidade do Sol.

Vários fatores se combinaram para criar oportunidades para tais projetos: as restrições para a transferência de propriedades rurais foram relaxadas; os residentes urbanos que, cansados dos sustos causados pelos repetidos episódios relativos à segurança alimentar e às crises ambientais, acabaram ficando cada vez mais interessados no estilo de vida rural e na agricultura orgânica; o turismo interno, amparado pelo crescimento da classe média, que está crescendo.

O presidente Xi Jinping aprovou a mudança de ênfase. Durante um discurso, em 2013, ele pediu a construção de um meili xiangcun, ou "interior belo", onde "o dinheiro não é esbanjado em coisas desnecessárias", como melhorias exteriores supérfluas.

A natureza dos projetos varia. Alguns se concentram no turismo, outros na agricultura ou no desenvolvimento de comunidades. Além da residência dos porcos de Chen, exemplos notáveis incluem uma biblioteca em um vilarejo perto de Pequim, projetado por Li Xiaodong, um centro comunitário rural e museu na província de Henan, de He Wei, e um projeto de regeneração rural perto de Hangzhou recentemente concluído por Wang Shu, que recebeu o Prêmio Pritzker, equivalente ao Nobel de arquitetura, em 2012.

Todos, porém, têm um objetivo comum: revitalizar a zona rural e aumentar seu apelo aos jovens, agricultores, visitantes e trabalhadores especializados.

"A coisa mais importante é, mais uma vez, tornar as aldeias atraentes para as pessoas", disse Wang, que também leciona na Academia de Arte da China.

"Os agricultores perderam a confiança em seu próprio modo de vida. Acham que aldeias são retrógradas e que as cidades é que são boas."

He Wei, arquiteto e professor da Academia Central de Belas Artes, em Pequim, disse: "Esses projetos não se limitam a fazer belos edifícios; eles têm a ver com função e estímulo à atividade econômica".

Oportunidades para construir na zona rural vêm aumentando, mesmo que a urbanização em massa ainda continue a esvaziar as aldeias.

A rápida urbanização do país fez com que grupos de vilarejos fossem demolidos para dar lugar a arranha-céus: de 2000 a 2010, o número de aldeias caiu de 3,7 milhões para 2,6 milhões, uma perda de cerca de 300 por dia, segundo pesquisa da Universidade de Tianjin.

Na província de Zhejiang, o local da Comunidade do Sol, milhares de cidadezinhas foram destruídas. De acordo com uma pesquisa de Wang, apenas cerca de 30 mil ainda existem na província – e a maioria, disse ele, corre o risco de desaparecer na próxima década.

"Todo mundo, incluindo o governo local, está interessado em reviver os vilarejos da China", ele disse.

Os arquitetos veem uma oportunidade de desempenhar um papel especial nessa revitalização. Por um lado, seus projetos podem aumentar a reputação de um desenvolvimento rural e estimular o turismo ou a agricultura.

É isso que o empresário de Xangai, Chen Wei, tinha em mente quando buscou ajuda de seu amigo Chen, o arquiteto, para construir um celeiro para os porcos como parte de sua fazenda orgânica. Isso foi em 2013, na época em que 16 mil porcos mortos foram encontrados boiando no Rio Huangpu, nas proximidades, jogados por agricultores.

"Na China, as pessoas da cidade nunca realmente interagem com as do campo, há pouca confiança social. O celeiro é a atração principal – é parte da nossa marca. Ele atrai as pessoas das cidades para a fazenda, para que conheçam aqueles que produzem sua comida", disse Chen Wei, o empresário que agora dirige a Comunidade do Sol.

Outros, como Wang e sua esposa, Lu Wenyu, assumiram projetos rurais com o objetivo de criar um modelo de desenvolvimento sustentável no campo.

Em 2012, Wang e Wenyu começaram a trabalhar em Wencun, uma vila a cerca de uma hora da Comunidade do Sol. Através de negociação e consulta constante com autoridades do governo local e os aldeões, os dois supervisionaram um projeto de renovação que incluiu a construção de duas dúzias de novas casas e a remodelação de algumas das existentes, além de espaços públicos.

As novas residências, terminadas este ano, combinam elementos tradicionais da área de Wencun – como um pátio interior e uma sala onde as famílias homenageiam seus antepassados – com amenidades modernas, como uma estrada de acesso para os carros e um espaço exclusivo para assistir televisão. Os elementos de design típicos de Wang estão em tudo, desde as janelas retangulares estreitas até os exteriores de concreto inacabados e alvenaria com tijolos variados.

Algumas semanas atrás, apenas poucas casas haviam sido ocupadas, mas uma moradora que estava à janela de uma delas disse: "Até agora, está bom viver aqui. É mais limpo, e as paredes são mais brancas".

Enquanto o projeto de Wencun ainda está em andamento, Wang já tenta descobrir como esse tipo de projeto de desenvolvimento pode ser replicado em maior escala.

"Com Wencun, criamos um método de pesquisa e trabalho que pode ser copiado, mas o desafio ainda é o dimensionamento. Em termos de execução, cada aldeia tem tradições diferentes e arquitetura própria. Não existe um modelo."

Porém, talvez o maior desafio de se construir na zona rural seja a imprevisibilidade. Os direitos de uso do solo rural são especialmente complicados, uma vez que a propriedade nesse tipo de zona é propriedade coletiva e, tecnicamente, residentes urbanos não podem, por lei, ter uma propriedade rural. Mesmo quando alguém de fora chega a um acordo com um aldeão para comprar ou alugar a terra, há poucas proteções legais.

Esse foi o problema encontrado pelo artista Ou Ning, quando ele e sua família foram recentemente forçados a deixar sua casa em Bishan, cidade na província rural de Anhui. Embora os aldeões reconheçam que Ou ajudou a rejuvenescer a comunidade e atrair turistas, alguns suspeitam que o aspecto social de seu projeto – focado em arte e reconstrução rural, mas que também fala de ideias como anarquismo e utopia – pode ter incomodado as autoridades locais do Partido Comunista, de acordo com um relatório do londrino The Times.

Em fevereiro, pouco mais de uma semana depois que Ou e sua família comemoraram seu terceiro ano novo lunar em sua casa restaurada em Bishan, o jornal informou que o governo local havia desligado a eletricidade e a água da casa sem aviso prévio. Contatado por telefone, Ou se recusou a comentar, citando a delicadeza da situação.

E He, da Academia Central de Arte, disse: "No campo, o governo pode cancelar um projeto muito mais facilmente do que nas cidades. Em uma noite, todo seu trabalho pode destruído e não há nada que você possa fazer".

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