Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019
Vida

Arte em resíduos: cênica corporal sobre papelão

Embalagens descartadas interagem e “evoluem” com intérpretes em projeto de Francisco Rider 



1.jpg Artistas criam geografias e construções a partir do papelão Aliança
08/06/2013 às 18:58

Usualmente destinado à reciclagem, o papelão ganha status de objeto de arte no novo projeto de Francisco Rider. Em “Chão”, folhas descartadas do material “ganham vida” e interagem com intérpretes de carne e osso numa criação cênica corporal que evoca questões da cidade, do cotidiano urbano e da própria arte contemporânea. A obra terá sua primeira apresentação no 4º Mova-se Festival: Solos, Duos e Trios, de 26 a 30 deste mês, no Teatro da Instalação.

No palco, Rider e seus parceiros no projeto, Getúlio Lima e Dimas Mendonça, movimentam-se sobre uma pilha de folhas de papelão. Sob sua ação, o material produz construções e geografias que surgem e se sobrepõem ao longo do processo. A proposta imediata da obra é levar o espectador numa jornada pelos sentidos.



“O que me importa é que as pessoas tenham a experiência sensorial, na construção dessas paisagens passageiras, provisórias”, destaca o artista.

READY-MADES URBANOS

“Chão” é um desdobramento de projetos anteriores de Rider – como “Blocorpo” e “Uma”, em que o intérprete utiliza blocos de concreto e macarrão de cadeiras, respectivamente. Na base das criações está o ready-made de Marcel Duchamp (1887-1968), conceito seminal da arte moderna que consiste na apropriação artística de objetos do cotidiano.

No caso de “Chão”, as folhas de papelão acrescem ao trabalho um caráter orgânico, vivo. “À medida que a gente as manipula, não sabe quem é quem (no movimento)”, explica Rider.

O uso de um resíduo comum nas grandes cidades também responde à necessidade de Rider de trazer à cena questões da vida nas metrópoles. “Outra proposta do trabalho é ‘respirar’ a cidade, o urbano. Nossa cultura é urbana, a gente pode respirar isso”, declara.

ACASO E IMPROVISO

Outros conceitos essenciais incorporados em “Chão” são os de improvisação e de acaso. “Dentro da partitura coreográfica há uma abertura grande para a improvisação, mas ela acontece dentro de conceitos trabalhados no processo. O objetivo é ir ‘de A a B’, mas pode haver várias coisas nesse caminho (...) E as respostas vão sendo absorvidas na memória corporal. É um improvisação com feedbacks do que aconteceu antes”, destaca Rider.

A criação também incorpora o imprevisto no processo – por exemplo, quando o papelão não se dobra como esperado. “O acaso faz parte da nossa vida. Você anda de carro pela Djalma e vê o amor da sua vida: se não percebe isso, o amor de sua vida vai embora. É o mesmo na cena: se a gente não perceber, perde-se o momento do ‘amor cênico’”, afirma Rider.

DANÇA ‘DIFERENTE’

Como toda criação da arte contemporânea, “Chão” é também uma investigação sobre a natureza da arte – por exemplo, ao extrapolar os limites da dança e da performance. “Não se trata de uma coreografia no sentido convencional”, afirma Rider, que diz se considerar menos um coreógrafo que um “artista da dança”. “Trabalho com questões do tempo e do espaço, e do corpo dentro desse tempo e espaço”.

Outro ponto é o caráter de “Chão” como processo, em vez de criação acabada: “Para mim, processo é performance. O papelão se modifica por causa do trabalho, e perceber isso é perceber a vida, o organismo vivo que é o processo de criação”.

O aspecto de obra inacabada, por sua vez, tem a ver com o papel participativo do espectador contemporâneo: “Isso faz parte do conceito do trabalho: quem vai contribuir com a construção da obra é o público em sua interação com ela”.

UMA OUTRA LINGUAGEM

Getúlio Lima e Dimas Mendonça vêm de práticas bem diferentes na arte – o primeiro é bailarino/coreógrafo do Corpo de Dança do Amazonas e professor de Dança, e o segundo é ator/performer. A despeito disso, eles abraçam o desafio da busca por outras linguagens com o trabalho em “Chão”.

“Quando trabalhei em ‘Blocorpo’ me senti sem chão”, afirma Lima. “Trabalhar esses processos me instiga, e busco trazer isso para meu lado pedagógico, para mostrar aos alunos esse outro panorama. O movimento ainda é muito presente nessa geração, o que não é ruim, mas é preciso conhecer o que está acontece na arte hoje”.

“Sou muito atraído pela linguagem do trabalho”, afirma Mendonça. “A obra te leva a outro lugar, não definido ou conhecido, mas que tem muito a comunicar também”.



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