Sexta-feira, 14 de Maio de 2021
Exposição

Representação indígena na 34ª Bienal de São Paulo

Uýra Sodoma compõe a lista dos 90 artistas que participarão do evento, um dos três principais do circuito artístico internacional, que acontece de 04 de setembro a 05 de dezembro de 2021



Uyra-min_Easy-Resize.com_998366C5-814F-43EB-BCCB-F960AD791843.jpg Uýra é a única representante da Região Norte (Foto: Phil Limma)
04/12/2020 às 17:51

Entidade do mato em carne de bicho e planta, Uýra Sodoma – vivida pelo artista visual e também biólogo Emerson Uýra – marcará presença na mostra coletiva “Faz escuro mas eu canto” da 34ª Bienal de São Paulo, que acontece em 2021. A exposição – intitulada com o verso do poeta amazonense Thiago de Mello – contará com a participação de 90 artistas.

Até o momento, 50 nomes já foram anunciados, sendo o de Uýra o único representante da Região Norte. A “árvore que anda” irá apresentar dois trabalhos inéditos: a série fotográfica “Retomada”, em parceria com o fotógrafo Matheus Belém, e a instalação “Malhadeira”, em conjunto com a artesã Neide Garrido, da comunidade do Tumbira, no Rio Negro.



Além disso, levará ao público uma seleção do acervo de ensaios feitos nos últimos cinco anos: “Elementar” e “Mil quase Mortos”, que contam com produções dos fotógrafos Matheus Belém, Ricardo Oliveira, Lisa Hermes e Katja Hoelldampf.

Conforme o corpo curatorial do evento internacional, os registros são, ao mesmo tempo, “ações de denúncia e a evocação de seres ancestrais ou futuristas, entre utópicos e apocalípticos, de uma beleza perturbadora”.

Originais

Os dois novos trabalhos de Uýra serão feitos especialmente para a Bienal. “Retomada”, segundo Emerson, será concretizado até o primeiro semestre do ano que vem, abordando o processo de sucessão ecológica, ou seja, o crescimento de plantas em locais de abandono na cidade, onde a floresta foi retirada. “É um processo que estou em pesquisa há sete anos”, pontua.

A proposta é estabelecer nexos desse crescimento com as técnicas de sobrevivência, ocupação e reintegração exercidas pelos grupos vulnerabilizados. “Investigo como crescer, sobreviver e retomar esses espaços de caos. É o que fazem essas plantas e o que fazem cotidianamente as populações indígenas e pretas, as mulheres, os grupos sem-terra. Todo dia, eles se reinventam e reterritorializam a vida em locais hostis”, enfatiza.

Já “Malhadeira” traz uma crítica à atuação de Antônio Constantino Nery, governador do Amazonas no início do século passado. Isso porque, segundo Emerson, ele foi responsável, mas não responsabilizado, pela chacina de indígenas do povo Waimiri-Atroari e também pelo aterramento de parte da malha hidrográfica que banhava a cidade para a construção da avenida que leva seu nome. “Trago dois fatos: o genocídio indígena autorizado pelo Governador e a criação de uma avenida que cobriu muitos igarapés de Manaus. Estabeleço conexão entre estes fatos e a destruição da natureza e da vida, de modo geral”, destaca.

Saiba mais

>> Tema da Bienal

O verso “Faz escuro mas eu canto”, tema da exposição da 34ª Bienal de São Paulo, foi tirado do poema “Madrugada camponesa” de Thiago de Mello, publicado em seu livro homônimo de 1965. Em uma das cartas do corpo curatorial (composto por Jacopo Crivelli Visconti, Paulo Miyada, Carla Zaccagnini, Francesco Stocchi e Ruth Estévez), que tornam públicas reflexões sobre a construção da mostra, a equipe declara: “Decidimos chamá-la ‘Faz escuro mas eu canto’. Porque estamos em tempos escuros. (...) Decidimos chamá-la ‘Faz escuro mas eu canto’. Porque no escuro também há cantos. Porque as vozes que cantam se ouvem sem luz. Porque acreditamos na importância do canto (...). Faz escuro, então cantemos”.

Repórter

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