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ARTE CONTEMPORÂNEA

Artista plástico Roberto Evangelista é destaque de projetos em Manaus e São Paulo

A convite do Sesc Ipiranga, Evangelista remontou instalação icônica 20 anos depois da primeira exibição 28/03/2017 às 13:16
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Exposição "Contaminações" mostra ligação entre "Ritos de Passagem" e livro de Luiz Ruffato
Rosiel Mendonça Manaus (AM)

Quando Luiz Ruffato buscava a melhor maneira de transpor a complexidade da cidade de São Paulo para a ficção, no que se tornaria o seu primeiro romance (“Eles eram muitos cavalos”, 2001), uma instalação artística dos idos dos anos 90 voltou à memória do escritor como uma resposta às suas inquietações. A obra em questão era “Ritos de Passagem”, instalação que o acreano-amazonense Roberto Evangelista apresentou na 23ª Bienal de São Paulo, em 1996, e que teve o efeito de uma “iluminação” para Ruffato. 

Essas “conversas” entre distintas expressões da arte, da música ao teatro, são o mote da exposição “Contaminações”, que abre ao público nesta terça-feira (28) no Sesc Ipiranga, na capital paulista. O evento contará com a presença não só de Ruffato e Evangelista, mas de outros escritores que foram influenciados ou influenciaram diferentes linguagens artísticas, como Ignácio de Loyola Brandão e Sérgio Sant’Anna.

Durante a mostra, todas essas obras estarão representadas nos espaços do Sesc Ipiranga, incluindo “Ritos de Passagem”, especialmente remontada depois de 20 anos da sua primeira exibição. 

“Essa instalação foi criada exclusivamente para a 23ª Bienal, que naquele ano tratava da desmaterialização da arte, e só agora ela está sendo mostrada novamente. É o famoso revival”, brinca o artista, um dos principais representantes da arte contemporânea do Amazonas. “Jamais pensei que isso fosse acontecer, porque o Luiz Ruffato não convidou só o artista Roberto Evangelista, mas também a obra que marcou o romance dele”.

O contexto

“Ritos de Passagem” reúne mil caixas de sapatos, dois mil sapatos e grandes blocos que representam pedras retiradas de uma calçada da cidade de Manaus. Na visão de Evangelista, as pedras extraídas do tecido urbano são uma crônica do colonialismo. “Os navios portugueses traziam em seus porões, pedras cortadas, usadas para pavimentar as ruas das cidades amazônicas que se modernizavam no ‘boom’ da borracha”, conta.

O paradoxo, segundo ele, é que essas pedras hoje são consumidas por sapatos feitos de borracha sintética, funcionando como ícones do declínio da economia extrativista do início do século 20. Para o artista, a calçada, como parte da rua, é o lugar coletivo de um rito de travessia diário e constante. “A vida flui como um rio, potente metáfora do tempo. A instalação poderia ser um anti-rio. Cada pedra seria a imobilidade registrando as vidas que por ela transitam”, detalha.

Evangelista acredita que a simplicidade desse amontoado de calçados usados foi uma fonte de insight para Ruffato durante a escrita de “Eles eram muitos cavalos”. “O livro em si tem um desdobramento da instalação, apesar de não aparecer explicitamente. A obra do Luiz traz uma espécie de contextualização da instalação diante da realidade urbana de São Paulo. É uma leitura que ele fez, certamente”.

Novos olhares

Para o artista plástico, a possibilidade de reapresentar a instalação depois de tanto tempo também permitiu que novos sentidos emergissem dela. Evangelista define a experiência como intensa e surpreendente.

“Uma instalação tem que se adequar ao espaço concedido, e o do Sesc Ipiranga é menor do que o usado na Bienal. Por conta dessa diferença de dimensão, a obra ganhou um corpo muito mais intenso, revelou uma força talvez maior do que no primeiro momento em que foi exposta. Foi possível evidenciar a proposta, o que possibilita uma leitura mais clara e contundente por parte do espectador”, avalia ele.

A remontagem de “Ritos de Passagem”, inclusive, inspirou o Sesc Ipiranga a iniciar uma campanha para arrecadar os sapatos que seriam utilizados na instalação. Após o encerramento da mostra, a proposta é doar os calçados para instituições beneficentes.

Ensaios críticos

No dia 28 de abril será lançado em Manaus o livro “Ritos”, uma coletânea de ensaios críticos sobre as obras de Roberto Evangelista. Na organização dos textos e produção da obra estão James Araújo e Verônica Gomes. Segundo eles, o projeto foi idealizado pelo doutor em Sociologia Ernesto Renan de Freitas Pinto, também membro da Academia Amazonense de Letras.

Os autores dos ensaios que compõe a publicação são, em sua maioria, artistas plásticos, críticos de arte ou curadores com atuação no Brasil ou no exterior: Guy Brett, Diane Armitage, Paulo Herkenhoff, Márcio Souza, Renan Freitas Pinho, Otoni Mesquita, Rita Loureiro, Óscar Ramos, Luiza Ruffato, Luciane Páscoa, Ruy Fabiano, Viviane Matesco, Cristovao Coutinho, dentre outros.
 

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