Domingo, 16 de Maio de 2021
Televisão

Artistas indígenas do Amazonas participam do 'Falas da Terra'

Djuena Tikuna e Emerson Uýra integram especial da Rede Globo que dá visibilidade à cultura e às causas indígenas. Programa será exibido no dia 19



osdois_A276FD01-E86D-4D5E-BCEA-8DEF302E93D2.jpg Djuena Tikuna (à esq.) e Emerson Uýra (à dir.) (Fotos: Diego Janatã [Djuena] e Igor Tripoli [Emerson])
17/04/2021 às 17:55

As diversas batalhas dos povos indígenas no Brasil, como a luta pela preservação das culturas e línguas, pelo respeito à diversidade dos povos e pela defesa da demarcação de terras são alguns dos temas do especial “Falas da Terra”, a ser exibido nesta segunda (19) - data em que se celebra o Dia do Índio - na Rede Globo, logo após o BBB 21. Dois artistas indígenas do Amazonas participam do programa: a cantora e jornalista Djuena Tikuna, 36, e a artista visual, bióloga e arte educadora Emerson Uýra, 30. Ao todo, o projeto reúne cerca de 25 indígenas, entre entrevistados, produtores e diretores no registro documental histórico.

A participação de Djuena no especial dá destaque à cultura e a como esta fortalece os povos indígenas. “Fala sobre a importância da música e da língua materna, afinal, ela é um dos tesouros mais valiosos que o colonizador não conseguiu destruir no meu povo. Cantei a canção ‘Yiemagü Rü Nainecü’ (‘Nós somos a floresta’), de minha autoria. Cantei ela porque representa a nossa luta pelo meio ambiente e a nossa identificação com a floresta que faz parte de nós. Um trecho dela diz: Hoje a floresta está triste/Os rios estão secando/Os pássaros não cantam mais, só sabem chorar/O céu sangra e as borboletas voam para longe”, coloca Tikuna. 



Emerson, que dá vida à entidade Uýra Sodoma - uma manifestação em forma de bicho e planta que se move para exposição e cura de doenças sistêmicas coloniais - chama a atenção, no projeto, para um futuro que parece em curso de total caos. “Não somente para a vida indígena, mas para todas as vidas que habitam o Brasil e o resto do planeta, por consequência da perda da Floresta Amazônica. E proponho um choque de realidade para afetar mesmo as pessoas, para que se engajem, se envolvam e se pertençam à floresta. Para mim, a floresta segue sendo destruída porque parece que ela não é importante. Na minha fala, busco demarcar várias importâncias da floresta para a nossa vida humana e para a vida de tudo o que vive nesse planeta”, afirma. 

Locações

Cada artista gravou sua passagem pelo especial em lugares diferentes. Djuena fez o registro das imagens em março de 2021 em São Luís (MA), onde ela mora atualmente e desenvolve trabalhos de pesquisa musical e de jornalismo independente. “O local escolhido foi o Teatro Arthur Azevedo. Escolhido em alusão ao nosso evento no Teatro Amazonas, quando em 2017 ocupamos o majestoso com a resistência dos povos indígenas em um ato show histórico”, conta ela. A cantora foi a primeira indígena a protagonizar um show no maior templo artístico da capital amazonense. 

Já Emerson gravou as imagens na capital federal, também no mês passado. “Gravamos em locais de grande contraste ambiental na cidade de Brasília (DF). Construímos as locações, eu e a equipe de produção”, coloca a artista visual.

Avanços e desafios

Para Djuena, a maior conquista dos povos indígenas é poder contrariar a história e se manterem vivos até aqui. “Por mais que acreditassem que seríamos exterminados, aculturados, assimilados. Nada é mais importante do que afirmarmos que existimos porque resistimos. E isso tem que ficar bem nítido para as futuras gerações, para que não esqueçam que somos herdeiros da resistência e temos um longo caminho pela frente, em busca de respeito e pela garantia de nossos direitos, pela preservação de nossos territórios, dos rios e da floresta. Estamos conseguindo ocupar espaços que durante muito tempo nos foram negados e a Internet tem um papel fundamental nesse processo”, enfatiza. 

Djuena se sente muito honrada em poder representar o seu povo em uma obra como “Falas da Terra”, por se tratar da primeira vez em que os povos indígenas tem direito de fala em rede nacional. “Mesmo que nos intervalos eles digam que o ‘Agro é pop’, o Brasil vai ouvir as nossas verdades, os impactos do garimpo e do agronegócio na vida da nossa gente. O poeta ainda disse que ‘a revolução não seria televisionada’. Estamos nos mobilizando. É preciso mostrar ao mundo as cores da nossa diversidade e a realidade que vivemos, que é de resistência”, ressalta.

Desde a promulgação da Constituição de 88, quando os indígenas passaram a ser considerados brasileiros e brasileiras, os povos iniciaram uma ocupação que contra-coloniza o processo excludente e tão grave que ocorre ainda a partir do racismo contra os indígenas, segundo Emerson. “Vemos e temos cada vez mais nos organizado em associações dos povos, desenvolvido uma série de ações e projetos no campo do empreendedorismo. Muitos artistas indígenas têm ganhado os palcos de várias cidades cantando, pintando e ilustrando, desenvolvendo múltiplas formas de manifestar as nossas lutas, direitos e realidades”, comenta.

Nas palavras da artista, prevalece ainda dentro do imaginário dos brasileiros a imagem de um “índio caricato”, que provém do século 16 e que, conforme Emerson, “força e permite uma certeza para muitos brasileiros de que indígenas não existem mais”. “Que os indígenas só existem dentro das aldeias, quando nós habitamos, na verdade, todos os lugares. Estamos em todos os espaços da sociedade, apesar do racismo. A não demarcação, a burocratização da demarcação de terras, de modo geral são hoje o que falta ser viabilizado em relação aos nossos direitos de habitar e estar. Precisamos fortalecer as secretarias de saúde indígenas, os polos que atendem indígenas, principalmente os parentes que estão aldeados, mas não somente eles. Precisamos que sejam reconhecidos os indígenas que habitam a cidade, para que a gente alcance o mínimo de reparação social e política”.

União

A produção reuniu profissionais indígenas em sua concepção e criação, como o líder do Movimento Socioambiental de Defesa dos Direitos Indígenas, Ailton Krenak; o artista e ativista Ziel Karapotó; a cineasta Graciela Guarani; a jornalista e documentarista Olinda Tupinambá e o cineasta e realizador Alberto Alvarez. Eles auxiliaram na seleção dos personagens e conduziram os diálogos durante as gravações.

Frase

"A nossa conquista é saber que, em meio a tantos conflitos, continuaremos existindo através das nossa resistência, com a demarcação de nossos territórios, a chegada dos povos indígenas nas universidades, na Câmara Federal (Congresso), nos espaços de poder e de decisão, e as mulheres indígenas cada vez mais ocupando os espaços que também é de direito. É uma dando as mãos às outras, dando visibilidade cada vez mais no espaço político. Nós, povos indígenas, estamos mostrando ao mundo que é através do nosso modo de vida, do conhecimento e da nossa conexão com a nossa espiritualidade através da nossa ANCESTRALIDADE que resistiremos aos ataques, sejam eles quais forem. Continuaremos a resistir para existir".

Telma Taurepang (RR)

Integrante da coordenação da União de Mulheres Indígenas na Amazônia Brasileira e uma das participantes do especial "Falas da Terra"
 

 

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