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Artistas locais investem em espaços culturais alternativos

Além de companhias e grupos mais antigos como Casarão de Ideias e o Coletivo Difusão, outros artistas e produtores culturais têm buscado maior autonomia, abrindo novos espaços culturais na cidade 14/05/2015 às 13:36
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Fachada do Ateliê 23 - Casa de Criação, um dos novos espaços
Jéssica Amorim Manaus (AM)

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Nos últimos cinco anos o cenário cultural de Manaus tem se intensificado em produções e novas companhias artísticas continuam se formando. Talvez inspirados também pela implantação dos cursos de Teatro e de Produção Audiovisual, que dão o suporte de formação, mais e mais artistas têm criado seus próprios grupos de trabalho e pesquisa.

Em busca de verdadeira autonomia, artistas amazonenses assumiram a função de gestores e produtores culturais para arquitetar espaços físicos que acomodassem seus trabalhos e suas necessidades, e compreendessem seus processos. Na primeira de três reportagens da série “Resistência”, que será publicada às quintas-feiras, vamos mostrar histórias de luta de produtores e artistas locais na busca de mais espaço para as artes.

Além do Casarão de Ideias, coordenado pelo artista João Fernandes, e o Coletivo Difusão, que já movimentam o panorama artístico e alternativo local há anos, outros grupos têm se consolidado.

É o caso do veterano Francisco Rider, que inaugurou em novembro do ano passado, no subsolo de um imóvel localizado na rua Joaquim Nabuco, no Centro, o “Lugar Uma de Artes”.

O recinto, que já pertenceu a uma italiana que dava aula de francês, Dona Catarina, hoje é patrimônio das irmãs de Santa Teresinha e foi alugado pelo artista para ser transformado em um laboratório de investigação artística. Além de ser ocupado pelo “Projeto Cênica Corporal Uma” de Rider, o local também é movimentado pelo artista Odacy Oliveira, pela companhia Contém Dança Cia/Ateliê de Criação, sob coordenação de Francis Baiardi, e pela produtora Artrupe Produções Artísticas.

No subsolo, o Lugar Uma possui arcos interiores que faz lembrar um templo, mas uma rede e pequenos bancos quebram essa perspectiva. “O lugar parece uma casa, mas não é, parece uma capela, mas não é, parece uma mesquita, mas não é. Acho essa arquitetura interessante. Gosto desta ideia de lar, abrigo”, compartilha Rider sobre suas sensações ao se deparar com o local, que teve que ser completamente revitalizado por seu tempo de esquecimento.

Mesmo não sabendo estimar o valor total gasto com a revitalização, Rider conta que além de gastar mensalmente em torno de mil e quinhentos reais com aluguel e contas, muito dinheiro se movimentou para transformar o Lugar Uma no que é hoje. E afirma que a contribuição dos outros núcleos é fundamental para a sustentabilidade do lugar, devido à grande demanda de gastos. Ainda assim, ele não se mostra desmotivado com as dificuldades. 

“Acho fundamental os grupos terem seus espaços. Para investigar minhas coisas, um local ajuda muito a se focar. Além disso, antes, quanto não tinha um espaço, tive que doar vários objetos cênicos e figurinos por não ter onde deixar”, explica o artista.

Ainda pelo centro

Quem também apresentou essa motivação para abrir um lugar alternativo na cidade foi o diretor e bailarino da Cia de Intérpretes Independentes, Ricardo Risuenho, que juntamente com a bailarina de sua companhia, Anna Raphaella Costa e Valdo Malaq, diretor da Momento Cia de Dança, alugou e adequou o segundo piso de uma antiga academia para a criação do “Espaço das Cias”.

Segundo Risuenho, para reformar o lugar de acordo com suas necessidades foram investidos trinta a quarenta mil reais, dividido entre as duas companhias e parte do dinheiro não teve fomento cultural envolvido. “Mas tínhamos essa necessidade. É uma questão de ter onde produzir profissionalmente e apresentar seu trabalho”, diz.

Localizado a um quarteirão do Largo São Sebastião, na Rua Dona Libania, o espaço foi pensado para tentar suprir uma demanda dos grupos e companhias de Manaus: a dificuldade de encontrar locais para realização de ensaios e/ou apresentações.

Por isso, o Espaço das Cias oferece pautas para outros grupos e companhias através de locação, o que garante uma rotatividade do local e colabora com a manutenção.

E esse esquema também funciona para o “Ateliê 23 – Casa de Criação”. Também próximo ao Largo, o espaço se encontra na rua Tapajós e foi concebido pela companhia de mesmo nome, sob direção do artista Taciano Soares.

A primeira fase da reforma durou três meses e foram gastos dez mil reais na revitalização. “Quando chegamos aqui, não havia água, nem luz, nem fiação elétrica e o forro estava deteriorado. Ainda não está completo. Temos um ambiente que funcionará como bar e uma das salas será um estúdio de música”, diz.

Inaugurado no final do mês de março, o Ateliê 23 também surge com necessidade e inquietação. Taciano conta que em uma peça anterior da companhia, “Fando e Lis”, o grupo mudou o local de ensaio oito vezes em quatro meses, por não ter um lugarfixo para trabalhar. 

“Me sinto muito sortudo, por mais que tenham tantas dificuldades ao nosso redor, é de fato mais que importante o firmamento de um espaço físico para a liberdade de uma companhia artística. É a liberdade de pensamento, criação e diálogo”, compartilha Taciano.

Apoio esperado

Mesmo com toda a guerrilha e determinação em manter seus espaços ativos, e ainda em época de crise econômica e política, os artistas demonstram que suas razões são motivadas também pela falta de apoio público.

Taciano acredita ser uma grande responsabilidade ter um lugar alternativo na cidade, mas é preciso esse tipo de iniciativa. “Entendemos isso desde antes da sede do Ateliê 23. Manaus é uma cidade com enorme potencial e baixíssimas condições de estímulo e desenvolvimento do cenário artístico”, explica.

Risuenho conta que muitas vezes fez trabalhos para serem apresentados na rua por não conseguir um local adequado para apresentar. “O Espaço das Cias surge disso. A maioria dos locais públicos fica sem nada boa parte do ano e tem sido difícil consegui-los. Nós precisamos de temporadas para amadurecer nosso espetáculo”, fala.

Segundo Rider, que passou muito tempo fora da cidade, desde que voltou, em 2009, várias vezes encaminhou ofícios solicitando lugares da Secretaria de Cultura e as respostas positivas foram raras, o que atrapalhava seu processo.

Para ele, como cidadãos e sujeitos autônomos é importante não esperar somente pelo poder público, mas lamenta o descaso. “Há dois anos que não há editais da Secretaria de Cultura. Não podemos ser reféns de editais, claro, mas eles são necessários, já que é dinheiro público, e como pagamos impostos, precisamos desse retorno. Então eu estou com um lugar, e não é uma questão de ego ou vaidade, mas de necessidade mesmo”, diz.

Editais Públicos

Por meio de sua assessoria de imprensa a Secretaria de Estado de Cultura (SEC) esclareceu que em maio do passado, o Governo do Estado do Amazonas lançou, pelo Programa de Apoio às Artes 2014 (Proarte 2014), somente o edital Intercâmbio e Difusão. E para a ocupação dos espaços, neste ano promove o Edital de Cessão de Uso, que ainda está em aberto, recebendo propostas para a utilização dos espaços coordenados pela SEC. As inscrições seguem até o dia 22 de maio. Mais detalhes do edital no site www.editaisculturamazonas.com.

E no dia 5 de maio foram encerradas as inscrições nos Editais de Cultura da Prefeitura de Manaus, por meio da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (ManausCult). Entre eles o edital de Ocupação Artística, que selecionará doze projetos com objetivo de ocupar escolas públicas da rede municipal de ensino, ruas, praças e outros ambientes culturais da cidade de Manaus.

Segundo Diego Monnzaho, diretor de cultura da ManausCult, este é o primeiro edital da região Norte com este caráter. “Esta é uma ação inédita, o edital oferece à sociedade a oportunidade de ocupar espaços culturais da cidade”, diz.

O “Lugar Uma de Artes”, o “Espaço das Cias” e o “Ateliê 23 – Casa de Criação” inscreveram também seus projetos de ocupação neste edital.

Na próxima reportagem, vamos mostrar a trajetória de artistas locais em busca de novos horizontes.

Serviço

Lugar Uma de Artes

Onde: Rua Joaquim Nabuco, 1.436

Info: dancedemente@hotmail.com / Página Facebook

Espaço das Cias

Onde: Rua Dona Libânea, 300

Info: (92) 98225- 0216 / (92) 98175-2366 / Página Facebook

Ateliê 23 – Casa de Criação

Onde: Rua Tapajós, 166

Info: (92) 3304-2147 / Página Facebook

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