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Artistas procuram experiências além das fronteiras do Amazonas

Selecionados para intercâmbios e residências artísticas dentro e fora do País, amazonenses levantaram voos temporários da terra natal para buscar crescimento profisional; no caminho, encontraram muitos desafios e experiências 21/05/2015 às 13:25
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O acritica.com produziu um vídeo com a bailarina Francis Baiardi e a atriz Ana Oliveira sobre os intercâmbios que elas fizeram
ROSIEL MENDONÇA Manaus (AM)

CONFIRA O VÍDEO AQUI

Na segunda reportagem da série “Artes Cênicas e Resistência”, o BEM VIVER traz histórias de artistas amazonenses que se lançaram no desafio de buscar outras experiências fora de Manaus. Os motivos são muitos: desde o desejo de escapar da rotina até a necessidade de expandir a visão sobre a sua própria arte ou complementar uma formação acadêmica muitas vezes insuficiente.

Esse é o caso do ator Ítalo Rui, de 20 anos, aluno do curso de Teatro da UEA. Ele passou a viver num fuso horário com 5h de diferença em relação a Manaus desde que foi aceito no programa Santander Universidades para fazer uma graduação sanduíche (equivalente a um semestre letivo) na Universidade de Coimbra. Lá, ele escolheu estudar algumas disciplinas do curso de História da Arte, dentre elas Arte Contemporânea e Iconografia.

“Sentia que as disciplinas que eu estudava aí no Brasil tinham pouquíssima relação com as outras linguagens artísticas, que nos isolávamos demais”, justifica. “É muito bom perceber que os mesmos questionamentos que discutimos no teatro também são discutidos na pintura, na escultura, no modo de pensamento sobre o que é arte, sobre porque continuar fazendo arte”.

Rui chegou a Portugal sozinho e sem conhecer ninguém, mas a nova realidade acabou sendo um exercício de maturidade acadêmica, artística e pessoal para o ator. “Estou em um país com uma cultura bem diferente da que eu fui criado, estou morando sozinho, com pessoas diferentes e de várias partes do mundo, então você precisa se virar para fazer suas coisas aqui. Além disso, você aprende com as experiências de cada pessoa”.

No fim das contas, o balanço é positivo, mesmo que Ítalo tenha sido obrigado a adiar para o próximo ano a conclusão do curso na UEA. “Sair da nossa zona de conforto é bom. A gente sofre um pouco, mas vale a pena”, acrescenta o amazonense, que volta à terra natal em junho e pretende compartilhar as vivências de além-mar com os colegas do Grupo Garagem.

VÍNCULOS

No Rio de Janeiro para um curso de dois anos e meio na conceituada Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, o ator Danilo Reis diz que a sensação de driblar as dificuldades do meio artístico manauara com uma “fuga” da cidade não é nada confortável, ainda que essa seja uma forma de resistir (e persistir) dentro da arte. “Deixar casa, amigos, trabalhos, com certeza demanda muita resistência da parte de quem o faz; é uma luta gigante para se afirmar e buscar se engrandecer enquanto realizador de arte”.

Os atores Ítalo Rui e Danilo Reis, que estão estudando em Coimbra e Rio de Janeiro, respectivamente (Divulgação)

A Cidade Maravilhosa é só mais um destino que Reis escolheu para ampliar seus horizontes na profissão – do ano passado para cá, ele teve experiências com os grupos Lume Teatro (SP), Club Noir (SP) e Maria Cutia (MG). Agora no Rio, ele divide o tempo entre as aulas na Martins Pena e os trabalhos de criação na Casa 407, companhia que ele ajudou a fundar recentemente.

“Vim em busca de formação artística. Infelizmente, em relação a Manaus, ainda temos uma cena cultural mais ativa aqui no Rio. E isso por conta de vários fatores. O número de cursos, oficinas, universidades e grupos interessados em pesquisas e trabalhos artísticos é muito grande”, compara.

“Saí de Manaus três anos após ter criado a Artrupe Produções com amigos. Hoje, mesmo afastado da cidade, ainda consigo me envolver nos projetos dessa produtora e pretendo não perder esse vínculo. Acredito que essa seja minha forma de resistência”.

TEMPORADA NO CLUB

Companhia tocada por Roberto Alvim e Juliana Galdino num dos endereços mais conhecidos de São Paulo, a Rua Augusta, o Club Noir tem sido um proveitoso espaço de trocas para os amazonenses Dimas Mendonça, Guta Rodrigues e Denni Sales. Com recursos do Edital Conexão Cultura Brasil, do Ministério da Cultura, eles partiram para uma residência de dois meses com os diretores e encontraram o grupo em plena produção de três peças novas.

“Essa é a primeira residência que faço, e a experiência tem me possibilitado refletir sobre método. Eles possuem um método peculiar, no qual a prática é estritamente importante. A Juliana e o Roberto possuem suas escolhas estéticas e constantemente precisam convergir ideias e posturas. Isso torna o trabalho muito rico”, destaca Denni.

Denni, Guta e Dimas com o diretor Roberto Alvim, no Club Noir (Divulgação)

Segundo Guta, o foco dos três é expandir a percepção sobre a cena e a dramaturgia contemporânea, além de aproveitar ao máximo a oferta de atividades culturais que São Paulo oferece. “As técnicas e dinâmicas apreendidas nas oficinas com o Alvim e a Juliana serão primordiais para a elaboração de nossa contrapartida quando retornarmos, que será a criação de uma cena teatral e oficinas a partir das experiências adquiridas nessa residência”.

A ideia de passar dois meses com o Club Noir partiu da necessidade de levar a um outro patamar o Processo Natimorto, experimento cênico e performático idealizado por Dimas Mendonça em 2010 e com diversas ações já realizadas em Manaus. Segundo ele, o grupo voltará de São Paulo mais preparado para sua primeira incursão na dramaturgia. “A residência te dá a possibilidade de uma vivência 24h com o seu trabalho, com a sua pesquisa. E estando em outra cidade, é primordial sua interação espacial e ideológica com as forças e vidas que movimentam o outro lugar”, diz.

Para o artista, Manaus ainda tende a deixá-lo “mais confortável”. “Muito por causa da disposição pessoal mesmo, da comodidade e ritmo que tudo tem. Ver um outro tempo, outras disposições, outros interesses na relação do Club Moir com o fazer teatral, motiva em mim outra percepção de envolvimento com a arte”.

BLOG: Roberto Alvim, diretor do Club Noir

“Sempre foi muito interessante receber artistas de várias partes do mundo na medida em que estabelecemos uma relação de troca. No caso do Dimas, da Guta e do Denni, eles ficaram como nossos assistentes de direção nas quatro peças que estamos ensaiando, e eles têm feito observações pertinentes e profundas. O suporte mútuo e a simples presença de uma escuta atenta nos estimulam a externar o conhecimento de uma forma mais clara e potente. Demos o melhor para eles e eles estão dando o seu melhor para nós”.

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