Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
NOVELA

Atriz Darília Oliveira faz imersão na cultura árabe para viver Áida em 'Órfãos da Terra'

Engajada em coletivo feminista, artista comenta sobre papel de Áida na novela da Globo



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Vinicius Mochizuki/Divulgação
06/05/2019 às 18:04

Na novela “Órfãos da Terra”, que ocupa a faixa das 18h na Globo, Áida é uma das três esposas do violento sheik libanês Aziz Abdallah (Herson Capri). Ambiciosa, ela se desdobra para cuidar da família e da filha, apesar de se sentir preterida. Em capítulos recentes, a história da jovem muçulmana passou por uma reviravolta depois que ela denunciou ao marido a infidelidade de Soraia (Letícia Sabatella), a primeira esposa. Resultado: Soraia acabou punida com a morte e Áida foi expulsa de casa.

Quem ajuda a desvendar a personagem é a atriz fluminense Darília Oliveira, escalada para o papel da primeira fase do folhetim de Duca Rachid e Thelma Guedes. “Ela era extremamente submetida ao marido e a relação entre eles era traçada pela fidelidade, pelo respeito e pelo medo. Áida aproveitou o aparecimento de um conflito para conseguir galgar um espaço dentro da estrutura familiar”, conta a artista, formada em teatro e cinema e com participação em novelas como “Meu Pedacinho de Chão”, “Dois irmãos” e “Velho Chico”.

Para viver Áida na telinha, Darília fez uma verdadeira imersão na cultura árabe e em estudos sobre o islamismo. Uma das experiências mais marcantes foi quando assistiu ao filme libanês “Cafarnaum”, ganhador do Prêmio do Júri no Festival de Cannes do ano passado. “Saí desolada da sala do cinema. O filme fala da pobreza extrema no Líbano, e a identificação com a realidade brasileira foi imediata. Nunca visitei o país e, para mim, foi impactante perceber a semelhança miserável em que vivem ambas as sociedades”.

Além disso, Darília teve aulas de dança, prosódia, história e economia local, mas a parte do processo de preparação que ela julga mais interesse foi o contato com sírios e libaneses. “É muito importante a questão da representatividade em ‘Órfãos da Terra’. Em um trabalho como este, foi fundamental ouvir as narrativas deles, em situação de refúgio ou não”, acrescenta ela, destacando um dos temas sensíveis novela.

“Busquei referências no cinema, nas artes plásticas e li muitos livros e artigos que falavam a este respeito e que ajudavam a construir uma perspectiva mais realista sobre o Oriente Médio. A todo momento me preocupei em não ser negligente com os temas que a novela está abordando. ‘Órfãos da Terra’ dá visibilidade a uma cultura que é constantemente injustiçada e subjugada e, como atriz, me vejo na obrigação de orientar o público a enxergar o mundo árabe a partir de uma outra perspectiva”.

Machismo

Na condição de co-fundadora do “coletivomana”, que chama a atenção para a representatividade feminina na arte brasileira, Darília também buscou ouvir as mulheres muçulmanas e estudiosas da cultura árabe. Nesse caminho, ela se deparou com alguns estudos feministas envolvendo o Islã, como os da professora Francirosy Ferreira (USP), e passou a enxergar semelhanças entre a condição das mulheres brasileiras e libanesas.

“A violência contra mulher é uma questão histórica e global, e não está associada a determinada religião ou contexto cultural. O machismo existe porque a mulher sempre foi colocada, em todas as sociedades, como categoria inferior. Há um movimento feminista no Islã com crescente número de apoiadoras. O Islã não é misógino, os homens são misóginos. Eles interpretam os ensinamentos religiosos segundo suas percepções, por isso existe tanta desigualdade”, afirma.

Três perguntas para: Darília Oliveira

Qual o objetivo do coletivomana?
Machismo, racismo, divisão de classes, idealização da maternidade e do corpo feminino são questões que ainda pesam sobre as mulheres brancas e, principalmente, negras, e reforçam uma imagem de dependência do feminino em relação ao masculino, impedindo que alcancem um lugar de empoderamento dentro ou fora da arte. O desejo de mudança dessa condição despertou o nosso entendimento de que é preciso unir forças, pois é no coletivo que o indivíduo se reconhece e se fortalece. As integrantes se ajudam como podem, e nosso maior objetivo é fomentar os trabalhos autorais das outras mulheres.

Sua atuação no coletivo ajudou você com o papel de Áida?
O meu envolvimento com o coletivo e os estudos feministas me trouxe maior consciência crítica sobre a condição das mulheres, e tem me ajudado na construção da Áida como elemento de denúncia social. A violência do sheik não sairá impune, e acredito que os telespectadores estejam refletindo mais sobre as opressões sofridas pelas mulheres.

Que outros projetos está maturando no momento?
Após a novela, pretendo seguir no audiovisual e, paralelamente, concretizar o projeto “Redoma”, uma peça de teatro que tenho em parceria com Letícia Machado, Helena Varvaki e Antônio Karnewale.

Repórter de A Crítica

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