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Breves Cenas premiadas: jurados comentam cenas vencedoras da 5ª edição do festival

O júri do festival este ano é composto por Alexandre Mate, pesquisador e professor de teatro de São Paulo, por Fernando Villar, professor e diretor do teatro em Brasília, e pelo amazonense Jorge Bandeira, diretor, dramaturgo, crítico e professor do curso de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) 30/03/2013 às 22:13
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Cena "Sinais", do Estupenda Trupe (DF), ganhou Prêmio Américo Alvarez de Melhor Breve Cena - Júri Popular
Laynna Feitoza Manaus, AM

“Espetáculos simples, porém completos”, “trabalhos inusitados com domínio de técnicas” e “diversidade de linguagens cênicas e performativas”. Esses foram alguns dos adjetivos utilizados pelo júri da 5ª edição do Festival Breves Cenas de Teatro, que aconteceu no período de 20 a 25 de março, no Teatro Amazonas, situado no Largo São Sebastião, bairro Centro, para avaliar as 8 cenas premiadas na mostra competitiva, distribuídas entre 6 categorias. 700 pessoas – capacidade total de público do TA – contemplaram as cenas em cada dia do festival, totalizando 3.500 pessoas presentes nos cinco dias do evento.

De acordo com o ator Dyego Monnzaho, que assina a direção geral do festival juntamente com o ator Francis Madson, o alcance da conquista com o público se deve ao nível de excelência artística galgado pelo evento, que, além das 16 cenas em competição, contou com a reexibição de mais quatro cenas vencedoras de edições passadas, em comemoração ao aniversário de 5 anos do Breves Cenas ('Box Com Palhaçada' (AM), 'O Casamento' (AM), 'E Se Fosse Você Exatamente Aqui, Agora?' (RJ) e 'Amostra Grátis' (RS).

“Neste ano tivemos 16 boas cenas. As qualidades técnicas e estéticas dos trabalhos são muito altas. E isso é passado para o público, que pôde conferir coisas interessantes, ter uma experiência única e mostrar que o teatro ainda vale a pena. Mesmo com toda a aceleração da humanidade, o teatro ainda é algo que merece um destaque”, ressaltou o diretor-geral. Ainda conforme Monnzaho, cerca de mil pessoas não conseguiram entrar no Teatro Amazonas para assistir às cenas, por conta da superlotação do local no período em que aconteceu o festival.

O júri do festival este ano foi composto por Alexandre Mate, pesquisador e professor de teatro de São Paulo; por Fernando Villar, professor e diretor do teatro em Brasília; e pelo amazonense Jorge Bandeira, diretor, dramaturgo, crítico e professor do curso de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Jargão, sucintez e completude – 'Sinais'


A vencedora do Prêmio Américo Alvarez de Melhor Breve Cena – Júri Popular, cena 'Sinais', do grupo Estupenda Trupe (DF), composto pelas atrizes Luciana Amaral e Alana Ferrigno, foi definida por Alexandre Mate como um duo de meninas que, de forma bastante sucinta, mostraram o processo de aprisionamento do universo feminino para atender aos caprichos dos homens que as querem transformadas e deformadas de acordo com os padrões de beleza impostos.

“Elas transitaram com o jargão, que basicamente depois de um determinado momento funcionou como um côro. Todo mundo tem clareza que os homens, na sociedade em que nós vivemos, pulam a cerca, e ao pular a cerca ainda que de modo disfarçado, tanto homens quanto mulheres sabem desta recorrente manifestação masculina. Elas foram bastante comunicativas e tiveram a plateia na mão, como se diz popularmente, e realizaram um espetáculo simples, entretanto, completo”, assegurou o pesquisador, que também é um dos articuladores da Lei de Fomento do Estado de São Paulo (SP).

Domínio de técnica, personagem e transcendência – 'Açougueiro Jack e Seus Cozidos'

Três cenas foram selecionadas no Prêmio Menção Honrosa com Relação a Experiência ao Trabalho Interpretativo: 'Eu Não Sou Cachorro Não', do grupo Cicuta Sem Estricnina (PE), “Açougueiro Jack e Seus Cozidos”, de Albert Carneiro e “O Homem”, de Luciana Arcuri (SP). Dentre estas, o dramaturgo Jorge Bandeira destacou a cena “Açougueiro Jack e Seus Cozidos” como um trabalho inusitado que domina técnicas e a própria composição do personagem.

“A cena tem um trabalho muito inusitado com um tecido relacionado à uma tripa, então a imagem que ele passa, essa imagem uterina dentro de uma própria víscera e toda a composição do personagem é algo extremamente feliz. Foi um grande achado desse intérprete, e salientamos muito a questão da técnica, de que forma ele tem o domínio completo de sua arte, de sua acrobacia, e isso levou a uma apatia com o espectador. É um detalhe curioso porque, durante o debate foi explicado também de que forma a criança encara essa questão da morte. Acho que foi uma grande surpresa também até para o ator, saber de que forma o público infantil pensa a ideia da trascendência. Então foi muito feliz a junção de Jack, desse personagem, da sua tripa, enfim, do que ele colocou ao espectador”, pontuou Bandeira.

Comovente, colaborativo e belo – 'Cidade Solidão'

A cena 'Cidade Solidão', do Multifoco Cia. De Teatro (RJ) arrematou o Prêmio pela Composição Poético-Imagética da Cena. Levemente apoiada em questões existenciais, a cena é composta pelo protesto à não-vivência dos dias e das pessoas, por conta do cotidiano acelerado que não permite sentí-las.

“Um trabalho super comovente. Eles trabalham com textos, é uma criação do grupo, colaborativo com o diretor Ricardo Rocha. Mas eles utilizam também trechos da escritora Marina Colasanti, e do Caio Fernando Abreu. É um trabalho lindíssimo, super recomendado de ser visto pela beleza e muito tocante. A questão da diversidade da linguagem cênica e performativa contemporânea foi bem abordada na premiação do festival”, ponderou o diretor de teatro Fernando Villar.

Humor, inserção multimídia e retrato da luta da classe teatral – 'Nem o Pipoqueiro'


Villar também destacou a sintonia entre humor, inserção multimídia e luta da classe teatral na cena 'Nem o Pipoqueiro', do grupo Coletivo Nu (RJ), que ganhou o Prêmio pelas Características e Formas Ligadas ao Teatro Popular e à Inserção de Mídias.

“É outro grupo carioca que trabalhou muito bem a questão do humor com a questão da inserção de multimídia, e aspirações de jovens atores, a dificuldade de se inserir no mercado. Mas eles conseguem fazer isso sem sair no chororô, muito pelo contrário: conseguem fazer a gente rir e é muito bem construído com o trabalho de projeções, sem deixar de flertar com o teatro popular”, ressaltou Fernando.

Apuro, coesão e organicidade – 'Fractal'


O teatro contemporâneo foi representado pela cena 'Fractal', da Ou Cia. (PR), que experimenta a desconstrução de linearidades na relação de uma mulher e um homem e levou o Prêmio pela Investigação Compositiva para a Cena.

“Fractal é uma pesquisa que, de certa forma, tem muito a ver com Roberto Alvim, um dramaturgo de São Paulo. Acho que trabalha muito bem com a questão técnica, utilizando focos de luz e de marcação precisa dos atores, enfim onde os personagens são fragmentados, mas que parte uma coesão de cena e que com certeza merece o prêmio porque há apuro, uma coesão e organicidade”, completou Jorge Bandeira.

Identidade e consciência de si – 'Pentes'


Vencedora do Prêmio pela Abordagem Temática Através da Cidadania e Identidade na Cena, a cena 'Pentes', do Grupo Embaraça (DF) retratou com comicidade a luta pela quebra de estereótipos de beleza pregados pela sociedade – em relação aos cabelos e à identidade.

“Sou suspeito para falar. Adorei o trabalho, que até a metade parece ser uma farsa rasgada sem tantas consequências, mas depois de apresentar os percalços pelos quais as mulheres têm que passar, sobretudo as afrodescendentes, para se inserirem na moda e serem aceitas por uma moral absolutamente eugenista. Elas dão o pulo do gato e mostram também, como o que foi comentado de 'Sinais', a consciência que essas atrizes têm do legado impositivo perversamente ideológico dessa sociedade eugenista. E no momento em que essa consciência se dá, elas assumem, não só o cabelo que têm com suas características, bem como o fato de isso induzir a terem consciência de si”, comentou Mate.

“Por que a gente não pode usar o cabelo como quer?”, Tuanny Araújo, atriz de Pentes (DF)

Para Tuanny Araújo, uma das cinco atrizes da cena 'Pentes', é emocionante saber que a temática abordada pelo grupo recebe o prêmio acerca da consciência proposta pelo próprio reconhecimento da identidade. O Grupo Embaraça é composto por, além de Araújo, por Camila Paula, Fernanda Jacob, Luiza Ribeiro e Pâmela Alves, possui um ano de existência e foi criado a partir das cinco acadêmicas de cabelos encaracolados do curso de Artes Cênicas da Universidade de Brasília (UnB), cuja cena é oriunda de um projeto de diplomação.

“No nosso trabalho de composição usamos a nossa trajetória de vida para compor a cena. Tudo o que passamos da negação dos cabelos, enfim, podemos nos sujeitar a usar o cabelo assim e retratamos uma cena em forma de depoimentos pessoais, e é aí que a gente começa. Usamos a comédia como forma de atingir o público para ganhar empatia. Nosso desejo é que realmente as pessoas parem e reflitam sobre isso: Por que a gente não pode usar o cabelo como quer? Por que o cabelo é tão discriminado? Por que as pessoas têm que tratar isso de forma tão pejorativa? Usar termos que ofendem as pessoas a partir do cabelo julgado como ruim? Estamos começando a trajetória e estamos, com o prêmio, ganhando um gás a mais para continuar o nosso trabalho”, apontou a atriz.

“Nos localizamos nessa fronteira híbrida do circo com o teatro”, Albert Carneiro, ator de  Açougueiro Jack e Seus Cozidos (DF)

Albert Carneiro, ator da cena 'Açougueiro Jack e Seus Cozidos', explicou que a cena tem a ideia de mesclar o circo ao teatro, é inspirada em Jack, O Estripador, possui fortes influências de Tim Burton e é composta por ressignificações e fantasias de sua própria imaginação.

“Eu ressignifiquei um aparelho circense que se chama corda indiana para a cena, tornando-a uma tripa. Foi super divertido apresentar no Teatro Amazonas, um dos mais importantes do Brasil, e sabia que tinha feito um trabalho bom, mas não esperava o prêmio. Essa cena pertence a um espetáculo maior, que chama “Não alimente os bichos”, que funde teatro e circo também. Nos localizamos justamente nessa fronteira híbrida do circo com o teatro, mas essa mistura é sempre preocupada com a carga dramatúrgica forte, que não considera só a técnica circense e nem somente a teatral, mas a fusão dos dois. O público foi extremamente receptivo e generoso, embarcou mesmo na proposta”, avaliou o ator.

“Comunicar o corpo com a respiração, o riso e a dramaticidade”, Luciana Arcuri, atriz da cena O Homem (SP)


Para Luciana Arcuri, que conduziu a atuação da cena 'O Homem', o mais prazeroso foi ter comunicado ao público o que ela quis comunicar. Segundo ela, a cena falava acerca de várias fusões: a da solidão com a função de estar vivo e viver o agora, da linguagem do palhaço e da comicidade.

“Para mim é como se tivesse sido um “gol” de cena, porque não é só o texto falado, mas o texto corporal. A procura do amor, que é a sinopse do espetáculo, mas a sensação de conseguir comunicar com o corpo, com a respiração, com o riso, com a dramaticidade, com o querer estar junto com alguém... tem toda essa complexidade de um só. É uma cena procurando o amor”, definiu Arcuri.

“É um transgênero do teatro”, Jean Carlos Godoi, diretor de Fractal (PR)

A atriz Hortênsia Labiak, da contemporânea 'Fractal', da Ou Cia. (PR), afirmou a cena como portadora de linguagens diferentes das que costumam ser apresentadas. “Definir a cena é um problema (risos). O próprio texto é completamente desconstruído, não tem uma linha, não tem narrativa ou linha cronológica”, salientou Labiak. “Ao ganhar o prêmio, a gente nem sabia o que fazer, nem tínhamos preparado nada, porque a gente não imaginava o que é ganhar alguma coisa. Aqui fomos muito bem recebidos, as pessoas entram no teatro abertas para as cenas. Ficamos em êxtase”, disse a atriz.

O diretor da cena, Jean Carlos Godoi, afirmou “Fractal” como um transgênero do teatro, referindo-se à diversidade de linguagens mescladas em uma só cena. “Foi bastante especial para nós receber este prêmio. O retorno dos jurados foi justamente este, porque a nossa intitulação foi dada como teatro contemporâneo, mas na verdade ele abarca muitas linguagens. É uma translinguagem”, concluiu Godoi. O elenco da Ou Cia. é composto ainda por Guenia Lemos, Kenni Rogers e Nathan Milléo Gualda.

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