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Chefs comentam banalização do termo ‘Gourmet’ perante um público com sarcasmo treinado

No caderno VIDA&ESTILO do último domingo (4) foi publicada a matéria a respeito de duas novidades na seção de sobremesas geladas: as paletas mexicanas e os dindins bárbaros, no Facebook, e boa parte dos leitores focou apenas no aspecto 'gourmet' das iguarias, deixando o sarcasmo exceder a novidade em si 06/01/2015 às 11:37
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Os Dindins Bárbaros, de sabores exclusivos criados pela Chef Milene Ribas, foram satirizados pelo termo gourmet
Loyana Camelo Manaus (AM)

Antes de sua massiva popularização e uso indiscriminado, o termo “gourmet” significava, segundo o senso comum, a releitura de uma receita de forma sofisticada. A definição original ensina: gourmet é aquilo associado à ideia de “haute cuisine” (ou alta cozinha), a artes culinárias e ideais culturais. Em outras palavras - um prato com toque quase artístico e com capacidade de elevar os cinco sentidos ao máximo. Não parece trabalho para qualquer um. Mas nos últimos tempos, o conceito se pulverizou em tantos menus que o real sentido se perdeu. E o público, até pouco tempo alheio à linha tênue entre o gourmet e o não-gourmet, anda de olhos mais abertos - às vezes de forma até exagerada.

No caderno VIDA&ESTILO do último domingo (4) foi publicada a matéria a respeito de duas novidades na seção de sobremesas geladas: as paletas mexicanas, recém-chegadas na capital amazonense, e os dindins bárbaros, feitos artesanalmente pela Confeitaria Bárbaros. Doutrinados principalmente pela fan page do “Raio Gourmetizador” (www.facebook.com/raiogourmetizador/) no Facebook, boa parte dos leitores focou apenas no aspecto “gourmet” das iguarias. O sarcasmo treinado sobrepuja a novidade em si.

Na opinião de Maurício Pardo, da Bárbaros Confeitaria, a raiz para esse tipo de comportamento não está apenas na comida. Por ser uma palavra da moda, a “gourmetização” se alastra por vários segmentos da vida. “O gourmet serviu pra se criar uma diferenciação entre o trivial e algo mais sofisticado. E essa sofisticação não é só na comida. Começou na música, no vestir, nos carros”, diz. No caso específico da gastronomia, ele acredita que o fato de alguns chefs/restaurantes sentirem necessidade aplicar tal palavra em tudo, está ligada unicamente a estratégias comerciais. Em outras palavras: é comprar gato por lebre.

“É uma tentativa de se ganhar um espaço no mercado em cima da palavra. É pensar: ‘como todo mundo está se tornando gourmet e essa é a palavra do momento, eu tenho que fazer uso disso senão fico para trás’.

A pergunta é: depois que tudo for gourmet, o que virá? O conceito vai se esvaziar, então qual vai ser o próximo para fazer a diferenciação?”, questionou Maurício.

Custo-benefício

O premiado chef Paulo Fortunato, à frente do restaurante Fish Maria, é conhecido pela criatividade de seus pratos. Especializado em culinária regional, Fortunato busca dar uma apresentação diferenciada às receitas que todos os amazonenses conhecem e gostam. Diante da onda da gourmetização, ele é categórico: o exagero existe, sim, em alguns casos. Mas o cliente não pode cegar-se perante o custo benefício de um prato bem feito apenas pelo estigma criado acerca do conceito.

“Apesar de gostar da questão da apresentação, de pegar coisas simples e fazer uma apresentação diferenciada, sei que existem exageros por aí. Alguns profissionais acabam exagerando, maquiando determinadas coisas”, aponta. Fortunato também ressalta que alguns pratos com sua assinatura podem ser mais caros aos olhos de alguns clientes, no entanto, isso deve-se ao primor dos ingredientes.

“No pirarucu de casaca, por exemplo, como procuro usar um bom azeite, pirarucu de boa procedência, não tem como cobrar o mesmo preço de um prato feito com ingredientes de segunda linha. Ao mesmo tempo, busco servir de uma forma que a pessoa fique satisfeita e cobrar um preço justo. O caro, na minha opinião, é tudo aquilo que não satisfaz”.

Essência

Para William Katô, chef e consultor gastronômico, a essência da receita é o mais importante e não pode ser deixada de lado para forçar uma sofisticação do prato.

“Eu trabalho com sofisticação, mas nunca deixo de resgatar raízes. Adoro o regional, adoro aquilo que é de verdade. Não posso fazer do jaraqui, por exemplo, uma coisa estranha ou muito diferente do que ele é. Na verdade, acho um pouco pobre quando as pessoas não valorizam aquilo que é da região”, diz. É, tem coisa que não dá para inventar muito.


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