Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
Vida

Cia. de dança de Manaus pesquisa cultura Yanomami para novo espetáculo

Com patrocínio da Petrobras, novo espetáculo está sendo produzido e tem previsão para estrear em outubro



1.gif A cultura yanomami vai inspirar nova coreografia
08/07/2013 às 09:37

A cultura próspera dos índios yanomamis, uma das mais preservadas do país, estabelecerá um diálogo com a coreografia contemporânea no novo espetáculo da Indios.com Cia. de Dança. Intitulado ‘AEE: Para Falar do Que Não Foi Perdido’, a produção coreográfica – que está em processo de criação – submergirá os bailarinos no tempo e espaço da vivência indígena: em setembro, os membros da companhia farão uma morada de 20 dias em uma aldeia yanomami, para investigarem, quase que de forma antropológica, os aspectos e comportamentos dos indígenas, com o intuito de mesclar as impressões na textura do espetáculo.

De acordo com a coreógrafa, diretora e fundadora da Indios.com, Yara Costa, o espetáculo está sendo construído por meio dos subsídios do Prêmio Funarte Petrobrás de dança Klauss Vianna 2012. Ainda segundo ela, este é o terceiro trabalho da Indios.com a investigar as linguagens coreográficas indígenas. Porém, segundo ela, é a primeira vez que os membros da cia. de dança estabelecerão contato direto com a etnia.

Nesta última sexta (05), a diretora, acompanhada do músico Eriberto Barroncas – responsável pela trilha sonora do espetáculo – e mais as bailarinas Daniela Alves, Brenda Lobato e Camila Aguiar foram até um sítio em Rio Preto da Eva se encontrar com cerca de 30 professores yanomami, marcando o início das investigações para o processo do espetáculo. O contato com eles, segundo Yara, foi intermediado por meio do Serviço e Cooperação com o Povo Yanomami (Secoya).

A diretora pontuou que teve o primeiro contato com os yanomami no ano passado, onde esteve na aldeia dos indígenas em 2012. Ela ministrou o curso sobre artes na educação infantil e a partir da experiência ela passou a alimentar o desejo de abordar mais sobre essa cultura. O nome da produção, ‘AEE’, é uma espécie de código de comunicação entre eles, segundo Costa. “No caso dos yanomamis, sempre admirei a alegria deles. O nome ‘AEE’, na verdade, é como se fosse um grito entre eles, do dia a dia deles, que remete à alegria. Eles também usam pra chamar alguém, mas engloba sempre a questão voltada à alegria. É como se fosse um pouco o que é o ‘viva’ para nós”, pontuou a diretora.

Yara justifica que o processo de imersão dos bailarinos na realidade da etnia para a concepção do espetáculo de dança é crucial para uma maior compreensão do que é esta interação, visando a obtenção de melhores resultados. “Creio que o processo de criação depende dessas experiências, desse olhar, dessa apropriação de núcleo. Acabamos assumindo uma personalidade ali, características que vamos construindo nos estados corporais, a partir desse olhar da cultura. Claro que eu não vou fazer meus bailarinos se tornarem yanomamis, até porque somos um corpo com outras referências, com técnicas de balé, dança moderna e dança aérea. Faremos tudo acontecer dentro desse outro foco de observação do estado do corpo indígena, porque tudo se modifica: os hábitos, o jeito de olhar, de se comportar diante de determinadas situações. Fizemos esse primeiro contato como um todo ontem e a ideia é que em setembro façamos realmente uma imersão”, frisou Yara.

Processo


O primeiro encontro dos membros da cia., de acordo com Yara, envolveu um bate papo de forma dinâmica, onde foram mostrados o projeto e sua contrapartida, instituída para capacitá-los na elaboração de projetos culturais do âmbito indígena. “Estão abertos editais da cultura indígena e poucas comunidades se inscrevem. Este ano, a ideia é fazer cursos para eles sobre isso, abrir um módulo, e ajudá-los, fazer uma espécie de consultoria para eles sobre a elaboração de projetos nessa área. Eu pensei bastante sobre qual contrapartida é melhor para eles e no que realmente a Indios.com pode agregar. Então oferecemos a capacitação, o que é muito melhor que oferecermos um cachê, por exemplo. Acho que isso pode se multiplicar em termos de conhecimento, para a manutenção da cultura deles”, elucidou Costa.

Por estar em processo de criação, o espetáculo, de acordo com a diretora, ainda está nebuloso, com um campo muito aberto para exploração. Porém, ela adianta que a produção possui um pré-roteiro, que se divide em três momentos, e que terá o corpo coreográfico conduzido por três bailarinos – um homem e duas mulheres - . “O nosso processo de criação provavelmente vai partir desse cotidiano, desse movimento, do que irá ficar fora dessa nossa observação do cotidiano do núcleo indígena, sem perder nossas referências corporais”, destacou Costa.

O primeiro momento do espetáculo, conforme a coreógrafa, visa representar o encontro com a cultura dos yanomami, que na vida real iniciou neste dia 05. “É explorar a realidade do observador, do estranhamento, onde eles vão se identificar ou se surpreender”, acordou. Já o segundo momento, ainda segundo ela, é a fase da apropriação dos elementos de identificação, onde o espetáculo irá abordar, de alguma forma, o processo de criação em si, adiantou a diretora.

“Vamos abordar a relação do homem com a aproximação da cultura indígena. Mas sempre buscando o lado bom da vida deles. Há muitos lados tristes. Há uma população yanomami em que mais de 80 indígenas morreram pelas mãos dos garimpeiros no ano passado. Isso é muito triste para nós, mas não queremos nos deter a isso. Queremos focar na vida, na energia e no conjunto de significações que eles agregam”, disse. O terceiro e último ato, conforme Costa, questionará o real sentido da felicidade para os intérpretes, o que é a felicidade e alegria buscada nos povos yanomamis. É onde daremos o nosso ‘AEE’ e deixaremos claro o sentido do grito para os bailarinos e público”, comentou.

Estreia

O espetáculo está previsto para estrear no final de outubro, e conforme Yara, no município de Santa Isabel do Rio Negro, no interior do AM. Há planos de apresentação no município de Barcelos e em pelo menos uma comunidade indígena, revelou Yara. O palco da produção será os espaços abertos. “Vamos tentar simbolizar a sensação de estarmos dentro de uma maloca yanomami, que possui um furo no meio, como um anel. Eu penso em explorar o cenário como se fosse esta maloca. Isso vai ser construído a partir do posicionamento do público”, complementou a diretora.

Em relação ao corpo musical que irá orquestrar o espetáculo, há a possibilidade dos próprios bailarinos manipularem alguns instrumentos, confidenciou Yara. “Não sei que instrumento vai ser esse. Como o Eriberto é bem criativo e gosta de criar seus próprios equipamentos, provavelmente deve criar estes instrumentos para que os bailarinos os manipulem”, assegurou Yara. A diretora também racionaliza uma fusão de músicas contemporâneas e indígenas, algo que deve ser externado ao corpo dos bailarinos também, segundo ela.

“Eu já vi algumas coisas em vídeos e eu gostei muito. Os yanomamis usam poucos instrumentos, mas cantam muito. Gostam muito de se enfeitar, estão sempre pintados e decorados por penas e miçangas. Mas eles usam muito, acima de tudo, a voz, então eu quero explorar isso nos bailarinos. Quero que eles utilizem a voz no espetáculo para remeter aos aspectos da vida yanomami. E fazer essa leitura contemporânea sempre. Não farei e meu objetivo não é fazer a dança yanomami, mas sim questionar o que é que chega dessa dança até o meu corpo”, exclama.

Sobre a expectativa dos bailarinos, a diretora-coreógrafa afirma que eles estão dispostos a serem imersos na cultura indígena. Segundo ela, a proposta da ida dos bailarinos até um povoado yanomami envolve a investigação e absorção, para que todos possam compreender seus hábitos e cotidianos. “Sem dúvida, é uma prova de fogo. Até brinco dizendo que a comida que eles irão comer lá não é a mesma que eles comem aqui. Vamos viver como eles enquanto estivermos lá”, brinca Yara.


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