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Cinema Novo

Cinema Novo de Glauber Rocha é exibido em mostra no Casarão de Ideias, em Manaus

“Amazonas, Amazonas”, curta produzido pelo cineasta baiano em 1965, e que completa 50 anos em 2016, é um dos filmes incluídos na mostra “35 anos sem Glauber Rocha” 23/08/2016 às 11:29 - Atualizado em 23/08/2016 às 11:32
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“Amazonas, Amazonas” foi o primeiro documentário e filme em cores de Glauber (Cinemateca Brasileira)
Jony Clay Borges Manaus (AM)

Nos idos de 1965, Glauber Rocha foi contratado pelo então governador do Amazonas, Arthur Cezar Ferreira Reis, para produzir um filme institucional sobre as belezas naturais do Estado. O cineasta baiano, que já ganhara fama mundial com o longa-metragem “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), considerado um marco do Cinema Novo, produziu aqui “Amazonas, Amazonas”. O curta de 15 minutos foi lançado no ano seguinte e se tornou o primeiro documentário e o primeiro filme em cores de sua carreira.

“Amazonas, Amazonas”, que completa 50 anos de lançamento este ano, é também um dos filmes incluídos na mostra “35 anos sem Glauber Rocha”, que acontece de amanhã até quarta-feira, dia 24, no Ponto de Cultura Casarão de Ideias, no Centro. As exibições têm entrada gratuita e terão ainda outros quatro filmes do cineasta pioneiro do Cinema Novo: o curta “Pátio” (1959) e os longas “Barravento” (1962), “Terra em transe” (1967) e “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1968).

Além de lembrar a longa ausência de Glauber na cultura nacional, após sua morte prematura em 1981, aos 42 anos de idade, a mostra no Casarão de Ideias contribui para trazer de volta à tona uma obra fundamental da cinematografia brasileira.

“Glauber foi um pensador do Brasil, e por isso ele faz falta no cenário cultural. Ele foi um pensador do Brasil. Desde o início seus filmes questionaram características da cultura brasileira, e toda sua filmografia seguiu questionando o que é a identidade nacional. Exemplo disso é seu último filme, ‘A idade da Terra’ (1980), que é uma reflexão abrangente sobre o que é o Brasil”, assinala Walter Fernandes Bouças Jr., idealizador e curador da mostra.

Fernandes inclui os títulos selecionados para a mostra entre os mais importantes da filmografia de Glauber. “O Brasil ficou visto no cinema lá fora por conta de ‘Deus e o Diabo’. E o ‘Dragão da Maldade’ é um filme que marcou época. Até mesmo Pedro Almodóvar, que declarou que foi inspirado pelo uso de cores fortes do filme, e até levou o fotógrafo Affonso Beato para a Espanha”, conta o curador.

Conversas e debates

Além das exibições, a mostra “35 anos sem Glauber Rocha” vai promover conversas e debates sobre o diretor baiano e sua obra com cineastas e pesquisadores. Entre eles se inclui a cineasta e filha de Glauber, Paloma Rocha, que participa de um bate-papo com o público amanhã, logo após a exibição de “Pátio” e “Barravento” – respectivos primeiro curta e primeiro longa do cineasta. No encontro, entre outras coisas, ela pretende falar sobre a atualidade da obra do pai.

“Um filme como ‘Terra em transe’, por exemplo, é fundamental para se entender o que acontece no Brasil de hoje. O processo político, o comportamento e o caráter de seus personagens, está tudo lá. Todos os atores do cenário político atual estão representando o filme do Glauber”, comenta ela, em entrevista por telefone à reportagem.

Paloma, 56 anos, era menina à época da produção de “Amazonas, Amazonas” e não viajou com Glauber, pelo que guarda poucas recordações do filme. “Mas tenho um bilhete que ele me mandou no Natal daí, vou levar para mostrar a vocês”, adianta. Ela assinala que o curta, mesmo feito sob contrato, não deixa de se inserir na ótica questionadora da obra do cineasta. “‘Maranhão 66’ também foi um filme sob encomenda, a pedido do (José) Sarney, e é essa obra-prima que é. Glauber inclusive tirou trechos de lá para colocar no ‘Terra em transe’”.

Difundindo legado

A mostra “35 anos sem Glauber Rocha” busca ainda apresentar a obra do cineasta a novas gerações de espectadores. “Acredito que muitos jovens de hoje não conhecem a obra dele, e essa iniciativa é a oportunidade para ter esse contato”, avalia Fernandes. “A intenção é levar o público a encontrar ou reencontrar essa obra, para que ela não morra na nossa memória. É uma forma de fazer o Glauber permanecer vivo”.

Paloma lembra que muito do acervo do pai hoje está acessível ao público, tanto online quanto na Cinemateca Brasileira. “Busco levar a informação de que esse material existe, é o que faço. Estou indo para dividir com vocês o que tenho para dividir”, declara ela, que conclui: “Estou feliz com essa iniciativa do Walter Fernandes e do Casarão de Ideias em fazer essa retrospectiva nessa data tão simbólica”.

O filme “Amazonas, Amazonas” e a passagem de Glauber Rocha pelo Estado são tema de um projeto de livro-reportagem do jornalista Rosiel Mendonça. Profissional da equipe de A CRÍTICA, ele se dedica há dois anos ao projeto da obra, que trará novos dados sobre essa produção e que deverá ser lançada até 2018.

A primeira parte do trabalho, financiada pelo Prêmio Manaus de Conexões Culturais 2015, envolveu pesquisas nos arquivos pessoais tanto de Glauber quanto de Arthur Reis, em São Paulo e Manaus, além de entrevistas com amigos do cineasta e pessoas que o conheceram durante a viagem ao Amazonas.

“Até hoje, pouco se escreveu e discutiu sobre o filme que o Glauber fez aqui, mas ele se revela especial por muitos motivos”, comenta Rosiel, que dá seguimento às pesquisas como aluno de mestrado da Ufam, onde pretende agregar outro olhar ao trabalho.

“Meu interesse no momento é entender as ‘camadas’ de Amazônia presentes nesse documentário e em como ele absorveu uma série de discursos a respeito do passado, presente e futuro da região. O que a Amazônia tem a ver com Glauber Rocha? O que Glauber tem a ver com Arthur Reis? E o que o ex-governador tinha a ver com os projetos do Estado brasileiro para a Amazônia? São algumas questões que levanto nessa segunda parte da pesquisa”.

Programação da mostra

- Segunda, dia 22: 18h Exibição do curta “Pátio” e do longa-metragem “Barravento” + Bate-papo com Paloma Rocha, cineasta e filha de Glauber Rocha

- Terça, dia 23: 14h Exibição do longa “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” / 16h Exibição do longa “Deus e o Diabo na Terra do Sol” / 18h Debate com Jorge Bandeira, professor do curso de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas (UEA)

- Quarta, dia 24: 16h Exibição do longa “Terra em transe” / 18h Exibição do documentário em curta-metragem “Amazonas, Amazonas” + Debate com Roberto Kahane, cineasta amazonense

Serviço

O quê: Mostra de cinema “35 anos sem Glauber Rocha”
Onde: Ponto de Cultura Casarão de Ideias, rua Monsenhor Coutinho, 275, Centro
Quando: 22, 23 e 24 de agosto
Quanto: gratuito
Informações: (92) 3633-4008

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