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Clio Baraúna fala sobre sua trajetória como artista plástica, família e sonhos

Clio Baraúna recebeu o 1ª classe em sua residência com um sorriso no canto da boca. Ela fala de sua arte, dos lugares que já conheceu e adverte ao posar para as fotos: 'Não quero nada cafona' 13/06/2015 às 12:09
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Primeira Classe: Clio Baraúna
Rosiel Mendonça Manaus (AM)

A artista plástica Clio Baraúna de Carvalho recebeu o 1ª classe em sua residência com uma frase em tom de surpresa e um sorriso no canto da boca: “Pensei que viriam uns cinco fotógrafos!”. A certa altura, ela nos apresentou o cantinho em que produz suas telas e posou para as fotos: “Não quero nada careta”, recomendou. Só na hora da despedida ficamos sabendo que o cômodo bem iluminado, assim como o restante da casa, foi projetado especialmente para ela pelo amigo Severiano Mário Porto. Confira trechos da conversa:

Como a arte entrou na sua vida?

Eu estudava num colégio de irmãs aqui em Manaus e lá tinha a matéria de artes, que incluía canto e pintura. Então comecei cedo, comecei com lápis de cor e passei para a tinta óleo. Eu fazia os trabalhos das minhas colegas que detestavam pintar. E as notas até que eram boas.

Chegou a se formar na área?

Sou formada em Serviço Social, mas a arte é algo intuitivo. Já adulta, casei e morei muitos anos no Rio de Janeiro, onde fiz curso na Escola de Arte do Clube Militar, que ensinava muita coisa naquela época, incluindo etiqueta social e desfile. Voltei para Manaus trabalhando como diretora de serviço social no palácio do governo, mas era difícil conciliar as duas coisas e dei um tempo na pintura.

Como retomou a atividade artística?

Com a abertura do Liceu de Artes Ester Mello, voltei a pintar já como aluna do Anísio Mello. Depois fiz exposições, fiquei só na viuvez e usava a arte para preencher o tempo. Me dei tão bem que esse talento me acompanha até hoje.

Quais são seus temas preferidos?

A gente começa pintando tudo, depois fiquei só com as flores. Retrato flores em praça de feira ou no romantismo do jardim, mas sempre em sua individualidade, não dentro de jarros. Bilac disse: “Que a flor a tudo presida, E também enfeite a morte, Assim como enfeita a vida”. Minha satisfação é saber que alguém tem uma tela Clio decorando a sala da sua casa.

O que faz nas horas vagas?

Também faço poemas, ganhei concursos inclusive aqui em Manaus. É uma das coisas que gosto de fazer quando não estou pintando; a outra é jogar tranca. Quero lançar um livro com meus poemas, apesar de achar que fazer livro é uma coisa careta.

Gosta de estar em família?

Tenho um casal de filhos e seis netos. A família se reúne geralmente aos domingos. Sei cozinhar muito bem, tem uns pratos que a família toda aprecia. Ninguém bota isso na cabeça, mas cozinhar é uma arte. Gosto de cozinhar especialmente peixes, uma salada de camarão que ninguém mais acerta fazer e faço pato no tucupi também. É o que gostam de comer sempre que vêm aqui.

Fale de lugares inesquecíveis...

Viajei bastante. Cairo, Jerusalém, Faixa de Gaza, Itália, França, Inglaterra, mas nunca fui a Portugal, sabia? Você vai pra França e volta sempre. Vai ao Louvre e, logo na entrada, encontra a Monalisa com aquele sorriso que é e não é. Vê as pessoas pintando, reproduzindo quadros... Paris é o paraíso do artista, além de ser a terra do amor.

A sra. se considera vaidosa?

Nessa idade, com filho, neto, genro e frequentando os amigos, a pessoa tem que estar bem arrumada, bem humorada, até para fazer o equilíbrio da idade. Beleza é fundamental. Conhece essa frase? É do Vinicius de Moraes.

Como anda a sua fé?

Sou católica, mas com a idade a igreja facilita, então se você não quiser ir à missa não vai. Mas toda a família é católica. Sou apegada a Nossa Senhora de Lourdes porque Maria de Lourdes era o nome que minha mãe queria colocar em mim.

 

BATE-BOLA

Vida entre livros

Livros sobre museus e biografias de artistas célebres estão entre os preferidos de Clio Baraúna. Ela também cita as obras de Victor Hugo, lidas na juventude. Na sala, o visitante se depara com leituras mais recentes, como o livro de Jean Michel Cousteau com imagens da expedição feita pelo pai dele à Amazônia, o oceanógrafo Jacques Cousteau, há 30 anos.

Boas vindas ao primeiro bisneto

“Gosto de fazer poemas brincando. Inspiração é uma coisa que não sei dizer de onde vem propriamente, você pode estar no maior silêncio e esse silêncio te inspirar, assim como uma paisagem ou uma pessoa da qual se gosta”, afirma. Na próxima semana nasce o primeiro bisneto da artista, Gael, filho do neto Marco Antônio (à direita na foto). Dona Clio diz já ter escrito dois poemas para o novo membro da família.

Entre o Rio e Manaus

Para ela, existem duas Cidades Maravilhosas: o Rio de Janeiro, onde morou por oito anos, e Manaus, sua terra de frutas e peixes “fantásticos”. “Tenho casa no Rio, e quando está muito quente aqui eu me mando para lá para passar o outono”. Ao lado, reproduzindo a orla da Ponta Negra vista do rio, uma das telas inspiradas na capital amazonense.

Origem do nome

Filha de Zeus com Mnemósine, Clio é a musa da história e da criatividade. “Acho que meu pai, quando jovem, conheceu uma Clio que era cantora, se encantou por ela e resolveu me dar esse nome. No teto da casa da minha mãe, na Ferreira Pena, uma residência em art nouveau, também tinha a pintura de uma musa que diziam ter sido feita pelo mesmo artista que pintou o Teatro Amazonas”.

Marido herói

Clio é viúva do general do Exército José Alípio de Carvalho, considerado herói nacional por ter participado da tomada de Monte Castelo, uma das últimas batalhas da Segunda Guerra Mundial. “Ele se feriu e deu o sangue pela pátria”, diz ela. Em casa, o marido costumava recitar Augusto dos Anjos, seu poeta favorito. A arte, inclusive, foi um amparo importante para Clio quando ele partiu.

Sonhos da vez

Dona Clio diz ter realizado muitos sonhos, mas planos não faltam para os próximos virarem realidade. Além de lançar seu livro de poemas, ela acalenta a ideia de abrir sua própria turma de aprendizes adultos. “Penso que adultos já entendem e conhecem um pouco de artes, então será uma troca de experiências, vou crescer junto”.

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