Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019
Vida

'Come só mais um pouquinho’: forçar criança a comer pode prejudicar desenvolvimento

Especialistas alertam que grande parte das crianças apresenta alguma dificuldade ou resistência em relação à alimentação - motivo de grande frustração de pais e cuidadores, mas reflexo de uma educação incorreta



1.jpg Crianças não devem ser forçadas, ameaçadas ou chantageadas para comer
26/02/2016 às 15:12

“Só mais um pouquinho.” “Se você não comer, vai ficar de castigo.” “Se comer tudo, vai ganhar sorvete”. Quem nunca presenciou — ou até mesmo participou — de negociações e ameaças semelhantes direcionadas às crianças? Ou, quem sabe, até ouviu isso dos pais ou responsáveis por se recusar a comer ou não ingerir a quantidade “certa” durante a infância? Especialistas alertam: isso é mais prejudicial do que útil.

Júlia Valentina tem 2 anos de idade, por exemplo nunca apresentou dificuldades para comer. A mãe, Jennifer Mattos de Sousa, 23, oferece alimentos variados — exceto frutos do mar, carne suína e refrigerante — e nunca a forçou a “limpar o prato”. De acordo com a técnica em segurança do trabalho, essa liberdade é para evitar que a filha não passe pelo que ela mesma diz ter sofrido na infância.

“Quando eu era pequena, minha bisavó me obrigou a comer. Foram poucas vezes, mas me lembro de todas. É muito traumático para uma criança e traz consequências no futuro, como a obesidade ou o peso abaixo do normal. Eu me preocupo mesmo quando a Júlia não come, mas sempre respeitei seu espaço. Obrigá-la a comer não a fará mais saudável”, declara, ao revelar que a menina “come besteiras que toda criança come”, como chocolate e pirulito.

Entretanto, a ingestão de doces é feita com moderação e sem prejudicar as refeições diárias, com o cardápio recheado de frutas, legumes e verduras para deixar tudo mais “colorido”. Apenas um ingrediente não agrada a garotinha. “Ela é ótima para comer, não reclama de nada. O que ela não gosta é azeitona”, declara aos risos. “Todos sabemos quando estamos com fome. É preciso ter paciência, para que a criança não tenha traumas”, enfatiza.

Erro desde o berço

De acordo com a nutricionista Cristine Hassan, que atua em consultoria nutricional escolar, grande parte das crianças apresenta alguma dificuldade ou resistência em relação à alimentação. E, isso, é motivo de grande frustração de pais e cuidadores. Na maioria dos casos, afirma os responsáveis criam um “vicioso círculo da pressão e terrorismo alimentar”, sem entender de fato o que leva a criança a apresentar esse tipo de dificuldade.

Esse processo, explica, inicia ainda na primeira fase, durante o aleitamento materno, caso haja dificuldades na “pega” do seio, o uso de técnicas inadequadas de amamentação ou no mal posicionamento do recém-nascido. Outra fase importante é a introdução alimentar, que só pode começar aos seis meses de vida, quando o sistema digestivo do bebê está pronto para receber alimentos além do leite materno.

“É muito comum os erros dos pais nesta fase, com oferta de alimentos totalmente liquefeitos e homogeneizados, podendo causar, posteriormente, resistência na aceitação de pastosos e semi-sólidos; e a oferta de sal e açúcares, alimentos industrializados e até mesmo ‘fast food’”, enfatiza. “Dessa forma, as crianças criam um paladar que rejeita certos alimentos que lhe trariam nutrientes essenciais para um bom desenvolvimento”, completa.

Profissional aconselha: busque ajuda

A desistência de ofertar alimentos saudáveis quando a criança rejeita na primeira tentativa ou substituir o cardápio saudável por petiscos apenas para a criança “não ficar sem comer nada”, alerta a nutricionista Cristine Hassan, pode ter consequências em longo prazo na saúde dos filhos. Por outro lado, ela aconselha os pais a não forçá-los a comer e, se necessário, buscar ajuda de profissionais da Saúde, como nutricionistas, pediatras e até psicólogos infantis.

“Surgindo as dificuldades, as mães ou forçam a criança a comer ou substituem a comida por leite ou outros alimentos não saudáveis, com o receio de que a criança não fique bem alimentada. Isso torna comum as práticas alimentares inadequadas. A resistência em se alimentar pode ser de origem orgânica (patológica), de origem emocional, ou comportamental”, finaliza.

BLOG Igor Toques, pediatra

Essa ideia de ‘criança gordinha é criança saudável’ já é desmistificada pelo pediatra. Seguimos uma escala que mostra dentro de qual percentil de peso uma criança deva estar tanto para idade, quanto para a altura. Desaconselhamos os extremos. E, sim, a atitude punitiva dos pais influência para gerar desde um filho obeso a um anoréxico. Para saber se a criança come o suficiente é necessário fazer o acompanhamento de rotina: no primeiro ano, isso é feito mensalmente; no segundo, é semestral; e, a partir do terceiro ano, anual. É com esse acompanhamento que podemos dar esse parâmetro mais fiel.

TRÊS PERGUNTAS para Ana Cláudia Menini Bezerra, psicoterapeuta

Alguns pais fazem barganhas ou ameaças para o filho comer. Como isso pode afetar uma criança?

Existe uma diferença importante entre dar limite e violentar os filhos. Muitas crianças testam o ambiente para saber se são amadas, ou simplesmente para medir forças com as figuras de autoridade. A mãe e o pai suficientemente bons também são aqueles que frustram seus filhos. Ou seja, as crianças precisam da frustração para que se desenvolvam de maneira saudável, porém, esta não deve vir acompanhada de agressão física ou verbal e, sim, de afeto e diálogo. O que vai diferenciar o limite da violência é a atitude dos pais diante desta questão. A criança que cresce ameaçada pelos cuidadores pode crescer insegura, correndo o risco de desenvolver psicopatologias graves.

O que estamos ensinando aos nossos filhos quando forçamos a barra em relação à comida?

Os pais devem, sim, estimular os filhos se alimentarem de forma saudável e adequada. Tudo vai depender da forma em que isso é colocado. Os pais são os espelhos dos filhos. Combinações com a criança sempre são válidas. Porém, a partir do momento que a criança vai se sentindo desrespeitada e violentada, esta tem grandes chances de reproduzir tal comportamento com seus grupos.

Forçar pode resultar em jovens/adultos com distúrbios alimentares?

Sim, este risco existe. Porém, o desenvolvimento de tais sintomas não está ligado apenas com o manejo dos pais durante a alimentação dos filhos. Estes sintomas na vida adulta podem estar relacionados a outros fatores de origem orgânica ou emocionais. O sintoma é sempre a comunicação de que algo não vai bem com o indivíduo e deve ser avaliado caso a caso. Diante de qualquer suspeita, é imprescindível a procura o quanto antes por um psicólogo ou pediatra para uma avaliação.

Como agir quando a criança não quer comer?

Dê exemplo; a criança se sentirá mais seguro e mais confiante em comer os mesmos alimentos que os pais comem;

Ambiente da refeição deve ser tranquilo, sem distrações, televisores ou aparelhos eletrônicos;

Estimule a criança a comer sozinha, não a repreenda e não se importe com a sujeira. Só a partir dos dois anos, se preocupe em começar a ensiná-la a se alimentar com modos à mesa;

Varie os alimentos e os apresente em diferentes modos de preparo;

Se a criança não aceitar um alimento na primeira vez, ofereça em outros tipos de preparação. Se após oito ofertas, a criança não aceitou, reconheça que ela realmente não gosta;

Evite que a criança coma deliberadamente entre as refeições principais;

A capacidade gástrica da criança é limitada, portanto, não ofereça líquidos durante a refeição para não atrapalhar na ingestão;

Não faça brincadeiras como: “aviãozinho”. A hora da alimentação não deve ser ligada aos momentos de brincadeira;

Nunca force a criança a comer e nem ofereça alimentos inadequados para substituir a refeição. Se ela ficar com fome, vai alimentar-se na próxima refeição.

Não a force a comer em grande quantidade. O adulto mede de acordo com a própria quantidade;

Investigue a origem dos problemas alimentares. Procure profissionais, como pediatra, nutricionista e psicólogo.

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