Sábado, 07 de Dezembro de 2019
MATERNIDADE

Complicações de saúde antes ou durante a gestação aumentam riscos para mãe e bebê

Obstetras explicam os principais fatores que necessitam de cuidado extra no acompanhamento do pré-natal



prematuro_portal.jpg Algumas intercorrências podem resultar em parto prematuro ou na necessidade clínica de antecipar o nascimento do bebê, com métodos de indução
04/06/2017 às 05:00

A internação de Eliana após um descolamento de placenta, aos cinco meses de gravidez da segunda filha, Manuela, deixou muitas mulheres preocupadas. Sem uma causa específica, o que acometeu a apresentadora é apenas um entre vários imprevistos. Eles não são comuns, mas possíveis de acontecer, evitar e monitorar. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), 303 mil mulheres e 2,6 milhões de bebês morreram por intercorrências relacionadas à gravidez, somente em 2015.

“Existem dois tipos: de início precoce e de início tardio. É possível a gestação começar tranquila e uma complicação se desenvolver somente no segundo ou terceiro trimestre. Os principais indicadores de uma gestação de risco antecedem à gravidez: hipertensão, colagenoses, endocrinopatias, problemas cardíacos, diabetes, entre outros. E há complicações específicas, que se desenvolvem durante a gravidez, como o descolamento de placenta, a placenta prévia, o trabalho de parto prematuro, por exemplo. Várias delas estão relacionadas”, diz a pós-doutora em ginecologia e obstetrícia Melania Amorim, 49. “Podemos ter, por exemplo, pré-eclâmpsia somente após as 34 semanas. Já o diabetes pode se desenvolver e diagnosticado habitualmente, enquanto um descolamento de placenta pode ocorrer tardiamente”, completa.



De acordo com a médica, os perigos variam conforme o tipo de complicação. No caso de mães hipertensas, há risco de restrição do crescimento do bebê pela insuficiência placentária e de parto prematuro; para a mulher, a eclâmpsia grave pode levar às crises convulsivas e até a morte. Quando se trata de diabetes, existem diferença entre as gestantes que já tinham a patologia em relação as que desenvolvem somente durante a gravidez.

“Pode existir pré-eclâmpsia de início precoce, antes de 34 semanas, e pré-eclâmpsia de início tardio após 34 semanas. A pré-eclâmpsia de início precoce é até mais perigosa com aumento dos riscos para o binômio mãe-bebê. No caso de diabetes gestacional, há o risco de bebês macrossômicos (muito grandes) e de complicações metabólicas (hipoglicemia ou hiperglicemia). A diabetes, principalmente do Tipo 1, também pode descompensar na gravidez, com mais risco de cetoacidose”, explica, ao ressaltar os cuidados de quem deseja ser mãe e já tem uma complicação pré-existente. “O ideal é que a gravidez seja planejada, que ela possa receber ácido fólico e substituir as medicações que tragam riscos ao bebê”, enfatiza.

Ainda segundo a especialista, também membro de comitês especializados de “Medicina Baseada em Evidências” e “Gestação de Alto-Risco” da Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), é preciso começar o pré-natal precocemente, com profissionais qualificados para garantir um acompanhamento cauteloso. Além disso, diabéticas e hipertensas precisam, respectivamente, estar com a glicemia e a pressão sob controle. Já intercorrências que se desenvolvem durante a gravidez deverão ter cuidados especiais.

“O pré-natal de alto risco se distingue de um de risco habitual, com recomendações específicas. No caso de epiléticas, que estejam sem ter crises e com as melhores medicações possíveis, porque algumas drogas anti-epiléticas têm elevado risco de causar danos ou más formações ao embrião. As hipertensas crônicas também devem prevenir uma pré-eclâmpsia. Por volta de 12 semanas de gestação, indicamos iniciar a profilaxia com aspirina e cálcio para prevenção”, afirma Melania, ao informar quais casos são indicação de indução do parto ou de intervenção cirúrgica.

“Não se deve confundir indicação da interrupção da gravidez com cesariana, que tem indicações específicas. A indução é até mais interessante, porque em várias circunstâncias a cesárea acarretará risco aumentado para mãe e bebê. Mas é necessário monitorar rigorosamente a vitalidade fetal durante a indução”, enfatiza.

Intercorrências

- Pré-Eclâmpsia: complicação grave associada ao descontrole da pressão arterial da mãe.

- Diabetes gestacional: problema metabólico de intolerância aos carboidratos.

- Placenta prévia: implantação da placenta na porção mais baixa da cavidade uterina.

- Colagenoses: grupo de doenças autoimunes; afecções inflamatórias e degenerativas das fibras do tecido conjuntivo, como lupus.

- Endocrinopatias: doenças da glândula tireóide; doenças de regulação de glicose e de secreção pancreática interna; e de outras glândulas.

- Cetoacidose diabética: complicação aguda do diabetes mellitus caracterizada por hiperglicemia, acidose metabólica, desidratação e cetose.

- Descolamento de placenta: quando a placenta se descola do útero; não existe uma causa específica, mas fatores de risco comum, como hipertensão e idade elevada da mãe.

TRÊS PERGUNTAS PARA Édily Tourinho, 37, ginecologista e obstetra

O que torna a gestação de alto risco?

Há algumas doenças que, quando pré-existentes, podem agravar o estado de saúde da mulher durante a gestação. As mais comuns são: hipertensão arterial, diabetes, cardiopatias, doenças renais, epilepsia e doenças auto-imunes, como lúpus. Históricos maternos de óbito fetal, abortos tardios de repetição, más formações uterinas graves, gestação gemelar, parto prematuro ou más formações fetais graves também tornam a gestação de alto risco.

Quais complicações podem acontecer no decorrer da gestação?

Pré-eclâmpsia e eclâmpsia (aumento da pressão arterial), diabetes gestacional, hemorragias, doenças infecciosas que podem provocar má formação fetal e ruptura da bolsa amniótica com feto prematuro. O problema de uma gestação de alto risco, sem pré-natal adequado, pode variar de quadros leves de infecções neonatais, partos prematuros até óbitos materno e fetal.

Que cuidados a mulher deve ter?

A principal medida para prevenção é o seguimento pré-natal adequado. O protocolo adotado pelo Ministério da Saúde visa o rastreio das principais complicações, antecipando o profissional aos desfechos desfavoráveis. Outras medidas são prática de atividades físicas, controle do ganho de peso, comunicar ao obstetra a presença de inchaços, falta de ar, sensações de desmaio e uso correto das medicações prescritas.


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