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Compreendendo melhor a leucemia para desfazer mitos

O modelo brasileiro Celso Santebañes faleceu no início do mês devido a uma leucemia linfóide aguda. Surgiram dúvidas quanto a relação da doença com as cirurgias estéticas que havia feito. Afinal, é possível se contrair a leucemia ou provém de outros fatores? 13/06/2015 às 11:14
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Celso fez cirurgias estéticas para ficar parecido com o boneco Ken
Laynna Feitoza Manaus (AM)

Com o falecimento do modelo brasileiro Celso Santebañes no início deste mês, ocasionada por uma leucemia linfóide aguda – dada por muitos como rara, alguns veículos de massa e população disseminaram a informação de que o rapaz havia “contraído” a doença a partir das cirurgias estéticas que fez e da aplicação de hidrogel nas pernas. Daí predominou a dúvida e o debate: a leucemia é uma doença que se contrai ou que provém de outros fatores?

Para a médica hematologista Fernanda Franceschi, do Hospital Amaral Carvalho de Jahu, em São Paulo, a leucemia linfóide aguda não é tão rara assim. “Ela faz parte de quatro a cinco casos para cada 100 mil habitantes no Brasil”. E, segundo ela, não há dados de que o hidrogel ou as cirurgias estéticas levem a casos de leucemia aguda. “Leucemia aguda não se contrai, não se pega e não é contagiante. E na maioria das vezes não é hereditário”, destaca.

A especialista explica que podem acontecer mutações genéticas no próprio corpo que vão fazer com que ele desenvolva a leucemia em alguma fase da vida. “A doença não tem uma predisposição tão marcada e factível hoje em dia. Sabe-se que a exposição à radiação, como aconteceu em Chernobyl e Hiroshima, aumentou o número de leucemias em geral. A exposição à radiação pode levar a maior incidência de leucemia. Mas exposição a benzeno, a cirurgias estéticas, não dá para falar”, justifica.

Segundo Fernanda, há dois tipos de leucemia: a linfóide e a mielóide. Conforme a médica, há doenças de medula óssea, incluídas na série mielóide que são as mieloproliferactivas crônicas e a síndrome mielodisplásica que tem uma tendência de evolução natural para leucemia aguda se não forem “freadas”. “Existe um bolsão de doenças que evoluem para leucemia mielóide aguda. Nesses casos, há sim como evitar com algumas medicações para específicas doenças, mas só quando eu já tenho uma doença muito grave da medula óssea. Uma leucemia que apareceu agora (recente) não há como evitar”, diz ela.

Medula

Outra questão que precisa ser elucidada é sobre o transplante de medula óssea, que integra o tratamento da doença (e que vem após a quimioterapia). A médica aponta que o procedimento não é cirúrgico. “Há dois tipos de transplante: o autólogo, que é quando eu tenho algumas doenças que me permitem fazer o transplante do paciente para ele mesmo, e o alogênico, que consiste em termos um paciente portador de doença hematológica e um doador saudável compatível. Este se encaixaria mais no caso do modelo que faleceu”, pondera.

No transplante alogênico, tanto paciente quanto doador são internados. Ao paciente será dada uma sequência de quimioterápicos e radioterápicos por uma semana, para que se obtenha a destruição da medula óssea, já tomada pelas células malignas. “O doador pode fazer dois tipos de coleta: uma punção na bacia, na região da crista ilíaca superior para retirar as células diretamente da medula”. Outra forma é estimular a medula óssea do doador a mandar as células dessa medula para a corrente sanguínea, por meio de medicamentos. Depois, é feita uma coleta do sangue do doador com uma máquina que vai filtrar as células da medula, cujo material será colocado em uma bolsa, que parece uma bolsa de sangue normal. “No dia correto, o conteúdo da bolsa será infundido no paciente”, orienta.

Hoje em dia, ainda que experimentalmente, já se fala no transplante de medula haploidêntico, que segundo Franceschi é uma boa carta na manga para os causos mais graves da leucemia. “Esse tipo de transplante pode incidir em pacientes que não são totalmente compatíveis com seus doadores. Mas estão surgindo novas maneiras de fazer esse transplante também com sucesso”, encerra ela.

Saiba +

A leucemia é um câncer no sangue, em que as pessoas mais suscetíveis são as da primeira infância, por volta dos seis a 10 anos. Há leucemias em bebês que são congênitas e que vem se desenvolvendo desde a maturação do bebê na barriga da mãe. A leucemia linfóide aguda incide mais em bebês, crianças e idosos, enquanto que a leucemia mielóide aguda incide mais em idosos e adultos na faixa dos 30 e 40 anos.

Blog

Nelson Fraiji, diretor-presidente do Hemoam

“Não é possível fazer uma associação de causa e efeito em caso de leucemia aguda. Mas nós sabemos que agentes químicos e físicos têm papel no favorecimento da transformação de uma leucemia. Existem casos confirmados de agentes biológicos responsáveis por transformação leucêmica, como o vírus HTLV. Existem casos confirmados de agentes físicos que causam a leucemia, como os raios de bombas atômicas. E existe comprovação de agentes químicos que colaboram para o surgimento da leucemia, como solventes.”

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