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Controvérsias em debate: colesterol e o uso das estatinas

O colesterol sempre é apontado como grande vilão dos problemas coronários, mas há algum tempo o tema desperta debates na sociedade médica sobre sua verdadeira contribuição para o surgimento dessas doenças 20/06/2015 às 09:56
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Partículas muito pequenas de colesterol são responsáveis pela obstrução das artérias, o que pode causar problemas cardiovasculares
Jéssica Amorim Manaus (AM)

Apontado como o grande vilão dos problemas coronários, o colesterol desperta há algum tempo debates na sociedade médica sobre sua verdadeira contribuição para o surgimento dessas doenças e até que ponto deve ser indicado o uso de medicamentos para reduzir as taxas dessa gordura no sangue. Mais recentemente, alguns especialistas começaram a questionar essas afirmações.

Um exemplo é o investigador dinamarquês e fundador da Liga Internacional dos Céticos do Colesterol, Uffe Ravnskov, referência quando se trata de defender a substância não como causa das doenças cardiovasculares, mas sim como sintoma, acreditando ser importante discutir os mitos a respeito do assunto.

Para ele, inclusive, o uso das estatinas, medicamento conhecido por ser responsável por diminuir o nível do colesterol, tem benefícios mínimos em comparação aos seus riscos, o que faz Ravnskov assegurar que não se deve usar esta fórmula.

Em entrevista concedida à revista Activa, em 2013, o investigador afirmou que este embate sobre o colesterol tem uma razão clara: “quase todas as pesquisas nesta área são pagas pelas indústrias farmacêuticas e de margarinas”.

Quem concorda com esses apontamentos é o geriatra Euler Ribeiro, que ressalta a importância do colesterol em nosso organismo. “O colesterol é uma gordura realmente, mas é uma gordura indispensável, pois dele são gerados todos os nossos hormônios. Então, nós não podemos viver sem ele”, explica.

O doutor Euler diz ainda que cada pessoa produz muito mais colesterol intra-hepático, ou seja, a partir do fígado, do que se ingere: “A ingestão é menor do que a produção individual feita pelo fígado”, aponta.

O que acontece e comumente confunde, segundo o geriatra, é a falta de conhecimento sobre as várias frações do colesterol. Existem dois tipos: o HDL, que é visto como o bom colesterol, e o LDL, também conhecido como “mal” colesterol. “O HDL é visto como bom por serem partículas de grande densidade, assim não se depositam dentro das artérias, não as obstruem. Já o LDL são partículas de baixa densidade, mas existem vários tipos, tem LDL com partículas menores que o HDL, mas não tão pequenas a ponto de depositarem”, ressalta.

Isso significa que as pequenas frações de células de gordura podem sim obstruir as artérias, mas não são todas. “Se aumentar frações do colesterol com partículas muito pequenas, aí sim pode dar problemas coronarianos”, esclarece o doutor.

Estatinas

Antes, para o controle desses “mal” colesterol, eram indicadas dietas que evitassem gorduras saturadas, mas com avanço de estudos farmacêuticos foram surgindo vários medicamentos, e segundo o doutor Euler, nos últimos 20 anos é que surgiram as estatinas.

“Assim como os fibratos, no começo as estatinas eram vistas como substâncias capazes de impedir a deposição das gorduras dentro das artérias, evitando a obstrução”, conta Euler. “Entretanto, à medida que foi se analisando a ação dessas drogas, foi se verificando que elas apresentam manifestações colaterais mais intensas do que benefícios”.

O geriatra lista como efeitos colaterais mais frequentes do uso a rabdomiólise - alteração que tem como consequência o encurtamento das fibras musculares, além de dor, falta de força muscular e disfunção erétil. Outro risco, segundo Euler, é a polineuropatia, definida como um distúrbio simultâneo de diversos nervos periféricos no organismo todo. “Ela causa alterações frequentes na relação da inervação como receber, decodificar e responder a todas as provocações sensoriais, térmicas, táteis e dolorosas”, explica o doutor.

Para Euler Ribeiro, que há muito se dedica ao estudo clínico de todos os desvios na saúde dos idosos, devido à leitura e conhecimento de várias pesquisas, a recomendação desses medicamentos não é mais uma opção. “Para evitar as partículas muito pequenas, que podem obstruir as artérias, a melhor forma é evitar gorduras saturadas aquecidas, no caso, evitar as frituras”, afirma.

Além disso, o doutor compartilhou a notícia que foi anunciada agora, nos Estados Unidos, um novo medicamento, substituto às estatinas. “Esta nova droga, que ainda não foi liberada, seria realmente a responsável no futuro pela diminuição do LDL de pequenas partículas”, conta. O medicamento ainda não tem divulgação ampla por não ter sido liberado pelas autoridades responsáveis.

Em contrapartida

Quem também reconhece alguns riscos do medicamento é o cardiologista Aristóteles Alencar, mas afirma que ele ainda é a maneira mais eficaz de preservar vidas nos casos mais críticos e seus benefícios superam os riscos.

“De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia, apenas no Brasil há 344 mil mortes evitáveis a cada ano por doenças cardiovasculares. Os benefícios desse medicamento superam em muito o risco de não utilizá-la. Pesquisadores relataram aumento de 18% da incidência de diabetes em pessoas que usaram a estatina. As dores musculares acometem cerca de 5% dos pacientes. Alguns apresentam alterações hepáticas. Todas de fácil reversão”, explica.

Ele concorda que é preciso que o medicamento seja prescrito e somente utilizado quando houver necessidade, de forma devida. Para seus pacientes, a recomendação é feita nos casos em que a dieta e a modificação do estilo de vida não funcionam. “Nesses casos, tem que existir o tratamento farmacológico. Principalmente em pacientes com dislipidemia familiar”, afirma.

Saiba +

Homens da Floresta

Doutor Euler Ribeiro juntamente com outros pesquisadores nacionais e internacionais, tem realizado uma pesquisa sobre o envelhecimento do homem da floresta, comparando os idosos ribeirinhos e os que vivem mais afastados dos rios do município de Maués com os idosos da periferia de Manaus. Segundo o geriatra, nesta pesquisa, após analisar os hábitos de vida de cada grupo, descobriu-se que os idosos de Maués tinham 83% a menos colesterol alto do que os da periferia.

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