Segunda-feira, 17 de Junho de 2019
Vida

Crianças fazem 'vestibular' para entrar em jardins de infância e creches em Hong Kong

Pais e crianças passam por entrevistas que têm como objetivo preparar os pequenos para um futuro brilhante. Perguntas complexas, testes de confiança e espontaneidade são algumas das metodologias aplicadas   



1.gif Bebês de apenas oito meses de idade já podem iniciar as aulas.
03/05/2015 às 20:35

Ingressar em boas escolas ou universidades não é uma tarefa fácil em muitas partes do mundo, porém, em Hong Kong a pressão começa ainda entre crianças e consequentemente nos pais.   

Para que os responsáveis consigam matricular seus filhos em renomados jardins de infância e até em boas creches, as crianças precisam ter aulas de preparação para os chamados "vestibulares" infantis. 

As melhores creches e jardins de infância de Hog Kong, uma das duas regiões administrativas especiais (RAE) da República Popular da China (RPC), cidade-Estado situada na costa sul da China, são consideradas pelos pais como portas de entrada para as melhores escolas primárias, escolas secundárias e universidades.

Por causa disso, as mais procuradas chegam a receber mais de mil pedidos de inscrição para poucas dezenas de vagas. Agora, empresas oferecem treinamento de entrevista para crianças, com o objetivo de dar a elas uma vantagem a mais.

Preparação

Nas primeiras aulas, a criança é instruída a cumprimentar o professor e se apresentar para ele. O professor, em seguida, pede que ela faça uma série de tarefas como construir uma casinha de tijolos, fazer um desenho, prender dois olhos de feltro no lugar correto de um rosto e identificar pedaços de frutas. A criança, ainda um tanto tímida, logo se solta e parece divertir-se realizando as tarefas e brincando. 

"Estas aulas e entrevistas podem ser difíceis, mas eu quero que ela esteja preparada. A maioria dos pais quer que seus filhos tenham um bom começo", conclui mãe de uma das crianças em preparação.

Em uma das creches nas quais realizam esse tipo de metodologia, mais de 100 candidatos são entrevistados para apenas nove vagas. Bebês de apenas oito meses de idade já podem iniciar as aulas.

Em uma das empresas, a Hong Kong Young Talents Association (HKYTA), uma série de 12 sessões de treinamento custa 4.480 dólares de Hong Kong (R$ 1.718) - cerca de um quarto da renda mensal mediana de uma família. "Tentamos ensinar as crianças através de atividades musicais, adaptando-as ao que as entrevistas irão pedir", diz a professora da HKYTA, Teresa Fahy.

Perguntas complexas

Para tornar as coisas um pouco mais complicadas, porém, mais estressantes, as creches e jardins de infância pedem coisas diferentes durantes os testes. É comum que os entrevistadores observem a maneira como as crianças lidam com os brinquedos. Isso pode revelar algo sobre suas habilidades motoras e sobre como eles interagem com outras crianças.

A maneira como eles participam de atividades em grupo como cantar ou dançar conforme a música também é cuidadosamente examinada. Além disso, os entrevistadores conversam com as crianças para saber quão bem eles se expressam e se fazem contato visual. Alguns, mas não todos, também pedem que os pequenos identifiquem cores e formas ou expliquem algumas cenas em livros.

Confiança e espontaneidade

Muitos pais costumam ensinar os filhos a nomear cores e objetos, mas nem todos os entrevistadores se impressionam com essa habilidade. "Não estou buscando esse tipo de conhecimento, são coisas que nós vamos ensiná-los quando começarem a estudar conosco", diz Jenny (nome trocado a pedido da entrevistada), professora de um conhecido jardim de infância bilíngue.

Ela diz ainda que, mesmo que os pais não percebam, muitas vezes eles são observados ainda mais atentamente pelos professores do que as crianças. "É preciso saber com que tipo de pais estamos lidando. Se forem muito controladores, o meu 'não' é automático", afirma.

Caso os pais levem um tipo de portfólio listando os cursos que seus filhos fizeram e os lugares onde passaram as férias,  como alguns fazem, a professora garante ela nem sequer olha. Outra professora de escola primária afirma que as aulas de entrevista podem ajudar as crianças a ficarem menos nervosas no grande dia.

Mas Leung Wai-fan, diretora do jardim de infância King Shing, diz que pode ficar óbvio que a criança foi treinada. "Conseguimos dizer se uma criança está sendo natural ou não. É fácil ensinar a uma criança o que dizer, mas elas não necessariamente entenderão o que estão dizendo. A criança pode aprender a recitar determinada frase, mas se você fizer uma pergunta, ela fica tímida", afirma.

Crianças confiantes, que respondem às perguntas colocadas a elas, geralmente têm avaliações melhores. Ser tímido é uma desvantagem, mesmo com um ano e meio de idade.

Perda de interesse

Leung sabe muito bem até onde os pais irão na esperança de conseguir uma vaga em um jardim de infância. Sua escola chamou a atenção da mídia no ano passado depois que alguns pais esperaram na fila por duas noites para garantir que seriam os primeiros a entregar o formulário de inscrição.

Ela teme que a educação primária tenha se tornado muito comercial e muito exigente e acompanha com preocupação quando os pais matriculam crianças em idade pré-escolar em aulas de inglês ou de mandarim, pressionando-os para que tirem boas notas. "Não é assim que crianças aprendem. Tentamos dizer aos pais que a educação deveria ser para toda a vida, e não apenas funcional", aponta a diretora.

Lam Ho Cheong, professor e especialista em educação na primeira infância do Hong Kong Institute of Education, concorda: "Por um lado, é preciso desenvolver suas habilidades. Por outro, você quer que elas se interessem por aprender. Se você pressionar muito as crianças quando elas são jovens, corre-se o risco de fazer com que elas percam o interesse. Por exemplo, as habilidades de leitura das crianças de Hong Kong são altas em comparação com outros países, mas a busca pela leitura é baixa".

Alguns professores afirmam ainda que, em vez de matricular seus filhos em cursos, os pais deveriam simplesmente passar mais tempo com eles. "Eu não recomendaria que pais sobrecarregassem seus filhos com treinamentos, porque a maneira como uma criança se sente no dia da entrevista pode passar por cima de toda a preparação que ela teve. É melhor que os pais passem mais tempo brincando e lendo para seus filhos em casa", diz Jenny.

Neste ano, no entanto, entrar em uma creche será especialmente difícil em Hong Kong. Mais crianças do que o normal nasceram entre 2012 e 2013 porque era o ano do dragão no calendário chinês, considerado auspicioso. Para as crianças do dragão, é chegada a hora de enfrentar o primeiro desafio.

*Com informações do site BBC Brasil


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