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Curta do cineasta amazonense Aldemar Matias estreia no festival Visions du Réel, na Suíça

Rodado em Havana, Cuba, "El Enemigo" será exibido em evento considerado “Oscar qualifying” e com um dos mercados mais fortes da Europa para docs 02/04/2015 às 13:33
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Aldemar Matias rodou o curta durante temporada de estudos em escola de cinema de Cuba
ROSIEL MENDONÇA Manaus (AM)

Dirigido pelo cineasta amazonense Aldemar Matias em uma co-produção Cuba/Brasil, o documentário “El Enemigo” acaba de ser selecionado para a competição internacional de curtas-metragens do prestigiado festival Visions du Réel, que acontece de 17 a 25 de abril em Nyon, na Suíça. O filme é resultado dos estudos do diretor na Escuela Internacional de Cine y TV (Eictv), em Cuba, considerada um dos melhores centros de formação em audiovisual da atualidade.

O cineasta comemora a participação da obra no festival suíço, que faz parte de uma lista de eventos “Oscar qualifying”. “Não é que o filme já esteja pré-selecionado para o Oscar. Significa que os ganhadores desses festivais, nas categorias principais, estão automaticamente habilitados a concorrer a uma vaga. Temos uma chance porque, apesar de o Visions du Réel ter uma categoria para filmes de escola e ‘El Enemigo’ ser um filme estudantil, a curadoria decidiu selecioná-lo para a categoria principal”, explica.

Rodado no Centro de Havana, a capital cubana, o curta acompanha a rotina de Mayelín Martinez, funcionária de uma unidade de saúde pública que atua no combate à dengue por meio de fumigação e inspeção nas residências. As cenas são um retrato das (tensas) relações de poder em que a personagem está envolvida – ao mesmo tempo em que tem que prestar contas para a chefe da unidade, Mayelín precisa contornar dificuldades dentro e fora do trabalho. Mas a ideia original para o filme não era bem essa, aponta Matias.

“Começou como uma busca para entender a divisão entre o público e o privado em Cuba. A figura do fumigador parecia perfeita: um profissional que entra nas casas semanalmente, sem ser convidado, para eliminar o mosquito da dengue. A população, por sua vez, é dividida entre odiá-lo pela inconveniência e vê-lo como herói nacional”, conta.

Depois de passar por oito distritos sanitários de Havana, o diretor enfim encontrou o ideal para rodar o filme. “Era uma equipe de profissionais com um tom militar impressionante e despreocupados com a câmera, pois estavam totalmente envolvidos em sua missão. No primeiro dia, a chefa do setor me contou orgulhosa sobre alto grau de dificuldade do trabalho: ‘Aqui é a zona mais conflitiva da cidade (Centro-Havana). Ninguém tem medo de desafiar a autoridade. Vocês não imaginam o que a gente enfrenta’”, relata ele, que depois disso entendeu o novo rumo que o trabalho tomaria. 

PERCEPÇÕES

Para Aldemar, o tema e o cenário retratados dão ao curta uma “cara super cubana”, mas não se trata de um documentário sobre o combate à dengue no País caribenho, que viveu um surto da doença em 1981. “É um filme sobre estruturas do poder, e isso serve pra qualquer sociedade, não só pra Cuba. Dá pra aplicar ao contexto político de Manaus, por exemplo”, afirma o amazonense, que também procura desconstruir as ideias pré-concebidas sobre a realidade cubana.

“Eu passei quase dois anos pesquisando esse país e ainda tenho muito cuidado em opinar. Existem problemas quanto à liberdade de expressão, sim. Não consigo imaginar um panelaço anti-Fidel por lá, por exemplo. Mas, ao mesmo tempo, o filme mostra uma população sem medo de peitar uma autoridade que está aplicando uma multa (a mais comum é a de 50 pesos cubanos, cerca de R$ 7). É bem contraditório. O país tem uma herança militar muito presente, mas que não inibe um comportamento expansivo que é natural do cubano”.

E o que Mayelín Martinez achou de “El Enemigo”? “Riu quase o filme inteiro. Isso para mim é o melhor de Cuba. Se a linha entre o público e o privado é difusa, a divisão entre o trágico e o cômico é invisível”, opina o cineasta.

VIVÊNCIAS

Aldemar Matias desembarcou em Cuba em 2012 com uma bolsa da Secretaria de Cultura do Amazonas para participar de um curso de direção de atores na Eictv. Um mês depois, ele entrou no curso regular de direção de documentário da escola, com duração de três anos, desta vez com recursos próprios somados a um prêmio do Proarte (SEC) e a uma bolsa do Ibermedia.

Sobre a vivência em outro país, ele acha complicado separar a experiência profissional da pessoal. “Aprendi que o exercício para ser um bom diretor também serve para melhorar como ser humano. Ou seja, olhar para o indivíduo com tolerância, paciência e empatia. Porque para desenvolver bem um personagem, tem que entender o raciocínio e as motivações dele, por mais absurdas que pareçam. Por outro lado, minha crítica no contexto sociopolítico foi aguçada”.

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