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Diário da Venezuela #2: fragmentos daquela que já foi a 'Meca do free shop'

A ilha se destaca não só por suas atrações naturais, mas por ser uma área livre de impostos. Leia a segunda crônica de viagens sobre o país caribenho 15/02/2016 às 20:10
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Menino brinca na beira da Playa La Punta, em Isla Coche, uma ilhota dominada por turistas. Muitas de suas atrações são praticamente inacessíveis ao venezuelano comum.
Luiz Guilherme Melo Isla Margarita (Venezuela)

Dizem que o sol (símbolo da beleza, da prosperidade e do otimismo) brilha mais de 300 dias por ano na Isla Margarita, ilha venezuelana localizada no Mar do Caribe (distante 331 quilômetros de Caracas). Isso, combinando com as suas belas praias, é um motivo de orgulho aos habitantes do lugar, ao mesmo tempo em que é a mola propulsora da economia local.

A ilha caribenha se destaca não só por suas atrações naturais, como também pelo fato de ser uma área livre de impostos, apresentando preços mais baixos do que os encontrados no continente sul-americano. Por isso, o comércio é bastante movimentado, mas nem de longe lembra aquela que já foi o “paraíso das compras”, a “Meca” dos desejos capitalistas da classe média brasileira. A causa é bem conhecida de outras gerações do nosso País: inflação galopante.

Por conta disso, a maioria dos produtos, incluindo os itens mais vendidos (roupas, eletrodomésticos, queijos, chocolates e bebidas), não são tabelados e mudam de valor quase que diariamente.

Nos supermercados (ou nos bodegóns), sobra espaço nas prateleiras e faltam produtos básicos, como açúcar, frango (ou como chamam por lá, pollo, ingrediente abundante na culinária venezuelana) ou até mesmo rolos de papel higiênico – a recomendação para que turistas levem os seus na mala deve ser levada muito a sério.

Claro, gastando um pouco de sola de sapato, é possível encontrar produtos de grife mais em conta que no Brasil. Mesmo assim, os preços de alguns itens, principalmente nos shoppings, se colocarmos na ponta do lápis, são os mesmos ou diferem poucos centavos dos preços praticados no comércio brasileiro (em parte pela desvalorização do real nos últimos meses).

Se o desejo consumista do visitante for mesmo insaciável, é preciso garimpar (e muito) no centro de Porlamar (cidade mais povoada da Isla Margarita, situada na região sudeste), ou no centro comercial de Juan Griego (pequena cidade ao norte da ilha), e ter muita paciência para driblar as toneladas de produtos piratas.


Antes, vale uma explicação: a taxa de câmbio na Venezuela é controlada pelo governo. Em outras palavras, a taxa oficial funciona assim: 1 dólar vale 2,1 bolívares fuertes. Porém ninguém usa essa taxa. Os venezuelanos possuem um limite para a compra de dólares ou de euros e, por isso, os compram no mercado paralelo.

Nas ruas, nas lojas dos centros comerciais ou com os cambistas na fronteira Brasil-Venezuela e afins, é possível trocar 1 real por até 155 bolívares (dependendo da cotação, que sobe e desce ao sabor da hiperinflação que tem castigado a Venezuela nos últimos tempos).

Para se ter uma ideia, um trabalhador médio venezuelano ganha um salário mínimo de aproximadamente 9.649 bolívares. Trocando uma nota de 100 reais no “câmbio paralelo”, é possível ganhar quase o dobro em um minuto.

Cambiar por fora é ilegal e pode resultar em cadeia, mas essa é uma daquelas leis que na prática viram letra morta. Prova disso é que em Pacaraima, município brasileiro localizado no estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela, é rotineiro cambistas se oferecerem para comprar reais de turistas brasileiros em plena luz do dia, debaixo do nariz dos guardas venezuelanos armados até os dentes.

Trocar um punhado de reais por bolívares pode realizar aquele sonho de enriquecimento repentino, mas tudo não passa de uma doce ilusão. Dos bolos quase intermináveis de cédulas, que exigem uma sacola ou uma mochila extra, um bom bocado delas se vai na compra de um simples produto. Sem contar que, na ilha, os preços são diferenciados para turistas e cidadãos margaritenhos (para maior controle, os vendedores sempre pedem a permissão de entrada no país, dada na fronteira, ou a carteira de identidade antes de emitir nota fiscal). E consumir algo por menos de 1.000 bolívares é como achar agulha no palheiro.

A crise econômica é palpável. Ao atravessarmos a fronteira da Venezuela, o que mais vimos foram filas quase intermináveis em frente aos supermercados para comprar alimentos e produtos básicos. “Se eu quiser comprar frango para a minha família, tenho que dormir na fila do supermercado”, nos contou J.H, um simpático taxista que conhecemos na ilha.

Ele nos explicou que, por conta do racionamento da cesta básica e de produtos de higiene e limpeza, é feito um rodízio para a compra desses produtos em determinados dias da semana, de acordo com o último número da identidade.

As filas parecem assustadoras à atual geração de brasileiros, mas é familiar para quem viveu nos anos 1980, quando José Sarney era presidente e o Brasil voltava aos poucos à democracia em meio a uma inflação selvagem.

A Isla Margarita não está isenta da turbulência inflacionária. Até os turistas são submetidos a um limite de compra por itens nos supermercados (não é permitido comprar mais de 10 unidades). Quer queira, quer não, de alguma forma, os visitantes acabam sentiNdo na pele o estilo de vida venezuelano.

Uma emulação, claro, pois muitos dos lazeres que os turistas desfrutam são inacessíveis à maioria da população – quase não se vê um venezuelano curtindo a Isla Coche, por exemplo, uma ilhota com diversas atrações, distante uma hora de barco de Margarita, e destino quase obrigatório.

Se a ilha não é mais o “paraíso das muambas” de outrora, ainda continua sendo um lugar em que se come bem sem que isso pese no bolso.

Nos restaurantes mais finos, pode-se apreciar um prato sem passar dos 5 mil bolívares. E aos que não querem se lançar em aventuras culinárias (tem muita fritura e temperos fortes na comida local, capazes de causar um estranhamento em estômagos estrangeiros), há muitos fast-foods internacionais nos shoppings.

No geral, é possível comer como um rei nababo pagando muito pouco. Uma experiência deslumbrante e, ao mesmo tempo, um azar todo nosso que entramos numa profunda depressão “pós-prato” ao voltarmos de viagem.

Confira a terceira e última crônica sobre a melhor maneira de conhecer o lugar nesta segunda (15). 

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