Publicidade
Entretenimento
Vida

Diário da Venezuela #3: um refúgio paradisíaco na pátria Bolivariana

Na bagagem trouxemos apenas uma certeza:“¡adiós!” jamais. Um“¡hasta luego!“ basta. Confira a terceira crônica de viagens sobre o país caribenho 11/02/2016 às 16:29
Show 1
É interessante notar um certo patriotismo no ar, objetos com as cores do país e a bandeira nacional são itens comuns entre a população
Luiz Guilherme Melo Isla de Margarida (Venezuela)

Conversar com um taxista é uma das formas mais baratas de conhecer um lugar a fundo. Eu e meus companheiros de viagem (dois fotógrafos de mão cheia) conhecemos um, muito simpático, extrovertido e falastrão, chamado J.H – filho de um peruano que morou muitos anos no Brasil e, segundo meus amigos, fala um português convincente.

Foi com ele a maioria das nossas corridas de táxi pela Isla Margarita (distante 331 quilômetros de Caracas), e dele recebemos uma “aula magna” sobre a atual realidade política, social e econômica da Venezuela, bem como algumas curiosidades acerca da cultura e dos costumes venezuelanos.

Pele oliva, de baixa estatura e enérgico, J.H é o oposto do taxista margaritenho comum – introvertidos em sua maioria, de modo que comunicam apenas o necessário (o preço das corridas, prioritariamente), mesmo quando você puxa assunto.

Em nossas andanças, conhecemos muitos taxistas, bem como vários modelos vintages de carro; alguns caindo aos pedaços, literalmente; outros sem taxímetro nem velocímetro, mas potentes e devoradores de gasolina – o que não é nenhum problema em um país onde, com uma moeda, se enche o tanque de um carro.

Há, na ilha, linhas de micro-ônibus que apanham passageiros em vários pontos (uns abrigos feitos de pedra), mas o táxi é de longe o meio de transporte mais rápido e prático.

O bom é que as corridas são baratas e podem ser negociadas antes do embarque. Os preços mudam pouco, na verdade. Os taxistas cobram, praticamente, o mesmo valor de dia, e um pouco mais caro à noite, quase como um acordo entre cavalheiros para que todos garantam a arepa de cada dia (uma iguaria de massa de pão feito com milho moído ou com farinha de milho pré-cozido, popular e tradicional na Venezuela).

De todos os taxistas que conhecemos, apenas um (além do J.H) se destacou por fugir do trivial e entrar em um assunto delicado por lá: a política.

Apoiador entusiasta do atual presidente Nicolás Maduro, o homem, de voz arrastada, rasgou-se em elogios ao ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, disse que os partidos de direita eram prepotentes e que, se dessem dinheiro a ele, mataria todos os direitistas, um a um. Uma ameaça nada convincente partindo de um senhor bonachão de cabelos brancos que, aparentemente, leva uma vida normal naquela ilha que vive apinhada de turistas o ano todo.

Enfim, anda-se tanto de táxi em Isla Margarita que fidelizar com um taxista durante a estadia é um caminho natural. Foi assim que conhecemos J.H, o nosso maior achado, um homem sem diploma, mas um virado por natureza – entende de mecânica de carro e construção civil, mas exerce o ofício de taxista pra ganhar a vida; peruano de nascimento, venezuelano de coração; casado e pai de quatro niños, dois dele e dois da atual esposa, com quem – ele nos confidencia – vive uma relação aberta. Uma modern family à moda latina.

A certa altura da conversa sobre comportamento, meu amigo perguntou qual é a receita para conquistar o coração de uma mulher venezuelana, considerada umas das mais bonitas do mundo (se levarmos em consideração a quantidade de misses mundo que saíram de lá).

“Mulheres venezuelanas apreciam homens extrovertidos”, diz J.H em tom professoral, “os tímidos não têm vez”.

Hábitos como sair pra dançar e paquerar, por exemplo, não são tabus na Venezuela. Nas noites caribenhas, os jovens venezuelanos costumam se esbaldar ao som da salsa, da rumba e do reggaeton, embora o rap, o hip-hop e o pop norte-americano sejam muito presentes na playlist dos adolescentes.

Havia muito mais casas noturnas na ilha há alguns anos atrás, mas a maioria foi fechada pelo governo como uma forma de coibir a prostituição e o tráfico de drogas. Na prática, houve uma diminuição considerável (o que explica, em parte, a vida noturna sonolenta de Margarita), mas os lugares destinados a encontros fortuitos ainda existem, embora funcionem de uma forma discretíssima.

Mesmo com todas essas, digamos assim, liberalidades, o Catolicismo tem forte influência no país, e é fácil perceber a religiosidade do povo venezuelano, pois os santos da igreja romana estão por todas as partes: nas lojas, nos supermercados, nas ruas, nos jornais locais.

Dentre todos, a Virgem do Vale, padroeira da ilha, reina absoluta na devoção dos fiéis margaritenhos. E apesar de encontrarmos igrejas evangélicas com certa facilidade (principalmente da linha doutrinária pentecostal), os católicos são maioria absoluta.

Os feriados católicos são respeitados à risca, mas eles também têm um carnaval próprio, quando as mulheres desfilam nas ruas em trajes pequenos. Fora desse momento, vestes curtas só na praia, e é muito estranho aos olhos dos venezuelanos o hábito dos turistas brasileiros irem ao shopping com roupas praianas.

É interessante notar um certo patriotismo no ar, principalmente por parte dos adultos – camisas e bonés com as cores da bandeira nacional são itens comuns do vestuário. Comum também é o uso de uniformes de equipes locais de beisebol (uma paixão nacional) e a camisa dos “vinotintos”, como é carinhosamente chamada a seleção venezuelana de futebol, esporte que aos poucos vem conquistando corações por lá.

O esporte, aliás, é uma das poucas atividades que unem um país polarizado politicamente. A insatisfação com o atual governo é grande, mas a oposição nas ruas é discreta.

Enquanto manifestações explodem nas ruas de Caracas, no caminho que trilhamos até Isla Margarita o que mais vimos foram resquícios das últimas eleições presidenciais nos muros, e uma constatação até previsível: encontramos muito mais propagandas do atual presidente em todos os cantos. Em todo o nosso roteiro, vimos apenas uma propaganda do opositor mais conhecido, Henrique Capriles, cujo rosto estava discretamente desenhado na mureta de uma residência na ilhota de Coche.

“Apesar de todas as dificuldades, sou feliz por viver aqui”, conta J.H, destacando como aspecto positivo o fato de que, na Venezuela, a carga tributária é de 16%, uma das mais baixas da América Latina. Além do mais, água, energia, gasolina e moradia (aluguel) são consideravelmente em conta. Isso, porém, não descarta os planos de J.H um dia se mudar para outro país que lhe ofereça mais oportunidades para realizar os seus sonhos, entre eles, se formar engenheiro. “Penso em me mudar para a Colômbia, ou quem sabe para o Brasil”, nos conta.

Na nossa última corrida (com direito a selfie), ao nos despedirmos de J.H, nos despedimos, de uma forma simbólica, daquela ilha paradisíaca, habitada por um povo batalhador, sofredor, feliz. Qual o brasileiro. Somos hermanos e não sabemos. Ou insistimos em não saber.

E, assim, deixamos esse paraíso sul-americano com a alma salpicada de saudades, de encantos e de paixões, como as escamas vermelhas que o sol poente estampa no mar caribenho.

Na bagagem trouxemos apenas uma certeza:“¡adiós!” jamais. Um¡hasta luego! basta.

Publicidade
Publicidade