Quarta-feira, 30 de Setembro de 2020
Projeto

Do AM, 'Lá vem o Rio' é selecionado para projeto do Itaú Cultural

Encenado no formato de teatro lambe-lambe pelos artistas Iris Brasil, Victor Lucas Oliver e Matheus Fortes, “Lá vem o Rio” foi gravado através de vídeo-chamadas, como parte de um macroprojeto chamado “O Lado de Dentro”



WhatsApp_Image_2020-09-02_at_16.27.54_98C8D49C-3168-4CA8-BC60-2D689F92FD8E.jpeg Foto: Divulgação
02/09/2020 às 16:36

A amizade entre uma garça e uma capivara surge durante a cheia dos rios na região amazônica, quando as águas invadem a mata e trazem junto o lixo jogado na natureza pelos seres humanos. Esta é a premissa do espetáculo infantil “Lá vem o Rio”, da companhia amazonense “Coletivo Experimental de Teatralidades”, selecionado pelo Itaú Cultural para integrar a programação do “Festival Arte como Respiro – Edição Cênicas”. A peça será transmitida neste domingo (6), a partir das 14h (horário Manaus), na plataforma do Itaú Cultural.

Encenado no formato de teatro lambe-lambe pelos artistas Iris Brasil, Victor Lucas Oliver e Matheus Fortes, “Lá vem o Rio” foi gravado através de vídeo-chamadas, como parte de um macroprojeto chamado “O Lado de Dentro”, desenvolvido em março, no início da pandemia da Covid-19 no País, em que um total de quatro peças curtas foram adaptadas ao formato virtual e publicadas no canal do grupo no Youtube .



O “Coletivo Experimental de Teatralidades” (da sigla CETA) tem apenas um ano e meio de existência. Formado em meados de 2019, nasceu da união de quatro atores novatos (entre estudantes e recém-graduados) do curso de teatro da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que compartilham do mesmo desejo de disseminar as artes entre a população amazonense.

“Em um ano já fizemos uma temporada da peça “Fim de Partida” e de outra chamada “Mocinha”, que percorreu Manaus, o interior do Estado e Brasília. Tínhamos outros planos para o Coletivo este ano, mas, no início da quarentena, nós decidimos pensar em uma estratégia de transformar o teatro, uma arte presencial, em uma arte virtual, sem torná-lo um produto meramente audiovisual”, conta a atriz Iris Brasil, que assina a direção de “Lá vem o Rio”.

A artista conta que, durante o planejamento do projeto, o grupo encontrou no lambe-lambe, conhecido também como teatro de miniaturas, cuja técnica permite misturar o teatro com o audiovisual, já que é utilizado efeitos sonoros com a manipulação de bonecos dentro de uma caixa pequena.

“O teatro lambe-lambe é uma linguagem teatral de formas animadas, que utiliza caixas de máquinas fotográficas, muito usadas no Nordeste no Século 20 para tirar foto das pessoas nas praças. Quando esses objetos caíram em desuso, alguns artistas a transformaram em uma caixa cênica, que lembra um minipalco. As peças são curtas justamente porque são exibidas em espaços públicos para um espectador de cada vez”, explica Iris Brasil.

O trabalho todo requereu cuidados minimalistas e muita paciência, conforme destacou o paranaense Matheus Fortes, que dividiu a responsabilidade de manipular os bonecos com o ator Victor Lucas Oliver, e que participou de toda a produção da peça à distância, por meio de vídeo-chamada.

“Pra mim foi uma experiência incrível, até porque, no teatro lambe-lambe, durante a manipulação dos bonecos, nós devemos nos atentar a muitos pequenos detalhes que podem tomar proporções enormes se saírem do eixo. Por isso, a encenação requer muita paciência porque, geralmente, manipulamos muitos objetos ao mesmo tempo em um cenário pequeno. Superados esses desafios, o resultado ficou lindo”, comentou ele, que é pesquisador da linguagem da manipulação do teatro de bonecos, assim como a iluminação cênica nas formas animadas.

Mensagem dupla

A peça “Lá vem o Rio”, que foi gravada em maio, tem uma duração de 10 minutos. O roteiro mescla duas mensagens conscientizadoras: uma alusão à pandemia em que parte da população resiste em fazer o distanciamento social ao mesmo tempo em que não abre mão de velhos vícios, como jogar lixo nos rios. Uma garça e uma capivara, representantes da fauna amazônica, são os condutores da narrativa.

A capivara sempre na terra firme e a garça nos ares. A primeira alerta a outra que o rio está enchendo, trazendo consigo a poluição da cidade. A garça, por saber voar, nega os alertas da capivara até que um dia ela é atingida por uma grande quantidade de lixo e passa apuros ao se ver com uma sacola plástica presa em seu bico – aos espectadores adultos, uma analogia bem familiar com o negacionismo e a resistência às medidas sanitárias por parte da população brasileira durante a pandemia.

Há também nessa história, segundo os produtores, uma mensagem de amor e empatia, transmitida com a leveza que os tempos atuais pedem.

Segundo a gerente do núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural, Galiana Brasil, o grupo amazonense trouxe um conjunto de expressões na linguagem cênica muito importante de serem iluminadas como o teatro para a infância, a animação e a técnica específica do lambe-lambe.

“Para além da técnica há, ainda, o diálogo lúdico com as temáticas amazônicas pela presença da fauna e dos icônicos rios Negro e Solimões. Tudo isso com os atravessamentos do momento atual e os impactos de uma pandemia retratados com singularidade e poesia”, disse.

Festival

O “Festival Arte como Respiro – Edição Cênicas”, do Itaú Cultural, apresenta a partir desta quarta-feira (2) até domingo (6), 16 projetos contemplados no edital de emergência, que selecionou quadros de dança, performances, espetáculos e cenas teatrais não só do Amazonas, como também da Bahia, Distrito Federal, Maranhão, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo.

As apresentações virtuais, voltadas para adultos e crianças, serão transmitidas pelo site do Itaú Cultural, onde ficam disponíveis para serem assistidos por 24h.

Após a primeira semana, o festival continua na segunda quinzena deste mês, de 16 a 20 de setembro, quando mais 24 obras das artes cênicas entrarão no ar. Seguindo o mesmo esquema: de quarta-feira a domingo, reservando os dias de semana para o público adulto, com sessões às 19h, e estendendo as atividades aos finais de semana também para as crianças, com espetáculos a partir das 14h – horários de Manaus.

Curiosidade

O teatro lambe-lambe, também conhecido como teatro de caixa, miniteatro e caixa mágica, surgiu em 1989 no Brasil e se espalhou por países como México, Argentina, Chile e França. As criadoras foram a cearense Ismine Lima e a baiana Denise di Santos. A primeira caixa foi adaptada de câmera de foto lambe-lambe (daí o nome), antiga câmera usada em praças e parques, e ganhou furos laterais, por onde o bonequeiro enfia as mãos e manipula os personagens.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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