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Documentarista amazonense Aurélio Michiles tem obra resgatada em mostra realizada em SP

A exposição do cineasta reúne vídeos, videoinstalações, documentários e registros de performances de diversos países 21/09/2014 às 14:53
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Obra do cineasta retrata conflito em território indígena nos anos 1980
ROSIEL MENDONÇA ---

O documentarista amazonense Aurélio Michiles foi um dos 18 artistas selecionados para integrar a exposição “Memórias Inapagáveis - um olhar histórico no acervo Videobrasil”, que fica em cartaz no Sesc Pompeia, em São Paulo, até o fim de novembro. A mostra reúne vídeos, videoinstalações, documentários e registros de performances de diversos países. A seleção foi feita a dedo pelo curador espanhol Agustín Pérez Rubio, atual diretor artístico do Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba).

As obras resgatam episódios e conflitos que costumam ser contados somente pelo olhar dos vencedores, um sinal de que a arte também pode evitar o esquecimento histórica. É o caso de “O Sangue da Terra”, curta-metragem lançado por Michiles em 1984, época das primeiras experiências do diretor no gênero documental. O filme é um registro da batalha do povo Sateré Mawé contra a petrolífera francesa Elf Aquitaine, que havia invadido suas terras, em Maués.

“Em 1980, ganhei uma bolsa da Funarte para fazer um documentário sobre a cultura do guaraná entre os índios Sateré-Mawé. Logo quando comecei a entrar em contato com eles, numa das reuniões um líder se levantou e disse: ‘Por que você não conta para o mundo um problema que estamos vivendo aqui na nossa terra?’”, relembra Michiles.

Foi então que ele se deparou com o conflito causado pela invasão do território Sateré pela empresa francesa, levada até lá pelo governo militar para fazer prospecção de petróleo (o “sangue da terra”). “Mas eles foram invadindo com quase 500 homens, máquinas e bombas, provocando um impacto não só ambiental, mas social e cultural. Não tinha como eu não me engajar nesse processo, a tragédia deles estava diante dos meus olhos”, justifica o diretor.

Nesse caso, conta Michiles, o desfecho da batalha jurídica foi favorável aos índios, que acabaram sendo indenizados e tiveram as terras demarcadas em meados dos anos 1980. Registro do conflito, o documentário “O Sangue da Terra” foi lançado no Museu de Arte de São Paulo (Masp), e ainda rendeu um prêmio ao amazonense.

A imersão na terra dos Sateré-Mawé também deu origem a outro documentário, “Guaraná, olho de gente”, desta vez sobre a cultura do fruto amazônico. Segundo o diretor, ele ainda possui materiais inéditos dessa época, como diários e fotos.

NOVA EXPERIÊNCIA

Aurélio conta que, a princípio, o documentário seria uma produção em 16mm. “Mas naquela época havia muita inflação, e quando cheguei em Manaus percebi que não daria para concluir o projeto se continuasse com esse formato. Foi quando me deparei com as possibilidades do vídeo e da televisão”.

Então o diretor teve acesso à TV Cultura, na época dirigida por Hermengarda Junqueira, e resolveu fazer o filme em vídeo, e não em película. “O mundo se abriu para mim em termos de linguagem, porque a imagem era captada simultaneamente. Eu captava e já tinha a imagem, o que me dava o poder de interferir e dar outro sentido a ela”, comenta ele.

DIREITO À MEMÓRIA

Cerca de dois anos atrás, Michiles recebeu um e-mail de um jovem Sateré que solicitava uma cópia de “O Sangue da Terra”, no que foi prontamente atendido. “É uma memória que já estava se perdendo para eles”, aponta.

“A memória, na verdade, é a metáfora da vida. Quando você a perde, passa a ser nada. O sentido da vida é ter um passado, desejar um futuro e viver intensamente o presente”, filosofa o diretor. Para ele, a exposição em São Paulo serve de aviso para mostrar que nossos dramas se repetem. “São memórias inapagáveis e inapagáveis realidades”.

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