Publicidade
Entretenimento
SAÚDE

'Optei por viver e viver com qualidade', declara paciente com câncer terminal

Enquanto a ciência busca novas alternativas, especialistas afirmam: dá para viver mais e melhor com a doença 09/07/2017 às 05:00
Show portal cancer frie
Com câncer de mama agressivo, Elfriede construiu um veleiro com o marido, Jadyr, para viajar pela costa brasileira
Natália Caplan São Paulo

Quando se fala em câncer, o primeiro pensamento da maioria das pessoas é de morte. Porém, quem convive com a doença — seja médico ou paciente— sabe que é possível, sim, proporcionar/ter uma vida quase normal. Entretanto, vários fatores podem influenciar na qualidade e no tempo ganhos, desde o diagnóstico precoce à oportunidade de receber o tratamento adequado. No caso de Elfriede Galera, 61, a descoberta demorou.

“Em 2010, fui diagnosticada com câncer de mama metastático HER2+ (tipo um pouco mais agressivo). Solicitei ao médico toda a verdade sobre meu estágio e, por alguns segundos, o mundo despencou. Respirei fundo e pensei: ‘realmente não tenho muitas opções’. Então, optei por viver e viver com qualidade”, diz. “O hospital é meu grande ‘pote de vida’, onde vou pegar mais um punhadinho a cada 21 dias”, completa.

Durante os sete anos dessa batalha, a artista plástica se tornou uma “sobrevivente do SUS”, onde já utilizou todos os medicamentos disponíveis do rol. Para continuar o “maravilhoso jogo da vida”, ela depende de ação judicial para tomar o remédio ainda inacessível para quem depende do Sistema Público de Saúde. Entretanto, é uma mulher ativa, segue o tratamento rigorosamente e, ainda, dá suporte a outras pacientes.

“Contei a todos, prometendo lutar e que, no final, tudo ficaria bem. Foi aí que percebi como vivemos em uma sociedade despreparada para os momentos mais sublimes da vida... Todos diziam ‘você não pode falar assim’, ‘já está com metástase’, ‘o câncer já se espalhou’. Passei pelos mais severos tratamentos contra o câncer de mama e, mesmo assim, realizei muitos sonhos: a formatura da minha filha, Nicole [27], o vestibular do meu filho, Patrick [22], e colocar no mar o veleiro que construí com meu esposo, Jadyr, entre 1988 e 2014. Hoje, trabalho no novo projeto do veleiro para subir a costa brasileira e, quem sabe, ir até o Caribe. É um sonho que eu tenho certeza que vou realizar”, finaliza.

Apoio aos pacientes

De acordo a presidente do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz, o maior desafio é proporcionar o diagnóstico precoce, uma das bandeiras da organização não-governamental, que oferece apoio para quem enfrenta uma batalha diária contra a doença. O foco da entidade é defender e garantir os direitos do paciente. Para isso, realiza fóruns com representantes de diferentes setores da saúde para discutir sobre a área oncológica no Brasil.

 “Estamos vendo uma avalanche de diagnósticos tardios e, infelizmente, quando esse paciente chega, também não tem acesso ao tratamento adequado. O Oncoguia existe para ajudar o paciente com câncer a viver melhor”, afirma. “Acesso a um tratamento multidisciplinar é o que vai fazer a diferença na vida do paciente. Desde o acesso ao oncologista, ao tratamento adequado para o tipo de câncer e no tempo certo; acesso a uma equipe multidisciplinar e todos os suportes terapêuticos que ajudarão a sanar possíveis efeitos colaterais. Tem que ser esse pacotinho”, enfatiza.

Medicina personalizada

Um dos convidados do sétimo Fórum do Instituto Oncoguia, realizado em São Paulo, no Hospital Sírio-Libanês — onde é o responsável pelo Centro de Oncologia —, o oncologista Paulo Hoff ressaltou a importância da medicina personalizada como o caminho para proporcionar maior sobrevida aos pacientes. Ele lembra que o câncer não é apenas uma patologia, mas tem vários subgrupos.

“Tínhamos a tendência de agrupar os tumores de acordo com a origem. Por exemplo, câncer de mama e de pulmão. Mas o câncer não é uma doença única. São centenas de doenças parecidas na apresentação, mas cujo desenvolvimento é feito por formações diferentes do código genético da célula. Então, tem uma célula normal que sofre mutação e se transforma em uma célula cancerosa”, explica.

Ainda segundo o também diretor geral do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e professor na Universidade de São Paulo (USP), o conhecimento molecular dessas alterações levou à possibilidade de tratamentos desenhados especificamente para um único tipo. Isso, ressalta, permitiria um resultado muito melhor. Hoje, se tem informação sobre dezenas de tipos de câncer.

“Depois de um tempo, começamos a separar por tipo histológico, como carcinoma e adenocarcinoma. Então, não é surpresa que os tratamentos não tivessem o sucesso desejado. Se você está tratando doenças diferentes da mesma maneira, não dá para esperar que o resultado seja o mesmo para todos. Os tratamentos estão cada vez mais sofisticados e específicos para alterações únicas de cada paciente”, enfatiza.

Estrutura ainda deixa a desejar

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), Clovis Klock, o diagnóstico é fundamental. Mas a falta de patologistas qualificados e de laboratórios habilitados em alguns procedimentos anatomopatológicos, como a imunohistoquímica — utilizada para diferenciar os tipos de tumor, se ele será mais ou menos agressivo — dificulta o acesso aos exames e tratamentos adequados em algumas regiões do País. O Amazonas está nessa lista.

“Esse exame não é feito em Manaus e precisa ser enviado para outras regiões do Brasil. Não tem muita estrutura e o número de patologistas é escasso. Necessitamos ter profissionais e laboratórios, com qualidade e em quantidade suficientes para oferecer um diagnóstico preciso e mais rápido para esse paciente ter o tratamento adequado, seja cirúrgico ou quimioterápico”, declara.

BLOG Patrícia Prolla, oncogeneticista

“A oncogenética é extremamente fundamental, porque conseguimos identificar 10% a 25% que têm alto risco de desenvolver câncer dentro de um grupo grande de pacientes. Muitas vezes, as intervenções reduzem drasticamente esse risco. Se conseguirmos encontrar essas pessoas, o que fazemos para mudar a vida delas é bem efetivo. No câncer hereditário, a partir do momento que se identifica uma pessoa que tem essa mutação hereditária, vem outros quatro ou cinco da família de carona. Tem situações em que o risco é tão grande, que a única maneira de reduzir drasticamente o risco é com cirurgia de retirada do órgão; tem outras situações que pode se fazer quimioprevenção, para reduzir o risco do câncer ocorrer. E tem a prevenção secundária, que é encaixar essa pessoa em um programa de rastreamento de alto risco, no qual ela será acompanhada por toda a vida, com exames e periodicidade diferentes para ter uma chance maior de identificar um tumor nos estágios iniciais, onde ainda seja curável. Então, não diminui as chances de o tumor ocorrer, mas você está ali, identificando no início, aumentando a chance de cura ou de um tratamento eficaz.”

*A repórter viajou a convite do Instituto Oncoguia.

Publicidade
Publicidade