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PRODUÇÃO

Em novo projeto, Aldemar Matias busca jovens 'heróis' que se expressam pela dança

Durante as gravações da série "Pa'lante", que será exibida nas TVs públicas do Brasil, documentarista amazonense percorreu cinco países da Amazônia Internacional em 40 dias 21/05/2017 às 08:00 - Atualizado em 22/05/2017 às 13:10
Rosiel Mendonça Manaus (AM)

Dias atrás, em algum lugar no interior do Equador, uma senhora confessava ao cineasta Aldemar Matias como teve que superar a decepção pessoal de ver o filho trocar a engenharia pela dança contemporânea, paixão que com o tempo ela aprendeu a estimular. Histórias como essas são a matéria-prima da série “Pa’lante”, novo projeto do documentarista amazonense, com exibição garantida nas TVs universitárias, comunitárias e educativas de todo o País pelo programa Brasil de Todas as Telas.

Durante mais de um mês, Matias e uma equipe reduzida percorreram, de carro e avião, cinco países da Amazônia Internacional para registrar a realidade de jovens que usam a dança para desafiar contextos conservadores, dentro ou fora de casa. “Esse desafio não é necessariamente agressivo, nem violento”, explica o diretor, que filmou no Peru, Bolívia, Colômbia e Equador, além do Brasil. “Na verdade, ele é mais potente quando surge a partir do afeto”. 

De acordo com ele, “Pa’lante” também tenta mostrar que as telas precisam mostrar outros “heróis”. “A gente é bem ignorante em cultura latinoamericana. Não quero discutir o motivo, mas quero contribuir pra diminuir um pouco esse abismo. Por isso o projeto foi pensado em cinco países vizinhos”.

Trajetos

Matias encontrou um desses heróis na periferia de Cali, na Colômbia: um jovem negro e gay que montou uma escola de salsa para crianças e acabou ajudando a diminuir os índices de violência no bairro. Na Bolívia, a série fez contato com Lorena, que mostrou como a comunidade afro local ressignificou o papel do negro na antiga Saya, dando origem à Saya Afroboliviana. 

Desembarcando em Lima, a produção encontrou uma garota de 22 anos que enfrenta críticas por não abrir mão da Danzaq peruana, normalmente restrita aos homens por exigir força e resistência. Já no episódio brasileiro, a equipe foi até Manacapuru para ouvir a história de Anandha Vasconcelos, mulher transgênero e ex-cirandeira, que contou sobre como foi acolhida e também rejeitada nos anos em que dançou numa agremiação da cidade.

“Esses cinco jovens são meu Batman, minha Mulher-Maravilha e meu Homem-Aranha. Eu torço e me projeto neles. São personagens escolhidos porque eu me conecto com a fraqueza deles, com a resistência deles, e quero entender como eles enfrentam cada luta diária”, afirma Aldemar. 

Para o diretor, embora exponha os preconceitos cotidianos, a série não entra no campo do ativismo. “Esses personagens não são ativistas, não discursam sobre empoderamento e não estão conscientemente militando por nada. Eles só querem dançar, mas não se encaixam no que foi pré-determinado para eles, e por isso decidiram resistir, em vez de desistir. Por isso a história deles é tão íntima e autêntica”.

Olhar pessoal

Em seu melhor momento, e a despeito de algumas dificuldades que persistem, o audiovisual vem dando importantes saltos qualitativos no Amazonas. Mas filmar fora daqui nem sempre é visto com bons olhos, como conta um incomodado Aldemar Matias, que tem em sua filmografia curtas como “El Enemigo” (2015), gravado em Cuba, e “Parente” (2011), com locações no Amazonas e Roraima.

“Se vem um cineasta da Alemanha filmar em Manaus, ele é o aventureiro, o desbravador curioso. Mas se o caboco decide dirigir filme em outros países, a primeira coisa que escuto é ‘mas por que não quer filmar as coisas aqui da terra? do nosso povo?’”, questiona ele.

“Eu quero e filmo no Amazonas, mas também quero reivindicar o direito de não ficar preso a isso e contar histórias de qualquer lugar. O nosso ponto de vista também pode ser emprestado a outros territórios, outras línguas. Ninguém perde nada com isso”, afirma o diretor. E com a série “Pa’lante”, que fica pronta até dezembro, Aldemar assume de vez sua vocação para cineasta latinoamericano, ou melhor, do mundo.

Saiba +

Matias considera “Pa’lante” (contração de “para adelante”, que significa “para frente” em espanhol) o seu trabalho mais ambicioso: “Entrar e sair da vida alheia em tão pouco tempo, por cinco vezes, foi difícil”. A equipe conta com Marcos Tupinambá, produtor e co-roteirista; Liliane Maia, produtora executiva; e Mariona Solé, na edição. Contemplada em edital público, a série foi financiada pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), do governo federal.

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