Sábado, 18 de Setembro de 2021
Arte Indígena Contemporânea

Emerson Pontes participa de residência na Europa

Artista indígena encarnou a entidade híbrida Uýra Sodoma em performances decolonialistas na Áustria e na Itália



Capturar_E78310B2-9300-4191-B430-1D2D045DBDE7.JPG Foto: Divulgação/Marisel Bongola
05/08/2021 às 19:21

Uma das principais expoentes da Arte Indígena Contemporânea (AIC), a paraense Emerson Pontes ficou famosa por dar vida à entidade híbrida Uýra Sodoma. Expressando a conexão entre sabedorias ancestrais e conhecimentos científicos da ecologia, e utilizando seu corpo para unir diversos elementos orgânicos em suas montações, Emerson propõe através de Uýra um novo olhar para a natureza.

E é esta proposta de um novo olhar que Emerson leva para a Europa através da sua “árvore que anda”, como ela própria nomeia Uýra.  A artista conta que a oportunidade para a residência artística surgiu a partir do convite das curadoras Ivana Marjanovic e Marissa Lobo (que é brasileira, da Bahia), para participar da exposição, de perspectiva decolonial, “Resurgences of Amazonia!”, ao lado da artista indígena Moara Tupinambá. Na entrevista a seguir, confira mais detalhes da passagem de Emerson pela Europa:



No que consistiu essa passagem?

A “Resurgences of Amazonia!” é a principal razão de eu estar aqui. Além dela, também participei de rodas de conversa sobre o impacto do colonialismo europeu nos povos indígenas brasileiros e quais os caminhos de cura, e apresentei a performance “Ponto final, ponto seguido” nas cidades de Innsbruck (Áustria). Aproveitando a estada, também apresentei estas performances no Castello di Rivoli Museo d'Arte Contemporanea, na Itália.

Todas as ações foram de uma perspectiva decolonial. Quais questionamentos você quis gerar a partir dessa ótica?

A Áustria, mesmo que negue, fazendo-se nacionalmente de vítima, teve participação no Holocausto Nazista. Hoje, o movimento antirracista do país e centenas de atividades por direitos humanos, buscam colocar em debate este fato, buscam “botar um fim ao passado nazista do país”. Penso: Será mesmo? 

Ainda hoje, é muito notório o conjunto de reflexos desta política racista no país, algo muito expresso no recebimento de imigrantes e demais políticas sobre diversidades étnicas que aqui habitam. O peso branco, de perspectiva eugênica, é bastante vivo já nos poucos dias que estou aqui. Sou indígena, de território brasileiro - lugar que tem um passado de extermínio dos povos originários muito maior, e menos divulgado, que o próprio Holocausto. 

Enquanto que na Alemanha, em torno de 6 milhões de Judeus foram assassinados, na América do Sul temos dados de extermínio de aproximadamente 70 milhões de indígenas. Nosso Holocausto foi ainda maior, mais brutal, e a política brasileira e mundial fez questão de esquecer. 

Como essa questão colonial de séculos passados se conecta com o que estamos vivendo hoje politicamente no Brasil?

Hoje, no Brasil, estamos sob comando de um presidente que deixa bem explícito as suas convicções políticas genocidas – muito inspiradas na política nazista. Fui para trazer tudo isto à superfície, mas também fui para plantar vida através das raízes criadas com terra sobre as pedras daqueles lugares – uma espécie de convocação a estes países, para que apoiem o Brasil e seus povos neste momento de pandemia. Nenhum país estará realmente livre enquanto outros padecem.

Como é ocupar esses espaços sendo uma artista da Amazônia e com uma arte tão relacionada aos questionamentos coloniais?

Ser artista é comunicar sobre mundos, para os muitos mundos. É refletir a época em que vivemos e, para mim, expor doenças coloniais propondo caminhos de cura. Venho à Áustria para não apenas expor as desgraças nas quais nos colocaram, como indígenas, mas também reafirmar que as estamos atravessando, que sabemos o que nos adoeceu e que estamos nos curando. Enquanto indígenas amazônicos e de outros territórios “brasileiros” são vistos historicamente na europa como exóticos e eróticos, venho reafirmar nossa capacidade crítica, política e de generosidade – que deseja revisar os passos coloniais, para que tenhamos uma outra sociedade – de justiça e cura.

Você tem algum projeto para quando retornar ao Brasil?

Ao retornar para o Brasil, seguirei com minhas participações em eventos virtuais sobre questões raciais, ambientais e de diversidade sexual e de gênero. Também sigo preparando a montagem das obras que serão expostas na 34a Bienal de São Paulo, a ocorrer em setembro deste ano, na qual ocuparei três espaços: um com fotos de meu acervo, outro com uma série fotográfica nova e a terceira é a instalação ‘Malhadeira’.

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