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'Empregadas como a Val estão em extinção', diz diretora do filme 'Que horas ela volta?'

Anna Muylaert assina roteiro e direção do filme estrelado por Regina Casé, que discute a realidade das empregadas domésticas no Brasil e está pré-indicado ao Oscar de melhor produção estrangeira 28/09/2015 às 12:41
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Filme de Anna Muylaert foi premiado no Festival de Sundance
ROSIEL MENDONÇA Manaus (AM)

Filme brasileiro mais comentado desde “Praia do Futuro” e “O som ao redor”, “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert, vem conquistando os aplausos e corações do público e da crítica por onde passa. Até o último fim de semana, o número de ingressos vendidos no País já passava de 250 mil.

Estrelado por Regina Casé e Camila Márdila, o longa traz a história de Val, pernambucana que deixou a filha Jéssica na terra natal para ganhar a vida como empregada doméstica em tempo integral em São Paulo. Tudo muda quando Jéssica, agora vestibulanda, passa a morar com a mãe e os patrões dela. Por meio das tensões e questionamentos que surgem desse encontro, o filme expõe feridas sociais ainda abertas no Brasil, como a desigualdade e a discriminação.

Ao mesmo tempo, a obra reflete as mudanças pelas quais o País passou nos últimos anos, incluindo a conquista de direitos. Nesta entrevista ao BEM VIVER TV, a diretora aborda esses assuntos e fala das barreiras que enfrentou  para garantir seu espaço num “clube exclusivo”.

O filme tem algo de autobiográfico? Em que aspectos?

Comecei a escrever o roteiro há 20 anos, logo depois de ter meu primeiro filho. Eu, que sempre dei muita ênfase na carreira profissional, de repente percebi que o trabalho da mãe não era apenas o trabalho mais importante do mundo, era um trabalho sagrado. Ao mesmo tempo, atentei para o fato de que,  no meu meio social, este era um trabalho desvalorizado, e muitas mulheres preferiam entregar cotidianamente seus filhos aos cuidados de babás com baixos salários.

E muitas vezes essas mulheres tinham que largar seus filhos para poder cuidar dos filhos dos outros. Percebi que na figura da babá estavam contidos grandes paradoxos da sociedade brasileira: paradoxos sociais, afetivos e culturais que circundavam todos em relação à questão da educação.

Alguma história em particular serviu de exemplo?

Me inspirei na história de Edna, que foi babá de meu caçula anos atrás, e a personalidade de Val foi inspirada em Dagmar, que trabalhou na casa de minha mãe quando eu era criança.

Como você chegou ao nome da Regina Casé para assumir o papel da protagonista?

Sempre a considerei uma atriz estupenda, pela proximidade dela com o tema e pelo fato de eu achar que numa única figura ela contém as raças branca, preta e índia.

Você imaginou que o filme suscitaria, seja pelos prêmios ou pelas polêmicas, toda essa discussão em torno do protagonismo feminino no cinema?

Não, nunca imaginei. Apesar de o filme ser escrito, dirigido, fotografado, montado e protagonizado por mulheres, acredite ou não, isso nunca foi notado por mim! Nunca foi mesmo comentando entre nossa equipe. Eu sempre pensei num filme para o púbico brasileiro de 8 a 80 anos, de todas as raças, credos, classes sociais e idades. 


Camila Márdila e Regina Casé protagonizam o longa

Mas, agora que meu filme é sucesso internacional e vendeu uma soma grande de dinheiro no exterior, comecei a perceber que há certas áreas engravatadas do mercado (de contratos, negócios, acordos, representações, intermediações, contatos) que normalmente são frequentadas apenas por homens, como num “clube exclusivo” que se leva super a sério, mas que de repente eu passei a frequentar.

Como lida com isso?

Por haver poucas mulheres diretoras transitando por aí, mais do que nunca estou me sentindo como a Jéssica que “pulou na piscina” e todos querem que ela saia. Eu percebo que através de pequenos gestos, pequenas omissões, silêncios, desinformações, o machismo acontece.  E como comecei a viver isso na pele, o assunto aconteceu para mim e acabou acontecendo também um debate em torno disso. Eu acho excelente que esse debate surja.

Você se considera feminista? Como vê essa luta?

Agora estou virando feminista porque comecei a sofrer por causa disso. Tenho pensado muito no assunto, principalmente buscando entender por qual porta ele entra e por que nós mulheres permitimos que ele aconteça, já que a gente sabe que quando um não quer, dois não brigam. Ou seja, se um homem bate numa mulher e ela não vai até a delegacia depois, ela está compactuando com isso. Então tenho me policiado bastante para não me deixar apanhar e para berrar quando me batem. Mas não é fácil perceber. Às vezes a gente apanha, mas mecanismos internos invisíveis fazem a gente superestimar o valor daquela violência.

A Regina Casé disse não ser contra as profissões de babá ou empregada doméstica, desde que elas sejam respeitadas. Já você declarou em uma entrevista que espera que esas sejam figuras em extinção no Brasil. Pode explicar melhor o seu posicionamento?

Empregadas como a Val, que dormem no serviço e são completamente servis é que são figuras em extinção. Neste filme discute-se moradia, o espaço e até a função da arquitetura: o andar superior, o andar inferior, o quarto de hóspede, a área de serviço, a área de lazer...  Tudo isso espelha zonas de convívio social, algumas permitidas para alguns e proibidas para outros – como a piscina – e outras permitidas para todos, mas frequentadas apenas por alguns - como a lavanderia, por exemplo.

Acho que a PEC das Empregadas deu um grande passo no sentido da profissionalização da doméstica, mas ainda falta bastante para a sociedade brasileira abandonar seus arraigados hábitos coloniais.  Nesse sentido, concordo com a Regina: a babá vai continuar existindo para pessoas que precisam e podem pagar. Mas isso deveria ser uma profissão valorizada, bem paga e não uma maldição social.  São duas ideias bem diferentes.

Seus relatos dizem que o feedback das domésticas e babás em relação ao filme tem sido muito positivo. Você teve algum retorno, positivo ou negativo, dos patrões e patroas?

Ouvi relatos de desaprovação à atitude da Jéssica, tanto durante as sessões como depois, para as atrizes.  E também ouvi falar de duas mulheres que saíram do cinema em uma das cenas mais emblemáticas. Sair do cinema quando a personagem está se libertando é um sinal de que elas estavam desaprovando essa evolução da Val.

Por outro lado, teve patroas que se sentiram representadas, sentiram vergonha e quiseram mudar algumas coisas. Uma delas me disse que iria reformar e aumentar o quarto da empregada. O Cauã Raymond disse no Encontro com Fátima Bernardes que ele viu o filme e deu um aumento para a empregada.

Na sua opinião, o Brasil precisa se olhar mais no espelho por meio do cinema, no sentido de se confrontar?

Hoje a produção está dividida basicamente em dois tipos de filme: o filme de arte, que normalmente não tem acesso ao grande público, e a comédia televisiva, que tem acesso ao grande público, mas é um subproduto que nada contribui para o cinema brasileiro. Acho que precisamos encontrar um caminho do meio, fazer filmes bem feitos que se proponham a ter qualidade ética e estética e ao mesmo tempo procurem comunicação com o público. Quanto ao cinema funcionar como espelho, isso é uma meta difícil e, quando ele a alcança, é bom para todos. Mas se o cinema apenas abrir discussões e fazer pensar, acho que já é ótimo.

Você destacaria o trabalho de que outras cineastas brasileiras em atividade?

Juliana Rojas e Gabriela Almeida.

Você está trabalhando em algum novo projeto ou o momento é de dedicação total ao “Que horas ela volta”?

Rodei o filme “Mãe Há Uma Só”, que está agora em fase de montagem. Fora isso, estou totalmente dedicada ao “Que Horas ela Volta?”. Tem alguns meses que não paro. Vivo entre entrevistas telefônicas e viagens internacionais para o lançamento do filme em outros países.

Estou pensando em acabar o novo filme e, quem sabe, fazer um ano sabático, ou no mínimo um semestre sabático, para poder descansar um pouco e reciclar ideias. Tudo está tão veloz que não tenho tempo de andar, de ler, até mesmo de ir ao cinema!  Definitivamente meu plano a médio prazo é parar um pouco.

Machismo partiu de amigos

Anna sentiu na pele as reações por ter metido o pé na porta do “clube exclusivo” do cinema nacional. O caso com maior repercussão aconteceu no mês passado, durante um debate sobre “Que horas ela volta?” realizado no Recife. No encontro estavam presentes os também cineastas Cláudio Assis e Lírio Ferreira, amigos de Anna, que tumultuaram a conversa com comentários machistas e homofóbicos. O constrangimento ganhou destaque na imprensa e os diretores foram duramente criticados.

A desaprovação à atitude voltou à tona no 48º Festival de Brasília, no qual Cláudio Assis concorreu com seu filme “Big Jato”, que acabou saindo vencedor. Quando subiu no palco, no dia da exibição e também na hora de receber o prêmio, o diretor foi alvo de uma onda de vaias e gritos de “machista”. Ele acredita ser vítima de um “linchamento moral”.

Anna Muylaert reagiu e afirmou, em postagem no Facebook, que “não faz sentido continuar punindo” os cineastas. “Até quando? Espero que todos os interessados naquele debate e em todos os outros debates que dali nasceram levem a discussão para um nivel cada vez mais alto e menos pessoal”, escreveu.

Perfil

Anna Muylaert

Participou como roteirista das equipes de criação dos programas “Mundo da Lua” e “Castelo Rá-tim-bum”

Dirigiu os longas “Durval Discos” e “É proibido fumar”

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