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Escritora amazonense, Astrid Cabral demonstra pleno vigor artístico em novo livro de poemas

O passeio pela câmera interna e pelo espaço externo, no livro "Intramuros", da autora que chegou a integrar o famoso Clube da Madrugada, chega a Manaus pela Editora Valer 18/09/2015 às 09:33
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A publicação prova a versatilidade de Astrid Cabral em cortar as distâncias entre o dentro e o fora
Alexandra Vieira de Almeida/Divulga Escritor ---

O livro de poemas "Intramuros", da amazonense e ex-membro do Clube da Madrugada Astrid Cabral, publicado originalmente em Curitiba, ganha agora sua segunda edição pela Valer de Manaus. A obra, que conquistou o importante prêmio de literatura Helena Kolody, é uma que atinge as reflexões fundamentais sobre subjetividade e objetividade, o dentro e o fora, a natureza e o artificial, percorrendo espaços que preenchem as lacunas da presença, sendo esta imaginativa ou realista. Como a autora mesma explica num texto teórico que percorre a trajetória de sua obra artística, “A coletânea 'Intramuros/Extramuros' revela, desde o título, a proposta de um espaço poético fechado e de outro aberto”.

Quando a poeta cita as laranjas no poema que inaugura o livro, mostra seu desencantamento com relação à natureza morta na miniatura de sua casa, no prato matinal, como se lá fora, elas fossem mais plenas e leves e não condizentes com o peso da rotina. O dentro tem suas mágoas que entorpecem a vida externa. No mesmo poema, o azul do pássaro faz lembrar ao eu-lírico que esta imagem do bule da louça é uma representação débil da realidade vibrante que ela tanto almeja.

Logo no primeiro poema do livro, encontra-se o diálogo entre o intra e o extramuro. Para o Dicionário de símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, muro pode indicar “separação”. Aqui, há a agressividade da natureza adentrando a vida doméstica, como se aquela em seu estado puro não se revelasse tão ameaçadora sem o contato do humano, seja a partir do olhar que este lança sobre o fora, seja pelo artefato que ele produz através do natural, sua base.

Na poesia, a linguagem, para Astrid, ameaça o silêncio ameno do esquecimento. As palavras jorram em direção dos entrelugares, em que corpo e pausa, toque objetivo e seu olhar abstrato se intercalam: “A xícara de louça/aparentemente muda/me fala de horários/chás cafés chocolates...” A “cerimônia do dia”, como a poeta mesma anuncia é uma representação falha da natureza. Temos uma ritualística dos objetos, fugindo à liberdade dos pássaros fora das gaiolas e das xícaras; a natureza é a tão sonhada utopia do eu-lírico, que no interior da casa adquire a coagulação do sangue fresco das tintas do artista preso à sua interioridade objetiva.

O muro aqui é símbolo de uma ultrapassagem da separação, de uma fronteira entre o fora e o dentro. A verticalidade deste espaço se desmorona, dando lugar à habitação poética. O poetizar é a forma de Astrid subverter o lugar que cabe apenas à concretude das coisas. O olhar traspassa tudo. A experiência subjetiva da poeta adquire vida e aniquila o que está morto a sua volta, o que é rotina, horário, passagem. No belíssimo e afinado prefácio de Fausto Cunha a este livro de Astrid: “O mundo real permeia a obra de Astrid Cabral desde os contos de Alameda (1963).”

Certamente que a realidade é a matéria-prima do poeta, mas o olhar entrecruzado desta escritora, pespontando as linhas invisíveis de duas margens: o universo doméstico e exterior, transforma o hábito em drama, em movimento, trama, intercalando memórias diversas num mesmo ser que se atualiza em cada vislumbrar do momento.

Em “Piscina”, Astrid ri e ironiza a representação da natureza a partir deste objeto que se encontra nas casas e serve de prazer para as crianças. Utiliza uma metáfora riquíssima para falar com seu tom sarcástico sobre o confinamento da natureza no espaço doméstico: “mar domesticado”. O saudosismo do eu lírico é perfurar esta muralha que separa o concreto das habitações para percorrer os espaços imaginários da natura tão esnobada e rejeitada pelo homem moderno que prefere os artificialismos estéticos das construções arquitetônicas. A forma como Astrid lê o universo doméstico, seus objetos, o adentrar da natureza que ultrapassa a sua porta é o acordar para a realidade. Nisto reside a realidade de que fala Fausto Cunha.

Refletir sobre o fora no dentro e a partir do dentro do eu lírico é que requer uma originalidade excepcional  desta poeta singular. Para Schopenhauer, em A arte de escrever: “O estilo é a fisionomia do espírito.” E estilo, Astrid Cabral tem de sobra. A estilização do fora é colocar o olho de dentro como uma máquina fotográfica que capta o externo com cores diferentes e inaugurais, quebrando a rotina de que tanto a poeta reclama. Em “Ovo estrelado”: “Do céu do prato/um sol me olha/com olho de ouro.” O macroscópico, o grandioso e o pequeno, familiar se intercalam saltando faíscas líricas de criatividade sobre o real. Este tecido artístico através das palavras é que é capaz de driblar o cansaço do mesmo, da univocidade.

Gilles Deleuze, em Diferença e repetição, disse: “O Ser se diz num único sentido de tudo aquilo de que ele se diz, mas aquilo de que ele se diz difere: ele se diz da própria diferença.” Aqui o dentro e o fora se dedilham, o ser e a linguagem se tocam, como se o discurso engendrasse uma diferença necessária para o mito do ser essencial e sempre igual a si mesmo, pois é a partir destes dois muros (intra e extra) aqui em Astrid que a palavra se extrapola dos muros da essência subjetiva. O objetivo lança um olhar ameaçador ao interior do eu lírico que expele toda sua dor e prazer diante da realidade. O olhar adquire estado de coisa, o objeto se aprofunda no dentro e o jogo torna possível a passagem de um para outro plano.

Fugindo ao espaço doméstico, a parte final “Extramuros” relata sobre lugares vivos, as naturezas vibrantes de fora e espaços pelos quais a poeta viajou. Tem-se a “Catedral de bambu”, onde o eu lírico se regozija com a beleza mística da natureza, mesclando objetos da igreja com as folhas naturais. Mais uma vez a “separação” dos muros é só um artifício para esta escritora fantástica fazer sua brincadeira elegante que quebra com as fronteiras do fácil. Nos postais sul-americanos e de Paris, tem-se mais uma vez a versatilidade de Astrid Cabral em cortar as distâncias entre o dentro e o fora.

Nesta série de poemas, o corpo da natureza se conecta com o artificialismo das construções e o olhar do leitor dança e paira por sobre os muros das espécies, num jogo presentificado e raro. Os postais não poderiam ser a estilização do olhar do eu lírico? Não sua forma física em fotografia, mas o ferir do olho da câmera interior no passeio imagético pelas cidades pelas quais a poeta viajou? Portanto, pode-se dizer que a objetividade se cumpre neste seu livro, mas não deixa de ter o peso da câmera interna do eu-lírico que tece um tapete fotográfico imaginário e subjetivo, num passeio pela lente do leitor que completa estes verdadeiros postais com linhas de várias cores. Este livro tem o que dizer sobre espaços ainda não ditos pelo olho comum.

Sobre a autora

Astrid Cabral Félix de Sousa nasceu no dia 25 de setembro de 1936 em Manaus, onde fez os primeiros estudos e integrou o movimento renovador Clube da Madrugada. Adolescente ainda transferiu-se para o Rio de Janeiro, diplomando-se em Letras Neolatinas na atual UFRJ, e mais tarde como professora de inglês pelo IBEU. Lecionou língua e literatura no ensino médio e na Universidade de Brasília onde integrou a primeira turma de docentes saindo em 1965, em consequência do golpe militar.

Em 1968 ingressou por concurso no Itamaraty, tendo servido como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio e Chicago. Com a anistia, em 1988 foi reintegrada à UnB. Ao longo de sua vida profissional desempenhou os mais variados trabalhos, fora e dentro da área cultural. Com a aposentadoria desde 1996 passou a dedicar-se exclusivamente à literatura e à família. Colabora em jornais e revistas especializadas. Viúva do poeta Afonso Félix de Sousa, é mãe de cinco filhos. 

Publicou, entre outros, os livros: Alameda (contos), 1963, 2 ed., 1998; Ponto de cruz (poesia), 1979; Torna-viagem (poesia), 1981; Zé Pirulito (infantil), 1982; Lição de Alice (poesia), 1986; Visgo da terra (poesia), 1986; Rês desgarrada (poesia), 1994; De déu em déu (poesia) [reunião de 5 livros], 1998; Intramuros (poesia), 1998, 2 ed., 2011; Rasos d´água, 2003; Jaula (poesia), 2006; Ante-sala (poesia), 2007; Palavra na berlinda (poesia), 2011; Infância em franjas (poesia), 2014; recebeu da ABL o Prêmio Olavo Bilac e o Nacional de Poesia em 2004, além de vários outros. Membro do PEN Clube do Brasil.

Link para compra do livro:

http://www.ecenter.com.br/valer/html/loja/produto?idProduto=573#

 


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