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DESCOBERTAS

Escritora e jornalista catarinense abandona cidade natal para desvendar o Amazonas

Vida ribeirinha, costumes e lendas de moradores de Manaus e S. Isabel do Rio Negro inspiraram livro “Filhos do Rio Negro”, de Keila Zanatto 01/05/2017 às 05:00
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Foto: Divulgação
Alexandre Pequeno Manaus (AM)

A paixão pelo Amazonas. Esse foi o principal motivo que levou a jornalista catarinense Keila Zanatto a abandonar sua cidade natal para se embrenhar na Floresta Amazônica. Por isso, encontro das águas, pássaros, jacarés, botos e voadeiras motor 40 dos ribeirinhos estão presentes nas páginas do livro “Filhos do Rio Negro”, escrito por Keilla e lançado pela editora da Universidade do Vale do Itajaí (Univali). A obra, com 112 páginas, apresenta relatos do cotidiano, costumes e diferentes histórias de moradores de Manaus e Santa Isabel do Rio Negro, no Amazonas.

Nascida em Treze Tílias (SC), Keila cresceu em um sítio, mas nunca teve nenhum parente ou conhecido no Amazonas. “Brincava descalça e com cachorros no colo. Tomava banho de rio e brincava no barro após cada chuva. Acredito que este seja meu elo com o Amazonas. Já sentia um amor esquisito por este lugar”, revela. 

Aos 18 anos, Keila foi morar na cidade e percebeu que sentia falta do silêncio do sítio, o cheiro de mato e os animais. “Comecei a pensar mais em conhecer o Amazonas. Sempre que eu pensava em uma viagem, era o Amazonas que vinha à minha mente”, conta. Em 2010 ela foi selecionada para participar do concurso de histórias “Revelando os Brasis” e foi ao Rio de Janeiro com outros 39 participantes para ter aulas de cinema e transformar a história em filme. Ela conheceu um amazonense e comentou sobre seu amor pelo Estado. “Ele me convidou para conhecer a cidade dele quando eu viesse para cá. A vontade ficou ainda mais forte”, diz.

Finalmente, Amazonas

Em 2011, Keila resolveu realizar seu sonho e escrever um livro. “A minha intenção era contar para as pessoas do Sul, como a vida por aqui funciona e abordar essas questões que estão no imaginário da maioria dos brasileiros”, diz. A escritora se instalou em um hotel nas proximidades do Teatro Amazonas - sua única referência.

“Fiquei uma semana em Manaus e escrevi a primeira parte do livro. No Teatro Amazonas, o Seu Nonato, personagem que trabalhava lá há 40 anos e sabia até mesmo sobre os fantasmas, deu mais vida ao capítulo sobre o cartão postal de Manaus. Comidas, artesanatos, pessoas que encontrei pela rua. Pessoas que Manaus adotou. Eu faço parte das narrativas do livro.  As voadeiras, as casas amarradas no rio, essas coisas que fazem parte do cotidiano daqui, mas que para nós no Sul é novidade”, afirma.

A jornalista relata que não sabia que precisava levar redes para as embarcações regionais, na sua primeira viagem de barco. Ela contou com a ajuda da família seu conhecido, que tiveram que emprestar uma rede para seguir ao interior.

A segunda parte do livro se passa em Santa Isabel do Rio Negro, por isso, como as duas cidades são banhadas pelo mesmo rio e os personagens vivem em torno dele, o ponto em comum dá o nome do livro: “Filhos do Rio Negro”. “Terminei o livro e engavetei. Precisava desse tempo de amadurecimento e senti que tinha ficado algo muito pessoal e não um trabalho para dividir com outras pessoas. Deixei ele engavetado por 6 anos e só em 2017 o livro ganhou vida física”, conta Keila.

Cidadã de Manaus

Ao terminar o processo de produção do livro, Keila sentiu vontade de voltar para o Amazonas. Decidida, resolveu correr atrás do seu sonho mais uma vez. Vendeu tudo o que tinha e, com apenas uma mala, aterrissou na cidade, onde está instalada até hoje.

"Fui percorrer o Rio Negro novamente. Barcelos, Santa Isabel e São Gabriel da Cachoeira. Estou preparando novos livros. Fiquei durante 40 dias e voltei para Manaus e agora estudo, pesquiso, escrevo sobre assuntos que envolvem o homem amazônida, o ambiente em que vive e a comunicação”, conclui. Keila afirma que jamais se arrependeu da escolha. Ela não tem data para voltar definitivamente para o Sul.

Três perguntas para Keila Zanatto 

Qual a maior lição que você aprendeu na viagem?

A primeira foi perceber a humildade que ainda existe nas pessoas, principalmente no interior. O coração bom e como ainda se preocupam e ajudam o outro. A segunda grande lição foi o meu papel como jornalista/escritora. No interior, algumas coisas que aconteceram me fizeram perceber o quanto importante estava sendo eu estar ali escrevendo sobre o lugar e a vida daquelas pessoas. Nunca ninguém tinha saído de outro lugar e ido até eles para ouvi-los. Nós temos necessidade de contar nossas histórias e contar para pessoas que se interessam em ouvir é muito melhor. Fiquei muito feliz por ter feito isso e contribuído de certa forma com a autoestima deles. 

Quais as dificuldades que você encontrou no percurso?

Não encontrei dificuldades, senti paixão em cada momento e minha vontade de fazer o percurso era tão grande que nada me incomodava, da mesma forma agora que vivo aqui, nada me incomoda. Não vejo dificuldades. Vivo com amor e simplicidade. No barco, por exemplo, eu achava tudo o máximo. Tomar banho, dormir na rede, comer ali. Como foi uma escolha de livre e espontânea vontade e movida por esse amor esquisito, em tudo eu via uma novidade, um prazer, uma diversão.

Você vivenciou alguma história curiosa durante a viagem?

O que mais marcou foi a rede. Além dela, quando a noite começou a cair, centenas, milhares de aranhas começaram a aparecer no barco. Eram pequenas, mas ficavam por cima das redes, descendo e subindo e eu tenho aracnofobia. É o bicho que mais tenho medo. Não grito com baratas, ratos, sapos, cobra, mas aranha eu “passo mal”. Comentei com as pessoas próximas e nenhuma tinha sequer percebido as aranhas. Fechei a rede e procurei esquecer. No outro dia de manhã, um funcionário do barco apareceu com uma vassoura para saber onde tinha aranha. As pessoas estavam comentando que eu tinha medo de aranhas hahahha, fiquei “famosa” de novo. Ele não achou nenhuma porque elas apareciam só à noite - para o meu pânico.

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