Publicidade
Entretenimento
Kids

Especialistas alertam: 'excesso de higiene' prejudica a imunidade das crianças

De acordo com pediatra e com psicóloga, pais devem deixar filhos livres para brincar e se sujar à vontade 01/05/2016 às 14:50 - Atualizado em 01/05/2016 às 15:58
Show sujeira 002
Pisar na terra e brincar em meio à natureza é essencial para desenvolver a imunidade
Natália Caplan Manaus

Receita para uma infância saudável: altas doses de banhos de mangueira, subidas em árvore rolar na grama com o cachorro, pés descalços na terra e muita diversão em meio à natureza. Essa “prescrição” soa até meio estranha em uma sociedade onde o álcool em gel e produtos antibacterianos ganham cada vez mais espaço. Porém, de acordo com especialistas, o excesso de higiene prejudica o desenvolvimento da imunidade das crianças.

“Eles brincam no quintal com os animais, andam descalços na grama. Dá gosto vê-los inventando brincadeiras, se sujando e se divertindo”, diz Gabriela Repolho, 24. Mãe de Paula, 3, e Ricardo, de 1 ano, ressalta que assistir desenhos animados é cronometrado. “Eu sempre regulo o tempo que eles passam assistindo televisão, pois prefiro que façam bagunça à vontade e ao ar livre. O contato com a natureza faz bem”, completa.

Ainda segundo a doula, os pequenos esbanjam saúde. Desde que nasceu, a mais velha ficou gripada duas vezes, enquanto o caçula adoeceu uma única vez. E, isso, na época em que moravam em uma casa sem quintal. “Eu acho importante que eles tenham essa liberdade pra brincar e descobrir as coisas, do mesmo jeito que eu tive quando era criança. Isso ajuda no desenvolvimento deles, fortalece a imunidade e os deixa mais calmos”, enfatiza.

A universitária Cleo Feitoza, 30, concorda. Tanto, que Isabelle, de 1 ano e cinco meses, não desgruda do cachorro poodle da família, ama brincar na areia e nadar na cachoeira. “É ruim colocar a criança em uma ‘redoma de vidro’. Eu não quero filhos trancados em um apartamento, sem brincar no quintal ou tomar banho de rio. Quero que ela cresça como eu, subindo em árvores e ralando o joelho. Isso que é bom”, diz aos risos.

Quem também deixa a garotada solta no quintal é Ana Paula de Souza Medeiros Santos, 28. A decoradora de festas infantis não impede os filhos Isaque e Samuel, de 5 e 2 anos de idade, respectivamente, de se jogar no chão e se sujar à vontade. “Não tenho neurose. Criança criada com frescura, adoece. Quanto mais a criança se suja e brinca é melhor. Prendê-la demais vai deixá-la doente. Criança tem que se sujar mesmo”, afirma.

Doses de 'vitamina S'

De acordo com o pediatra Flávio Augusto de Melo, a recomendação é voltar à infância simples e receber mais “vitamina S (sujeira)”. A base científica são os estudos do médico David Strachan. O inglês criou a Teoria da Higiene, que afirma: o contato com alguns microorganismos é importante, porque ensina o sistema imunológico, ainda em fase de desenvolvimento, a funcionar corretamente.

“Ele observou que, crianças criadas em locais com limpeza em excesso têm mais propensão às doenças, como alergias, por exemplo. A exposição precoce gera uma reposta adequada. Não é que não deva esterilizar nada, mas é necessário ter controle. Bebê que já consegue ficar sentado deve ser levado para a grama, parquinho, praia... conhecer as texturas também é um estímulo sensitivo”, explica.

Via de parto e alimentação

Ainda segundo o pediatra Flávio Augusto de Melo, formado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Instituto de Medicina Integral Fernando Figueira (Imip), há três fatores principais que determinam o desenvolvimento da imunidade desde antes do nascimento: a via de parto, a alimentação — da mãe e durante a infância — e o ambiente onde cresce. O processo de imunização de uma pessoa inclui, ainda, a flora intestinal.

“No parto normal ocorre a colonização do bebê por bactérias boas da mãe; na cesárea, o bebê é colonizado pelo ambiente hospitalar, com bactérias negativas. E o ideal é evitar o berçário, onde o bebê entra em contato com inúmeras substâncias químicas”, ressalta. “O leite materno também tem bactérias benéficas, que regulam o mecanismo de defesa, como guardas do sistema imunológico. É como se dentro dele já tivéssemos vacinas”, completa.

PONTOS

Crianças que vivem em ambientes extremamente limpos e estéreis são mais propensas a desenvolver doenças, como as alergias, por exemplo;

O contato com microorganismos é importante, porque ensina o sistema imunológico, ainda em fase de desenvolvimento, a funcionar corretamente;

Outras maneiras de estimular a imunidade das crianças é o leite materno, pois fornece as necessidades de ferro, vitaminas e oligoelementos;

O desenvolvimento natural e progressivo do sistema imunológico faz as crianças ficarem mais resistentes às infecções;

É preciso criar condições para que este desenvolvimento aconteça. Por isso, as crianças devem ter contato com a natureza.

BLOG Lucycley Peres, Psicóloga Clinica Infantil

A brincadeira livre em ambientes preparados e orgânicos está cada vez mais ausente dos currículos escolares e dos espaços públicos na sociedade. O primeiro sentido que criança desenvolve, desde o ventre materno, é o tato. A partir do tato, a criança conhece o mundo e se posiciona diante dele. Brincadeiras livres são ricas em estímulos sensoriais e ajudam a criança no desenvolvimento da concentração, regulação emocional além de contribuírem para o desenvolvimento de habilidades motoras e cognitivas. É muito importante que os pais e professores permitam que as crianças brinquem livremente, sem se preocupar com horário, sujeira, manchas na roupa. O brincar é o motor da infância, quanto mais livre e orgânico for o brincar, melhor será para o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional da criança.

Publicidade
Publicidade