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Estudo diz que pessoas param de procurar artistas musicais novos depois dos 30 anos

Ele utilizou dados de usuários americanos do serviço de streaming Spotify e foi feito por um funcionário da empresa 22/05/2015 às 17:45
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Clássico: rock nacional, como o feito pela banda Kid Abelha, faz a cabeça dos trintões
Lucas Jardim Manaus (AM)

Um novo estudo divulgado este mês concluiu que as pessoas deixam de procurar artistas novos ou músicas recentes quando chegam na casa dos 30 anos. A pesquisa usou como base dados do popular serviço de streaming Spotify e foi feita por Ajay Kalia, funcionário da empresa, que se utilizou perfis musicais de usuários americanos como amostra para o estudo.

“Seja porque demandas da paternidade ou da carreira significam dedicar menos tempo à cultura pop, ou seja por desenvolverem o boa e velha ‘estagnação de gosto’, fãs de música após certa idade parecem chegar a um ponto em que seus gostos ‘amadurecem’. [Como] os dados de ouvintes do Spotify oferecem uma visão detalhada dos “streams” [reproduções] de cada usuário, eles nos permitem medir quando esse efeito começa, quão rápido ele se dá e como é impactado por fatores demográficos”, explicou Ajay em uma publicação que divulgava os pormenores da pesquisa.

A pesquisa buscou explicar basicamente, porque nossos avós não têm o menor interesse em Taylor Swift, por exemplo. Ainda que os dados dos usuários brasileiros não tenham sido utilizados no estudo, o A CRÍTICA conversou com alguns fãs de música sobre como eles enxergam a sua conclusão.

'Fora da zona de conforto'

O servidor público Álvaro Raposo, 32, não se sente representado pela pesquisa. Apesar de sempre ter tido a música como atividade paralela, ele não atribui seu contínuo gosto por novidades musicais a isso.

“Sou guitarrista e tive algumas bandas o que não exatamente quer dizer muito pois conheço várias pessoas na mesma situação pararam de procurar coisas novas”, conta Álvaro, que trabalha com tecnologia da informação.

Para ele, há uma questão social que influencia muito na hora que pessoas mais velhas decidem o que vão ouvir. “A maioria das pessoas da minha idade não gosta muito da ideia de ouvir algo que um garoto em idade de estar no colégio escuta”, disse. Além disso, outro fator que pesa é a nostalgia. “As pessoas gostam de lembrar da época que tinham mais cabelo e menos barriga [risos]”, comentou.

Como esses fatores não lhe afetam muito, Álvaro diz continuar ligado nas cenas atuais. “Quando procuro músicas novas, não me ligo muito a datas, contanto que sejam novas pra mim. Ando ouvindo bandas como Tame Impala, Young the Giant, The Vaccines e Alabama Shakes. Do Brasil, gosto muito de Selvagens à Procura de Lei e Far from Alaska, no lado da MPB, Castelo Branco, Criolo, Emicida, Wado... enfim, muita coisa [risos]”, listou o servidor público.

De sua parte, o estudante Gabriel Oliveira, 22, gosta de pesquisar coisas novas em busca de experiências diferentes. “Sou estimulado por músicas que me tirem da zona de conforto do que já escuto, que sejam distintas das coisas que já ouvi”, relatou. 

Ele acredita que pessoas mais velhas acabam empacando nos gostos em parte por uma questão de costume, e em parte pelo excesso de informação que permeia a vida contemporânea. “Por conta do número absurdo de novas músicas e artistas, talvez seja complicado para essas pessoas, principalmente as que não tem familiaridade com as formas modernas de se descobrir música, ir atrás de novidades”, ponderou.

No quesito estilo, Gabriel é eclético e vai desde o hip-hop experimental à MPB. “Recentemente, andei ouvindo Flying Lotus, Queens of the Stone Age, e as coisas mais recentes da Kylie Minogue, do Royal Blood e da Tulipa Ruiz. O disco novo da Tulipa está excelente!”, elencou.

'Regurgitação de coisa velha'

Tem gente, no entanto, que veste a conclusão da pesquisa com orgulho. O pesquisador Fuad Albuquerque, 35, diz que não procura artistas novos por não ver muita coisa original sendo produzida. “Eu vivi a transição do vinil para o CD e do CD para a internet. Nesse meio tempo, ficou muito fácil produzir e divulgar música, o que aumentou muito a quantidade de música lançada, mas creio que o meio, como um todo, perdeu qualidade com esses avanços”, contou.

Ele faz questão de ressaltar que é um entusiasta musical, apesar de sua opinião sobre o estado atual da arte. “Minha primeira memória musical foi ouvir o vinil do [artista eletrônico francês] Jean-Michel Jarre. Na adolescência, fui do boi-bumbá ao blues, e depois tive uma fase hard rock. Não se trata de não gostar de música”, explicou.

Ele acredita que a música produzida após o início da década de 80 oferece muita “regurgitação de coisa velha”. “Eu prefiro ouvir novos lançamentos de bandas que já conheço do que versões pasteurizadas de artistas que eu gosto”, asseverou, elencando artistas como Rush, Yes e  Stevie Ray Vaughn, como alguns de seus favoritos.

Da mesma forma, a química Cristiane Sena, 27, não se sente tocada pela cena atual, apesar de ainda estar na idade disso, segundo a pesquisa. “Eu não guio somente no ritmo para gostar de uma música, eu ouço a letra, e as que são feitas hoje em dia simplesmente não agregam nada à minha vida”, argumentou Cristiane.

Ela reforça a questão do “amadurecimento” trazida pelo estudo. “As pessoas mais velhas começam a amadurecer e fazer a própria vida, enquanto adolescentes são muito maria-vai-com-as-outras”, opinou.

Os gostos da química pendem fortemente para a música brasileira. “Gosto de Elis Regina, Tom Jobim, Zé Ramalho... Também gosto do rock feito pelo Kid Abelha, pelo Paralamas do Sucesso, e pelo Legião Urbana”, concluiu.

Ter filhos também influencia

Além da questão da idade, Ajay chegou a outras conclusões interessantes durante a análise de dados. Segundo o funcionário do Spotify, na média, “enquanto o gosto musical dos adolescentes é dominado por música incrivelmente popular, essa proporção cai de forma estável durante os 20 anos das pessoas, antes de seus gostos ‘amadurecerem’ no início de seus 30 anos”. 

Os dados do serviço de streaming também permitiram a Ajay concluir que pessoas com filhos, independente de faixa etária, escutam quantidades menores de música atualmente popular do que a média dos ouvintes da sua idade.

A fuga da popularidade

Ajay atribui largamente a dois fatores o fato do gosto das pessoas fugir das paradas de sucesso e listas de rádio. “Primeiramente, ouvintes descobrem gêneros musicais que eles não ouviriam nas FMs enquanto adolescentes, feito por artistas não tão populares. Segundo, eles retornam à música que era popular quando estavam crescendo - mas que, desde então, deixou de sê-lo”, escreveu. Esta segunda questão remete ao que Álvaro comentou sobre nostalgia.

Ainda de acordo com os dados usados na pesquisa, os gostos de homens e mulheres são similares na adolescência, mas o consumo de música mainstream pelos homens decai muito mais rapidamente do que o das mulheres, ou seja, homens estagnam seu gosto mais cedo.

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