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Eterno ‘maluquinho’, Ziraldo bate papo com A CRÍTICA

Com direito a falha na comunicação, broncas e memórias de infância, o escritor e quadrinista de 83 anos fala sobre seus lançamentos recentes 27/10/2015 às 14:47
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"O livro infantil deve ajudar a criança a se descobrir", disse o autor
Lucas Jardim Manaus (AM)

A linha está horrível e eu não consigo ouvir o Ziraldo. A assessora de comunicação dele, Marcella, está fazendo o que pode para consertar a situação. No ínterim, eu fico me perguntando o que eu poderia perguntar ao escritor e desenhista de 83 anos, que é quase sinônimo de livro infantil no Brasil, que não tenha sido perguntado antes - realmente uma difícil tarefa.

Eu já sabia sobre o que eu não ia perguntar: o novo livro de Ziraldo, “Nino, o Menino de Saturno”, o qual eu não lera. Poderia partir para “O Menino Maluquinho”, lido por nove entre dez meninos da minha geração (nasci em 1991), mas isso também era chão batido.

O desenhista obviamente não gostou de saber que eu não tinha lido o livro dele  - o que o leva a me dar uma leve bronca que até fez a Marcella ficar do meu lado.

Ele colaborou com o periódico ‘O Pasquim’, alvo de estudo até hoje nos cursos de jornalismo por conta de sua proposta inusitada e de seu teor de resistência política no período ditatorial. Então, claro, ele pode me dar bronca sobre assuntos jornalísticos na hora em que tiver vontade.


Relançamento

Acabamos retomando o fio da meada com uma história engraçada sobre a série ABC - uma coleção de 26 livrinhos, cada um contando uma história em que uma letra do alfabeto é personagem - que ele está relançando.

“A primeira série nós fizemos em livros de quadradinhos, com a letra grande na capa. E aí, o que aconteceu? Foram 26 livros lançados no mercado e comprados por pais e mães que acharam que era para criança de 5, 6 anos, por causa da letrona grande. No entanto, as histórias são para crianças de 8, 9 anos, que gostam de ler. Não é história de bichinho, de fadinha. São histórias para a criança curtir”, explicou.

Segundo ele, em um dos livros, a letra W se apresenta como um alemão colecionador de arte que expõe ao jovem leitor sua coleção de quadros famosos em que ele aparece - o que dá a Ziraldo o pretexto perfeito para apresentar imagens célebres pintadas por artistas como Vincent Van Gogh e Henri Matisse.

“Não tem fadinha. Não tem princesa beijando sapo. Isso é uma história do século XIX. A minha situação toda é para despertar a curiosidade da criança, botar umas informações na cabeça dela, para quando ela crescer, ela pensar: ‘Ah, eu lembro, quando eu era menino, me falaram disso...’”, declarou.

Diálogo

Ziraldo vê o livro infantil como uma oportunidade ímpar de diálogo com um público cheio de potencial e ainda em formação, como evidenciado na inclusão de obras de arte famosas na história da letra W.

É difícil não concordar com ele: até hoje me lembro das óperas que apareciam em alguns desenhos do Looney Tunes que eu assistia quando moleque. Quando menciono isso na nossa conversa, ele lembra do Tom e Jerry.

“O livro infantil deve ajudar a criança a se descobrir. Nele, você estabelece uma troca. Você bota lá alguma coisa de você para a criança e a criança está dando algo dela para você. Você sabe que está instigando a criança, despertando o interesse dela pelo mundo, que ela sabe que está por aí mas não sabe como é que é ainda... Eu acho que a parte divertida de escrever para criança é essa”, ponderou Ziraldo.

Sentimento infantil

As histórias de Ziraldo tendem a falar de uma infância “analógica”, sem os apetrechos aos quais as crianças de hoje se acostumaram. Mas se há uma preocupação geral com a continuidade de leitura pela nova geração, muito conectada às redes sociais e demais tecnologias, ela não atinge o autor.

Ele relembra os hábitos de soltar papagaio e ir ao circo, comuns de seu tempo de menino, hoje substituídos por outros que dão emoção parecida às crianças nos dias atuais.

“O ser humano não muda. Ele sofre até hoje pelas mesmas razões e sente felicidade pelas mesmas razões [...] Então, se você tiver um livro bom que fala da compreensão desses sentimentos, ele dura a vida inteira, independente do que a criança está fazendo”, comentou o Ziraldo.

Um exemplo desses livros imortais é o famoso “O Menino Maluquinho”: “Ele, no livro, é um menino da minha infância, que roda pião, solta pipa, sabe fazer balão sozinho, entendeu? Ele não faz nada de tecnologia moderna, mas as crianças continuam gostando dele porque eu estou falando do sentimento infantil”, concluiu o quadrinista.

A conversa seguia bem até que o telefone decidiu não cooperar de novo, mas dessa vez, não restabelecemos a conexão. No entanto, deu tempo de Ziraldo me dizer para fazer esta matéria contando como me senti durante a conversa e tudo o mais. Melhor direcionamento, impossível.

As novidades

A série ABC, que está sendo relançada, aposta em aventuras protagonizadas pelas letras do alfabeto. Nos livros, maiúsculas e minúsculas são versões adultas e crianças das letras, por exemplo, e as próprias características de algumas delas acabaram virando inspiração: B é barrigudo, C é um comilão...

Além dela, Ziraldo também está lançando “Nino, o Menino de Saturno”, novo livro na coleção “Meninos dos Planetas”. A série é o projeto atual do escritor, que deve encerrá-la com um livro sobre um menino de Plutão.

Depois disso, ele disse que pretende fazer um livro ilustrado com a histórias dos nomes. No total, constarão 250 nomes de menino e 250 nomes de menina no volume.

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