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Fábio Stella regrava música de Tim Maia e revela parceria inacabada com o amigo

Amigo de Tim, Stella prepara novos lançamentos para comemorar 50 anos de carreira, que ganhou fôlego após filme sobre o "Síndico" 06/03/2016 às 19:14
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Em cinebiografia, o músico é interpretado por Cauã Reymond
Rosiel Mendonça Manaus (AM)

O cantor e compositor Fábio Stella se considera um sobrevivente. Num dia de fevereiro, enquanto andava pelo Centro do Rio de Janeiro a caminho do luthier, ele teve mais certeza disso. As lembranças começaram a aflorar quando o artista passou pela rua Visconde do Rio Branco, antigo endereço da gravadora CBS, onde ele registrou seu primeiro compacto, a música “Lindo Sonho Delirante”, parceria com Carlos Imperial e a banda The Fevers.

“Há muito tempo eu não ia às lágrimas. Ao mesmo tempo em que me emocionei ao lembrar de pessoas que começaram comigo e já não estão mais aqui, agradeci por Deus ter me dado a chance de passear pelos mesmos lugares que andei há 40 anos. Por isso tudo me sinto um sobrevivente”, confessou o paraguaio naturalizado brasileiro, com 70 anos recém-comemorados.

E é na amizade de três décadas com Tim Maia que Stella tem uma de suas memórias mais caras. Os dois se conheceram em 1966, em uma boate em São Paulo, e se tornaram amigos inseparáveis, de composição e boemia. São deles as músicas “Risos”, do álbum de estreia do “Síndico”, em 1970, e “Quer queira, quer não queira”, primeira faixa do clássico “Tim Maia Racional”.

Mas o sucesso veio primeiro para Fábio, que estourou em 1969 com “Stella”, canção que lhe valeu a mudança de nome. Aos risos, hoje ele comenta que as histórias dos dois ganharam tintas folclóricas nos bastidores da música brasileira: “Que nem Lampião e Bonnie e Clyde”.

Apesar disso, ele admite que a parceria musical entre eles não é vasta. “Toda vez que sentávamos para escrever ele pedia uma pizza ou sorvete e a gente acabava não terminando a composição. Depois que ele ficou bem de grana e começou a descobrir as coisas boas da vida é que passou a pedir camarão flambado”, conta.

O filme

Sobre o amigo, Stella escreveu um livro em 2007, que veio a se somar à biografia “Vale Tudo – o som e a fúria de Tim Maia”, do jornalista Nelson Motta, lançada no ano anterior. Este último, além de inspirar uma peça de teatro, foi adaptado para o cinema em 2014. 

Sob a direção de Mauro Lima, que assinou o roteiro ao lado de Antônia Pellegrino, “Tim” é narrado pela perspectiva de ninguém menos que Fábio, interpreta no filme pelo ator Cauã Reymond. O compositor elogiou o trabalho, que o levou às lágrimas na sessão de estreia à qual compareceu, mas fez suas ressalvas.

“A cabeça de um diretor de cinema me parece um pouco com a do diretor de novela, de um escritor, um arquiteto. Eles têm uma linguagem, uma visão bem diferente das coisas, então claro que rola uma fantasia às vezes”, afirma. 

Para ele, o filme carregou um pouco ao retratar o temperamento do “síndico”. “O Tim tinha rápidos momentos de ira, mas logo estava rindo. Ele realmente era um cara assim, igual um avião, ia da calma à tempestade em segundos”.

‘Azul da cor do mar’, enfim

É inegável que o filme trouxe um gás novo à carreira de Fábio Stella, que vivia recluso em uma fazenda no Sul da Bahia desde os anos 90. “A minha carreira sempre foi um tobogã gigantesco. Passei períodos fora do Brasil e fiquei num profundo ostracismo voluntário – ostracismo, palavra que muito artista não gosta – nessa fazenda, esperando acontecer um milagre”. 

Quando Stella estava mais distraído, pintou o milagre. Primeiro, “Lindo Sonho Delirante” foi relançada no exterior em uma coletânea de raridades do rock brasileiro, o que trouxe o nome do compositor de volta aos jornais. Em seguida, ele recebeu o roteiro de “Tim” para aprovação. Depois de varar a madrugada “viajando naquela história”, ele deu sinal verde ao diretor e chegou a acompanhar algumas filmagens no Rio.

“Sinto como se eu fosse um fóssil que renasceu da Era do Gelo e está voltando”, avalia o paraguaio-brasileiro. Para marcar o novo momento, que coincide com os 50 anos de carreira, ele prepara uma série de atividades, que inclui shows, lançamento de um site e uma campanha de financiamento coletivo para a produção de um EP acústico. 

O novo álbum tratará versões inéditas de “Stella” e “Fullana”, além do primeiro registro na voz de Fábio da música “Azul da cor do mar”, um dos maiores sucessos de Tim Maia. O cantor lembra que viu esse hit nascer em seu apartamento em Botafogo, num “tempo bastante duro” em que Tim se mudou para lá só com seu talento e poucos pertences.

Sobre a regravação, o cantor revela: “Pedi licença e ele me autorizou”. Segundo ele, o EP está pronto, faltando apenas alguns ajustes, e deve ser lançado ainda neste primeiro semestre.

Uma canção que Fábio sonha em tirar da gaveta é um bolero que começou a compor com o amigo, mas não conseguiu terminar (malditas pizzas!). “Ele gostava de bolero, e esse se chama ‘Mi vida complicada’. Ele cantava a primeira estrofe, parava, e a segunda nunca fizemos. Quem sabe agora eu termine e grave com alguém. Soube que a Alcione está gravando um disco de bolero...”, brincou.

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