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LEGADO FAMILIAR

Filhos realizam sonho da mãe ao publicar fotolivro sobre expedição pela Amazônia

‘Ewaré-Terra Sagrada’ retrata a experiência de Márcia durante viagem de barco pelas águas do Rio Amazonas e o cotidiano da tribo Tikuna 17/04/2017 às 13:22
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Foto: Márcia Minillo
Mayrlla Motta Manaus (AM)

“Um legado aos indígenas, à Amazônia e uma homenagem à artista Márcia Rebello”, assim a pesquisadora Flora Rebello Arduini, formada em direito internacional pela Università Statale di Milano na Itália, define a obra “Ewaré - Terra Sagrada”, na qual ao lado do irmão, o jornalista Aiuri Rebello, e o pai do casal Welter Arduini, publicaram em homenagem à mãe. 

O fotolivro retrata a experiência de Márcia durante viagem de barco pelas águas do Rio Amazonas e o cotidiano da tribo Tikuna. “O livro estava praticamente pronto desde 1998 quando o resgatamos em 2014 para sua publicação em 2016. O livro traz de forma despretensiosa a rotina de uma viagem a bordo de um barco sem luxo em meio à Amazônia, e também os presentes sensoriais e angústias que só a imensidão amazônica apresenta ao ser humano. O livro combina relatos escritos com imagens muitas vezes estonteantes ou chocantes, que mostram a realidade como era, sem filtros”, disse Flora. 

Segundo Aiuri, quem concebeu e começou a produzir o livro foi a mãe, anos atrás. Eles cuidaram da edição final, seleção das imagens, texto e das anotações deixados pela autora. “Tentamos seguir o mais fielmente possível a concepção dela sobre a obra. Para nós é um projeto muito importante que estava ‘entalado’ na nossa garganta. Desde que nossa mãe morreu, há quase quatro anos, havíamos decidido publicar este livro. O significado é de alívio por ter conseguido concretizar o projeto”, disse ele afirmando que a impressão dos exemplares lançados no último dia 29 em São Paulo, foi feita no final do ano passado.

“São 79 páginas de deleite estético. Embarcamos na visão de Marcia do mundo, um olhar muito especial sobre as coisas, esticamento apurado, que fez com que ela abraçasse a fotografia como profissão de fé, o que ela nos apresenta, tanto com suas imagens quanto com suas palavras, é um sentimento puro de empatia pelo próximo e diferente. O resultado imagético e poético disso, na nossa opinião, é deslumbrante”, descreve. 

Lembranças

Aiuri e Flora contam em entrevista ao BEM VIVER GENTE as lembranças que tem da época em que a mãe fez a expedição pela Amazônia. “Eu tinha 16 anos de idade. Vivíamos em Manaus havia poucos meses, quando surgiu a oportunidade de juntar-se à expedição e ela foi. Lembro de ter ficado bravo de não poder ter ido junto na aventura, e de ter estranhado os poucos contatos que ela fez conosco neste período. Apesar de entender exatamente o que ela havia ido fazer, ainda não captava a dimensão e importância do projeto”, expressou.

Já Flora, que na época tinha nove anos, conta que lembra da mãe  arrumando as malas, o equipamento fotográfico, e explicando que ia fazer uma viagem de barco, onde ia conhecer os índios. “Inclusive, descobri há poucos anos  que a viagem dela havia demorado apenas duas semanas. Para mim, aos nove anos de idade, a sensação é que ela havia ficado meses viajando. Lembro-me dela chorar antes de partir e dizer que ia me ligar ‘sempre que possível’, e que me amava”, contou.

“Nunca vou esquecer quando ela finalmente conseguiu ligar pra casa de um orelhão- ela descreve esse momento no livro. Meu coração saía pela boca, e só conseguia balbuciar “quando você volta?”. Ela chorou e disse que estava “quase voltando”- o que ainda não era verdade.

Lembro-me dela me dizer “filhinha, hoje conheci várias crianças indígenas, e elas são que nem você: lindinhas! Desenhamos e demos muita risada!”, completou Flora afirmando que sentiu um pouco de ciúmes da mãe.  

Blog - Aiuri Rebello, filho de Márcia

"O livro traz um  relato antropológico e fugidio de um pedaço muito especial do mundo, habitado por pessoas muito especiais, sob um olhar forasteiro, sereno e sensível, que oferece uma empatia única ao que é visto e retratado. Essa talvez fosse a principal qualidade de nossa mãe, a empatia incondicional pela condição humana."

Perfil - Márcia Rebello

Ela veio ao mundo para observar. Gostava dos detalhes e via com olhos minuciosos os outros ângulos de uma cena. Este traço de sua personalidade a fez descobrir a fotografia e as artes visuais como profissão e grande paixão durante toda a vida. Foi fotógrafa, editora de fotografia e editora de arte por mais de três décadas. Teve obras expostas na Europa e fez ensaios em lugares tão diversos entre si quanto o Deserto do Atacama e o centro de São Paulo.

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