Terça-feira, 22 de Junho de 2021
CINEMA

Filme amazonense feito por mulheres ganha dois prêmios em festival de Pernambuco

Dirigido por Elen Linth e Riane Nascimento, o curta-metragem “Maria” conta a história de Maria Morais, a própria atriz que o interpreta



Making_Of_-_Maria_002__1_.JPG O curta venceu em duas categorias: a de “Melhor Filme Para Reflexão” e a de “Melhor Curta-Metragem Dirigida por Mulher” (Fotos: Divulgação)
05/12/2017 às 11:19

Quando a atriz e ativista travesti Maria Moraes, 19, recebeu o convite para participar da série “Territórios”, ela estava ocupando o prédio do Iphan como parte do movimento Ocupa Minc Manaus, a favor da resistência de políticas culturais e contra o golpe. “Territórios” é uma série documental da Eparrêi Filmes que visibiliza a narrativa de cinco mulheres periféricas da cidade de Manaus e que, posteriormente, se torna o filme homônimo a ela. “Eu estava vivendo o que está na narrativa do filme ‘Maria’”, conta.

“A partir de atravessamentos de produtores culturais e artistas da cidade de Manaus, dei continuidade às minhas pesquisas, através de laboratórios nas ruas e esquinas de Manaus, em corpo, performance e política”, destaca ela, que viveu a si mesma no curta-metragem. A verdade do documentário foi tanta que o filme “Maria” foi premiado no “V Recifest: Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero”, que aconteceu em Pernambuco.



O curta venceu em duas categorias: a de “Melhor Filme Para Reflexão” e a de “Melhor Curta-Metragem Dirigida por Mulher”. O filme é dirigido por Elen Linth e Riane Nascimento, e também venceu o prêmio do júri popular na Mostra do Cinema Amazonense, no último domingo (3). “Maria conta a história da própria Maria Morais. No filme, refletimos a afetividade da travesti na cidade. É um filme ensaio que se utiliza de performance criada pela própria Maria: ela desenvolveu os textos e escrevi o roteiro”, declara Elen. O curta foi feito por uma equipe formada por mulheres.

A produção foi gravada em espaços do convívio de Maria, como sua casa e espaços que ela frequenta. Elen afirma que o resultado do trabalho foi possível por conta da relação de afeto e companheirismo estabelecida com a atriz e as demais integrantes do projeto. Afeto mais do que necessário, visto que a discriminação contra as mulheres no cinema ainda existe. “Já sofri discriminação porque o cinema é machista, branco e elitista. Todos os sets que participamos acabam tendo um caso ou outro de machismo ou racismo”, pondera ela.

O melhor sabor

Para Linth, o gosto do prêmio tem um sabor ainda mais especial. “No cenário nacional, apenas 6% das mulheres dirigem filmes. Ano passado, a Ancine divulgou dados apontando que as narrativas não são pensadas por mulheres. Que a fotografia não é feita para as mulheres. Fiquei feliz pelo reconhecimento e por ser mulher. Tendemos a mudar a relação por conta das políticas e do empoderamento da mulher e outras coisas que nos colocam em lugares de fazedoras de arte”, assegura.

E fazer arte envolve a percepção que se tem da vida. A atriz Maria Moraes relata que “Maria” é um documentário, mas que traz uma mistura de linguagens, e narra a sua história e seus processos artísticos em corpo, performance e gênero. A afetividade que Elen cita também é reforçada por Maria neste processo. “As diretoras de ‘Maria’ me presentearam o olhar delas, tendo o acolhimento de me fazer também parte da criação e narrativa da minha história, elas me reconheceram. O filme é fruto de um encontro entre irmãs”, explica.

Para Moraes, resistência é a palavra que une todas as artistas. “Minha arte resiste junto a elas quando visibiliza minha poética a partir do meu protagonismo. Nós, pessoas trans e travestis, estamos na luta e resistência nas ruas e em vários postos de trabalho, dando visibilidade as lutas por gênero e sexualidade na educação, pelo fim da violência contra as mulheres e reconhecimento das identidades e vivências trans como humanas”, completa.

Saiba +

Outro sucesso: o Amazonas tem mais um filme em sua lista de premiados: o curta-metragem “Formas de voltar para casa”, dirigido por Rafael Ramos, ganhou um prêmio na categoria de documentário no Nevada International Film Festival, situado nos Estados Unidos.


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