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ARTE URBANA

Galeria a céu aberto: viaduto do Coroado se transforma em 'tela' gigante para grafites

Realizadas em parceria com a Prefeitura, intervenções artísticas ocupam cerca de 2.535m² do Complexo Viário 19/09/2016 às 14:42 - Atualizado em 19/09/2016 às 14:42
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Rogério Arab é um dos artistas envolvidos na intervenção (fotos: Clovis Miranda)
Rosiel Mendonça Manaus (AM)

Desde 2010, quando foi inaugurado, o Complexo Viário Gilberto Mestrinho domina a paisagem no cruzamento entre as avenidas Ephigênio Salles, Cosme Ferreira, André Araújo e Rodrigo Octávio, no bairro do Coroado. A obra, principal via de ligação entre as zonas Leste, Norte e Sul de Manaus, até pouco tempo atrás não era muito convidativa, mas há algumas semanas a impessoalidade dos blocos de concreto vem dando lugar a uma experiência visual única na cidade.

De segunda a sexta, sempre a partir das 17h, uma equipe de grafiteiros e outros profissionais se dedicam à pintura de três grandes murais nas laterais do viaduto. Ao final dos trabalhos, realizados em parceria com a Prefeitura, Manaus terá ganhado cerca de 2.535m² de arte a céu aberto.

Quem se dedica ao grafite há bastante tempo considera esse espaço recorde como um marco tanto para o segmento dos grafiteiros como para a cidade, que nos últimos anos vem se abrindo à arte urbana.

“Estou achando legal porque o grafite já mexe com o povo, mexe com a alma, vai na consciência das pessoas. Estamos satisfeitos com o trabalho e com a imagem que nossa cidade está ganhando”, disse Raiz Campos, que forma a turma de artistas ao lado de Rogério Arab, Mega e Buk.

Segundo Arab, que coordena a equipe, dois dos murais já estão prontos (sentidos Centro-Coroado e Coroado-Centro), e o terceiro (em frente ao Inpa) está com as pinturas avançadas. “É uma pintura coletiva, cada um faz um pouco, mas os temas são a fauna, a flora e a população indígena”, afirma ele.

“Os estilos também são variados, cada um tem um seu, seja realista, expressionista ou 3D”, completa o grafiteiro, que costuma retratar o cotidiano urbano amazônico a partir da geometria abstrata e iconografia marajoara.

Exemplo

Arab aponta como um dos desafios do trabalho o fluxo intenso de carros no complexo viário, restando pouco espaço para o grupo armar as estruturas de apoio. Tudo é acompanhado de perto por uma engenheira e uma técnica de segurança da Prefeitura, além do apoio operacional de quatro ajudantes.

Para Rogério, a abertura desse espaço ao grafite é algo a se comemorar, ainda mais partindo dos órgãos púbicos. “Antes esse era um lugar quase intocável, era difícil de conseguir uma autorização. A partir do momento que pintamos ali, abre-se uma espécie de portal para que as pessoas comecem a perceber o quanto a cidade vem aceitando melhor o grafite”.

Ele acredita que intervenções como essas ajudam a minar o preconceito e, ao mesmo tempo, servem de norte para as novas gerações. “Com essa visibilidade, rola uma aceitação melhor. O que nos interessa é que a arte seja divulgada e novos artistas comecem a aparecer em todas as partes da cidade”.

Trabalho acadêmico traça perfis

As “escritas de rua”, nas quais se incluem o grafite e a pixação, foram o tema do trabalho de conclusão de curso da jornalista Anna Batista, formada pela Ufam neste ano. No projeto experimental que resultou em um livro, misto de jornalismo e artes visuais, ela procurou mapear e traçar 10 perfis de figuras da escrita urbana de Manaus, falando da história, dos estilos e referências de cada um.

“Também fiz um recorte de gênero, incluindo as mulheres que participam desde o início desse processo na cidade”, explica Anna. Segundo ela, o livro é o primeiro registro da cena do grafite de Manaus e o primeiro da região Norte. Em breve, a obra será lançada com a ajuda de uma campanha de financiamento coletivo.

“No trabalho busco diferenciar o grafite da pixação, que são duas expressões que carregam muito dos anseios de cada artista. Enquanto o grafite já alcançou um nível comercial e aceitação social maior, muitos se mantêm na pixação por uma ideologia ou estilo de vida”, completa ela. “Também é importante dizer que a pixação foi extremamente importante para a imagem que temos do grafite hoje em dia, pois o grafite foi uma maneira de esses artistas serem aceitos”.

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