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Grupo surpreende ao criar música com instrumentos feitos de material reciclado

Em pouco mais de sete meses de existência, já são 45 integrantes, com idades entre 13 e 57 anos, fazendo harmonia com latas de tinta, garrafas (pets e de vidro) e barris de plástico 04/03/2016 às 15:40
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Grupo de percussão da IDPB tem 45 integrantes e é regido por Adyel Vieira (centro)
Natália Caplan Manaus

Tirar sons de objetos inusitados é quase uma mania de quem toca algum tipo de instrumento. Afinal, não existem limites quando se “respira” música. E foi justamente em busca de uma batida diferente que nasceu o “Tambores Pentecostais”. Em pouco mais de sete meses de existência, já são 45 integrantes, com idades entre 13 e 57 anos, fazendo harmonia com latas de tinta, garrafas (pets e de vidro) e barris de plástico.

Para o regente dessa “orquestra ecológica”, Adyel Vieira, 24, a repercussão surpreendeu. A ideia inicial era fazer uma única apresentação, no jubileu da Igreja de Deus Pentecostal do Brasil (IDPB) do Educandos, na Zona Sul. Porém, o grupo de percussão fez tanto sucesso que se tornou parte da seção de artes da congregação, juntamente com a Banda Cânticos de Júbilo e as equipes de dança e teatro.

“Foi-me lançado um desafio: criar algo para a festa de 50 anos da minha igreja, usando vários tambores. Mas, no primeiro momento, eu achava impossível fazer uma apresentação de sucesso, pegando várias pessoas sem nenhuma vivência musical constante”, disse. “Porém, a vontade em realizar foi maior e abracei a causa, visando como os tambores poderiam ministrar a palavra de Deus e impactar vidas”, completa.

Envolvido na arte de harmonizar “sons e silêncios” desde a adolescência, quando começou as aulas de violão, ele resolveu trocar o instrumento de cordas pelas baquetas. Sem professor, aprendeu a tocar por conta própria até conseguir uma vaga no Liceu Cláudio Santoro, onde se aperfeiçoou nas composições dos arranjos percussivos com ajuda do baterista e percussionista Ygor Saunier — autor do livro “Tambores da Amazônia”.

“Ele me inspirou a pensar na bateria como um instrumento totalmente percussivo, onde eu poderia fazer soar cada peça de maneira mais musical”, lembra “Sempre quis marcar minha geração, levando a Palavra fazendo algo diferente, mas nunca imaginei que isso aconteceria ao som de ‘tambores’. Minha esposa Kerollin Caroline faz parte desse ministério comigo e foi essencial. Pensamos: por quê não uma pegada sustentável?”, declara.

Instrumentos em construção

Com o desafio aceito, Vieira começou a estudar que tipo de material poderia ser reutilizado para se obter sons específicos. E o resultado foi impressionante: as garrafinhas de vidro substituíram o agogô (instrumento de sinos), os espetos de churrasco viraram baquetas, o barril de plástico de 200l aberto, virado de cabeça para baixo, emite o naipe grave; enquanto o fechado funciona como médio — ambos relembram o surdão.

“Já os barris são tocados com uma baqueta de marcação, com o revestimento feito com esponjas e panos. As latas de tinta de 18l são os naipes das latinhas que substituem o repique (um tambor pequeno com som agudo)”, explica. “Temos também os naipes de efeitos, nos quais criamos sons de chuva entre outros no decorrer das músicas. Nesse, usamos uma garrafa de plástico com pedrinhas dentro, substituindo o caxixi (chocalho), por exemplo”, cita.

Pessoas comuns, apresentações incríveis

Com o projeto e instrumentos definidos agora, faltava dar um passo ainda mais complicado. Onde encontrar músicos suficientes para montar o grupo? Por ser algo da própria IDPB, Adyel Vieira realizou uma triagem com membros da igreja, analisando perfil e coordenação motora de cada candidato mais adequados aos respectivos naipes.

“Não tínhamos ideia de como fazer, mas resolvemos confeccionar os tambores com materiais recicláveis. No final, fizemos uma orquestra de percussão. O engraçado é que os participantes não são musicistas, são pessoas comuns que foram treinadas e, hoje, conseguem tocar. O Adyel faz um verdadeiro milagre”, diz a líder do setor de artes, Vânia Moura.

Com os candidatos à percussionista afiados, o repertório mistura canções cristãs nacionais e internacionais. O grupo modifica os arranjos de acordo com a necessidade. “Ele [Adyel] transforma qualquer música em uma versão adaptada para os tambores, seja lenta ou rápida. Cria os arranjos e recebe ajuda da banda para completar com os outros instrumentos”, afirma.

Músicos de fim de semana

Motorista de ônibus e, agora, percussionista. Este poderia ser o currículo de Marivaldo de Souza, 56, que toca tambor (barril) naipe médio no “Tambores Pentecostais” junto com a esposa, Miracir, 57, (agogô/garrafinha). Ambos são os veteranos do grupo, com destaque para o também artesão e responsável pela criação dos instrumentos.

Como trabalha com um veículo alternativo e domina a maioria dos materiais de artesanato, ele é chamado de “mente criativa” dos tambores. “Eu tenho um pouco de artesão dentro de mim. Sempre gostei de pintura e desenho, hoje, estou mexendo com artesanato de pneus”, diz. “Esses tambores nasceram dentro do coração de Deus. Foi um trabalho de união”, completa.

Já o industriário César Augusto de Lima, 46, não apenas entrou para o grupo de percussão — no qual toca tambor médio — como levou a esposa Leutéria, 46, e a filha Lisle, 18. Segundo ele, “família que toca unida, permanece unida”. Elas tocam, respectivamente, tambor naipe grave e agogô (garrafinha).

“É muito empolgante. Uma coisa é você estar tocando, enquanto a tua família só assiste e, outra, ter a família contigo, nos ensaios e apresentando junto. Fazendo o que gosta com as pessoas que você ama? A felicidade é completa”, afirma ele, que também é guitarrista. “Continuo tocando guitarra, mas descobri o prazer de tocar tambores”, finaliza.

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