Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
Vida

Instalação flutuante: artista retrata palafitas amazônicas

O flutuante foi construído por Maciel para abrigar permanentemente as palafitas em miniatura que ele constrói há cerca de oito anos. O projeto é ambicioso: das mais de 250 peças prontas que ele possui, pouco mais de 80 foram selecionadas para ocupar os dois ambientes da Base



1.jpg 'A cidade nunca mexeu comigo', diz Inácio
28/07/2013 às 15:41

Atada entre dois troncos de árvore secos, uma rede esguia recebe quem visita o flutuante Base Palafita, estacionado sobre as águas do rio Negro, a pouco mais de três minutos da Marina do Davi. É um convite para uma imersão no espaço cultural que funciona ali desde o início do mês e faz as vezes de casa do artista plástico Inácio Maciel, também conhecido como “Rambo” – “o apelido emplacou porque estou sempre na guerra”, justifica o amazonense, também fã de Roberto Carlos.

O flutuante foi construído por Maciel para abrigar permanentemente as palafitas em miniatura que ele constrói há cerca de oito anos. O projeto é ambicioso: das mais de 250 peças prontas que ele possui, pouco mais de 80 foram selecionadas para ocupar os dois ambientes da Base.
 
Enquanto um vão aberto no “térreo” do flutuante retrata as moradias caboclas em tempos de cheia (para isso, Maciel aproveita a própria água escura do rio Negro), o visitante se depara com ilhas de palafitas em épocas de seca no piso superior. Muitas das pequenas obras, que medem de 80 centímetros a um metro, são as mesmas que puderam ser vistas na mostra que Maciel apresentou na Galeria do Largo, em 2008.

Observador

Estilo de moradia construída sobre estacas, geralmente em áreas sujeitas a alagações, as palafitas remontam ao período Neolítico. Para Inácio Maciel, um observador por natureza, elas são um exemplo de como a arquitetura cabocla consegue se adaptar ao ambiente.

Quando o artista fez a primeira palafita para abrigar Esso, seu bichano de estimação, os comentários jocosos foram inevitáveis – afinal, estaria o artista brincando de casinha? “O meu lance é a cenografia. Gosto de produzir imagens, então esse é o grande propósito do projeto”, explica ele, associando a vocação ao que viu e aprendeu em Los Angeles, no fim dos anos 1980, quando atuou com teatro de rua na cidade californiana.

Locação cinematográfica é, inclusive, uma das funcionalidades que ele quer dar à Base, além de transformá-la em point de visitação turística. Ele destaca, por exemplo, as peças que ficam nos fundos do segundo piso, feitas com cartas de baralho, bolinhas de gude, peças de dominó e moedas antigas. “É algo meio subliminar, existe e não existe. Lá (do outro lado do salão) é uma selva e aqui são espelhos. Gringo gosta muito dessas coisas”.

Tom crítico

Cabo de vassoura, pó de serragem, palito de picolé e espeto de churrasco são alguns dos matérias que Maciel reaproveita para criar as miniaturas. “Tem vezes que acordo às cinco da manhã, tomo meu guaraná e ao fim do dia eu tenho duas peças. Mas também tem meses que nem olho. É uma coisa meio ‘lunática’, de lua”, explica.

As obras estão divididas em ilhas, e muitas delas prestam homenagens a personalidades amazonenses, celebridades como Jô Soares e Pelé, e instituições como Marinha, Exército e Aeronáutica.

Outras peças seguem uma linha mais crítica, como a fictícia Prefeitura Municipal do Rio Negro, sempre de portas fechadas e vigiada por urubus. Uma peça à parte das demais critica a falta de humanidade. No fim das contas, nenhuma palafita criada por Inácio é igual à outra.

Blog

Sérgio Ivan Braga, antropólogo

“O Inácio é uma pessoa inquieta, que está entre o intelectual e o artista. Uma característica forte no trabalho dele, além do romantismo,  é a sustentabilidade, porque os materiais que ele reutiliza adquirem um novo sentido. Ainda assim, é algo muito urbano, porque o ato de reaproveitar o ‘lixo’ oriundo da cidade o torna sensível a esse espaço”.

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