Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
Vida

Internas do CDPF reescrevem suas histórias com as técnicas do 'Teatro do Oprimido'

Projeto da UEA leva as técnicas concebidas pelo dramaturgo Augusto Boal para dentro do Centro de Detenção Provisória Feminino



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Annie Martins (centro) coordena as atividades do "Arbítrio - Teatro na Prisão"
09/07/2015 às 11:07

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Um grupo de atrizes se reúne para um exercício de dramaturgia. A ideia é compor um cena forte, em que violência e abuso de poder dão o tom. A atividade poderia estar acontecendo em qualquer teatro alternativo da capital amazonense, mas desde abril faz parte da vida de cerca de 15 internas do Centro de Detenção Provisória Feminino (CDPF), localizado na Km 8 da BR-174, que liga Manaus a Presidente Figueiredo.

As cenas trazem muito da vida das mulheres que aguardam julgamento no sistema carcerário amazonense, e reencená-las lhes dá a chance de rever atitudes e enxergar situações sob um novo prisma, nos ditames do estilo concebido pelo dramaturgo Augusto Boal, o Teatro do Oprimido.

O projeto que trouxe essa espécie de dramaturgia para o CDPF, o “Arbítrio - Teatro na Prisão”, vem sendo realizado desde abril deste ano pela professora da UEA Annie Martins, que coordena as atividades.

Seu interesse em aplicar as técnicas de Boal no ambiente prisional veio, segundo ela, de uma vontade de ver “o teatro interferir diretamente na sociedade, em algum tipo de opressão social”. 

“Na prisão, naturalmente ocorre a opressão, não só pelo sistema prisional mas pela própria marginalização das presidiárias e presidiários, então a tentativa de trazer o teatro para a prisão era exatamente desmistificar essa ideia [...] de animais enjaulados, que não estão nem aí, que praticaram crimes e merecem mesmo ficar presos. A ideia do ‘Arbítrio’ é justamente desen volver um outro livre-arbítrio, a escolha de um novo caminho, através da consciência da opressão cometida por elas ou por eles ou sofrida por elas ou por eles. Todo opressor é um oprimido”, afirmou a coordenadora do projeto.

Teatro-Fórum

O Arbítrio utiliza, no CDPF, a técnica do Teatro-Fórum, em que uma encenação promove um debate. “As meninas compartilham opressões reais da sociedade, seja no ambiente familiar, seja aqui dentro do sistema prisional, seja no emprego que elas tentam ir e não conseguem, e então [...] a gente faz a cena real, a cena que aconteceu de fato no Teatro-Fórum. [...] A ideia é de que as espectadoras virem ‘espectatoras’”, explicou Annie.

As mulheres participam ativamente do processo criativo das cenas, reencenando situações vividas por elas até o momento em que determinada opressão as faz fracassar em um objetivo.

Neste momento, inicia-se um debate, em que as demais dão sugestões de como a opressão poderia ter sido evitada e então entram em cena, refazendo o ato, num processo de tentativa, erro e aprendizado. “Várias cenas são substituídas até elas criarem a consciência de que existem outros caminhos para amenização e até a finalização dessa opressão”, disse a coordenadora.


‘Eu tinha morrido’

Carmen Alves, detenta que participa do projeto há dois meses, contou que se voluntariou de súbito, sem nunca ter tido experiência ou interesse por teatro antes da vida no cárcere.

“Eles chegaram, disseram que ia ter o curso de teatro, [e perguntaram] quem queria participar, e eu me disponibilizei porque eu achei maravilhoso [...] para distrair a gente, para a gente se relacionar mais com a sociedade”, relembrou.

Ela contou como a experiência tem permitido-lhe refletir. “[O teatro] faz pensar no que aconteceu antes, [e] no que vai acontecer daqui para frente, quando eu sair daqui. Para mim, eu tinha morrido para o mundo e [hoje] eu me considero uma nova pessoa”, desabafou, feliz.

Maysa Chicre, psicóloga que trabalha junto ao setor da reintegração social da Seap, também nota a diferença. “Há mudanças visíveis na relações pessoais, algo com o qual elas têm muita dificuldade. Nos exercícios, elas não conseguiam se soltar, eram muito rígidas umas com as outras, agora estão bem soltas”, comentou.

As detentas devem seguir treinando o Teatro-Fórum por ora e, segundo as expectativas da coordenadora do projeto, devem conseguir caracterizações mais amplas a partir dos meses de setembro e outubro.

'Princesa do Senhor'

Marjorie Paixão, que se juntou ao Arbítrio no dia de nossa reportagem, se apresentou como ‘Princesa do Senhor’ às colegas e interpretou fielmente uma delegada durante uma encenação.

Ela comentou sobre as escolhas que a fizeram se separar do marido e dos dois filhos, um de cinco e outro de dois anos, mas que, segundo ela, não a definem. “A Marjorie é uma pessoa que tem um desejo de reconstruir sua família. [...] Quero reconquistar as coisas que perdi, voltar pros braços do Senhor, de quem me afastei, [...] ter aquela rotina que eu sempre tinha antes”, falou.


A técnica e o futuro

Annie explicou um pouco como o Teatro do Oprimido difere de outras técnicas de dramaturgia. “Dentro do Teatro do Oprimido, a gente não visa uma construção aprofundada do personagem. Boal vai falar que o personagem não vem de fora para dentro, ele vem de dentro de fora. É se conhecendo, é me transformando, que eu transformo o mundo. A parte da caracterização é um processo natural, então não tem assim: ‘Hoje vamos montar o figurino’. Não, a gente monta primeiro a cena e a partir das cenas, vai desenvolvendo”, disse a coordenadora.

Os responsáveis pelo projeto já se programam para levar o Teatro do Oprimido a outras unidades prisionais do Estado. “No máximo até setembro, pretendemos trabalhar com presas do regime fechado feminino e, a partir de outubro, com os do regime fechado masculino”, concluiu Annie.


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