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'Jim' leva aos palcos o lado xamânico do cantor Jim Morrison

Autor do texto do musical, o carioca Walter Daguerre fala sobre a criação para os palcos. O musical estreou no final de 2013 e que será encenado no Teatro Amazonas, de 11 a 13 de setembro 25/08/2015 às 14:29
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Fã de Jim Morrison, Eriberto Leão convidou Walter Daguerre para o projeto de "Jim"
JONY CLAY BORGES ---

Uma das figuras mais fascinantes do rock mundial, Jim Morrison (1943-1971) gostava de fazer referências ao xamanismo em suas músicas e performances no palco com The Doors. Após sua morte prematura e enigmática, ele mesmo passou a ser cultuado como ídolo místico.

Foi essa faceta que Walter Daguerre escolheu explorar em “Jim”, musical sobre o roqueiro que estreou no final de 2013 e que será encenado no Teatro Amazonas, de 11 a 13 de setembro.

“O espetáculo puxa a história para o lado mais místico, mais xamânico, e menos para uma biografia careta. Nele, Jim Morrison é mais um roqueiro xamânico, uma pessoa que tem um ideal de transcendência, do que o cara das drogas e tal”, explica o dramaturgo carioca, em entrevista por telefone à reportagem.

Daguerre conta que embarcou no projeto de “Jim” a convite de Eriberto Leão, que vive o papel principal na montagem. “Esse trabalho foi um desejo dele, que desde muito novo é apaixonado pela figura do Jim Morrison, pelo The Doors”, conta ele, que reprisa a parceria com Leão e o diretor Paulo de Moraes, a mesma de “A mecânica das borboletas”, de 2011. “Ele (Leão) quis trabalhar com essa mesma equipe, e me chamou para escrever o texto, e o Paulo para a direção”, conta.

Pessoalmente mais adepto do rock nacional dos anos 1980, Daguerre mergulhou fundo na obra do Rei Lagarto. “Ouvia The Doors, mas não era fã como o Eriberto. Fui conhecer mais a fundo não só a obra musical dele, mas sua poética. Ele lançou alguns livros de poesia”, conta.

Inspiração literária

Antes de Jim, outras figuras reais ligadas à literatura já foram sido inspiração para Daguerre. “Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar” (2009), baseado na vida e na obra da poeta carioca, e “Chopin & Sand: Romance sem palavras” (2011), inspirado na relação entre o compositor Frédéric Chopin e a escritora George Sand, são exemplos. Mas é nos próprios livros que o dramaturgo tem sua maior influência.

“Minhas leituras de literatura me serviram de escola, de formação. Aprendi a escrever por meio da literatura, tanto de romances e contos como poesia”, assinala ele, que já trabalhou sobre obras de Franz Kafka, Hermann Hesse, Clarice Lispector e Machado de Assis, entre outros. “Tenho essa ligação com a literatura, com a palavra escrita. Minha primeira peça de sucesso, ‘Capitu’, era baseada no Machado”.

Há dois anos, o carioca voltou à literatura colaborando na adaptação de “Ligações perigosas”, romance francês do século 18, para minissérie da Globo a estrear no ano que vem. Da experiência na ponte entre livros e palcos, Daguerre destaca que é imprescindível uma dose de rebeldia.

“É uma coisa paradoxal: você só consegue ser fiel a uma obra se for transgressor”, sentencia ele, numa norma que estende também às adaptações biográficas. “Para passar a essência de uma obra, você tem de fazer diferente do livro. Tem de transgredir para manter a essência. É uma ilusão achar que vai ser a mesma coisa”.

Foco na criação

Daguerre, que já soma 15 peças de teatro encenadas, com incursões também na direção teatral e no cinema, vai compartilhar um pouco de sua experiência na oficina “Dramaturgia em foco”, promovida em Manaus pelo projeto Workshops Vivo EnCena, no período de 8 a 9 de setembro (veja o Saiba Mais). O curso, ele antecipa, será menos uma aula do que um diálogo para troca de conhecimentos entre criadores de diferentes cenários.

“Vou estar em Manaus, fora do eixo Rio-SP, e assim espero que seja um diálogo, e não uma situação de ensinar uma maneira de fazer”, declara ele. “Mais do que um sentimento de ensinar algo, estou com o sentimento de encontrar novos olhares, novas histórias, novos personagens. Isso é rico”.

Oficina

As inscrições para o Workshops Vivo EnCena: “Dramaturgia em foco” estão abertas até a segunda-feira, dia 31, e podem ser feitas pelo email vivoencena@ gmail.com. A oficina é gratuita e será realizada de 8 a 9 de setembro, das 13h às 17h, no Centro Cultural Palácio da Justiça, no Centro.

Público

A oficina é voltada para maiores de 16 anos, entre profissionais, estudantes e interessados em experiência práticas na área de dramaturgia. As vagas são limitadas para 20 pessoas.

Estímulo para a dramaturgia

Walter Daguerre é um dos nomes da chamada Nova Dramaturgia Carioca, que surgiu como resposta a um marasmo cultural vivido nos anos 1990. “As leis de incentivo estavam começando ainda no Brasil.

Não havia autor brasileiro vivo sendo montado nos palcos. Aqui no Rio de Janeiro houve um movimento forte, liderado por Roberto Alvim, no começo dos anos 2000”, conta.

“Nesse período surgiram vários autores, como eu, Daniela Pereira de Carvalho, Julia Spadaccini e outros, muitos até hoje escrevendo para teatro, televisão, cinema”.

Para o dramaturgo, o fortalecimento das leis de incentivo e a demanda ampliada pelos canais por assinatura trazem um novo momento de estímulo à dramaturgia no Brasil.

“Quando isso acontece, você tem uma nova demanda por autores e roteiristas, e uma galera talentosíssima começa a ganhar espaço”, diz.

Por outro lado, o carioca se diz preocupado com os rumos do Brasil no segmento cultural.

“Espero que, com todas as questões políticas que vivemos, não haja um retrocesso no desenvolvimento das artes, e da dramaturgia em especial, que vivemos dos anos 2000 para cá”, afirma ele, sem deixar o otimismo de lado. “Espero que esse turbilhão acabe mesmo por incentivar novas criações”.

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