Sexta-feira, 03 de Abril de 2020
CURTA

Keila Serruya representa o AM na Mostra de Cinema Negro de Sergipe

O curta-metragem “Sem nome. Sem (cem) mortes” da produtora cultural foi um dos 52 selecionados para serem exibidos no evento, que acontece de 04 a 10 de abril em Aracaju (SE)



keyla1_8BD34F4A-5B17-4155-B8B9-B26E9039FA9F.JPG Foto: Divulgação
27/02/2020 às 10:07

Com uma obra produzida em manifesto aos altos índices de pobreza, fome e violência que afligem a população negra, a cineasta Keila Serruya é a única representante amazonense da 5ª edição da EGBÉ – Mostra de Cinema Negro de Sergipe. O curta-metragem “Sem nome. Sem (cem) mortes” da produtora cultural foi um dos 52 selecionados para serem exibidos no evento, que acontece de 04 a 10 de abril em Aracaju (SE).

Produzido de forma independente, o vídeo traz uma performance sobre o extermínio da população negra. De acordo com a artista multimídia, o projeto surgiu da necessidade de expor essa violência, ainda mais considerando o fato de que a população negra tem 2,7 mais chances de ser vítima de assassinato que a branca, conforme o informativo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano passado.

“O epistemicídio [termo que, segundo a filósofa Sueli Carneiro – referência no tema –, se refere à ocultação da contribuição negra no saber, o encarceramento em massa e corpos caindo por balas achadas são uma realidade. Tem quem não acredite, mas há apenas dois motivos para isso: ser muito racista ou não querer usar dados reais e fatos históricos para usar como base para construção de pensamento”, expõe.

Responsável pela direção e performance do curta – que pode ser conferido tanto no Instagram @keilaserruya.sankofa quanto no canal de Youtube “Keila Serruya” –, a artista contou com a ajuda do parceiro e amigo João Paulo Machado, que respondeu como Diretor de Fotografia do projeto. “Mesmo que às vezes não haja recursos, ele mergulha nas minhas criações e consegue captar imagens poderosas dessas inquietudes de pensamentos e questionamentos”, pontua.

Com pouco mais de nove minutos de duração, a obra inicia ao som do Hino Nacional do país, mostrando Keila – prateada do pescoço para baixo – sendo encoberta por sangue aos poucos. O projeto foi construído a partir de um texto poético, que traz em um dos seus trechos a seguinte mensagem: “O que eu quero esquecer, mas o que eu preciso lembrar? Há um pote de cobras douradas no fim do arco-íris e isso não é uma descoberta. Tem dono. Tem forma. Tem vida. De longe vemos. O sistema imunológico é a cultura. Doente eu não fico. Ser ciência, ancestralidade, é ser milenar”.

Carreira

Formada em Comunicação Social e Pós-Graduada em Gestão e Produção Cultural, Keyla acredita que muito do que aprendeu sobre cinema foi na ‘rua’. “Minha formação como realizadora audiovisual foi na prática”, ressalta a cineasta, que se dedica à carreira cinematográfica há pelo menos 12 anos.

O contato com a cinematografia surgiu ainda na adolescência, a partir de um curso de produção de curtas de apenas um minuto. “Fui construindo minhas experiências entre as artes visuais e cinema, tudo na prática, utilizando todas as ‘minis-oportunidades’ que me apareceram”, comenta. 

Festival

Desde 2016, abril é o mês em que a EGBÉ – Mostra de Cinema Negro de Sergipe apresenta filmes do Cinema Negro brasileiro ao público sergipano. O principal objetivo da mostra é fazer circular produções cinematográficas negras de dentro e de fora do estado. Após cada exibição, são feitos debates sobre os filmes (curtas-metragens da seleção oficial da mostra, além de longas-metragens convidados). Para realizar esta edição, a organização do evento conta com uma ‘vaquinha’ online pela plataforma Catarse, com a meta de R$ 10 mil. A Mostra é uma realização do Cineclube Candeeiro, Cacimba de Cinema e Vídeo e Rolimã Filmes. 

Durante sua trajetória profissional, a cineasta se envolveu em várias vertentes do audiovisual, produzindo desde séries (como “Mormaço Sonoro”) e videodanças (como a produção “F.I.S.42”) a videoclipes (como o da faixa “Outro tempo” da banda de rock amazonense Roodie). Segundo a artista multimídia, sua inspiração surge a partir da representatividade negra na sétima arte. “Toda vez que vejo mulheres negras produzindo cinema, eu simplesmente tomo um fôlego para continuar falando em primeira pessoa”, explana.



Repórter

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