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'Leite artificial nunca será tão bom quanto o materno', diz pediatra

Em entrevista ao Vida & Estilo, o médico defendeu a importância da amamentação em livre demanda e o apoio da família da mãe. Com mais de 30 anos de experiência, ele coordena centro de referência mundial no assunto 20/06/2016 às 05:00
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Durante a terceiro edição do Siaparto, o pediatra canadense defendeu a proibição dos bicos artificiais (Foto: Lela Betrão/Coletivo Buriti)
Natália Caplan São Paulo (SP)

Uma mãe sorridente, com seu bebê de bochechas rosadas plugado ao seio, mamando vigorosamente. Esta é a imagem idealizada pela maioria das gestantes, principalmente, as que ainda esperam o primeiro filho. Porém, enquanto algumas têm facilidade, a realidade de muitas é de bicos feridos e bebês irritados. Resultado: muitas mulheres exaustas e frustradas por se sentirem incapazes de amamentar.

De acordo com o pediatra canadense Jack Newman, apesar de ser algo natural e fisiológico, nem sempre a amamentação é fácil. Por isso, afirma, há desistência no meio do caminho e substituição pelo artificial. Em entrevista exclusiva ao VIDA & ESTILO, durante o terceiro Simpósio Internacional de Assistência ao Parto (Siaparto), em São Paulo, ele falou sobre a importância de se informar e acreditar na natureza.

Com 32 anos de experiência e autor do livro Dr. Jack Newman’s Guide to Breastfeeding (Guia do Dr. Jack Newman para amamentação), ele é coordenador do International Breastfeeding Centre (Centro Internacional de Amamentação), em Toronto, no Canadá. Entre os principais pontos defendidos pelo especialista, está a livre demanda e a necessidade do tempo entre mãe e bebê nos primeiros minutos após o nascimento.

O médico ressaltou que o “encaixe perfeito” pode demorar um pouco até ser encontrado e mãe, inclusive, nunca deve se culpar ou se minimizar por isso, mas buscar informações. Por outro lado, a falta de apoio da própria família e de profissionais interessados em aprender para auxiliá-las mães dificulta o processo. E, lembra: nenhum alimento — muito menos a fórmula — se compara ao leite materno. Confira a entrevista abaixo:

Qual é a maior queixa das mulheres sobre a amamentação?

A maior reclamação, em qualquer lugar do mundo, é a dor nos mamilos. E, em muitos lugares, as mulheres têm dores, mas não reclamam, porque acham que é normal. Mas isso não é normal. As mulheres são adequadas para amamentar em qualquer lugar do mundo, não é diferente aqui, no Brasil. O que muda é a cultura de cada lugar.

O que é necessário para resolver essa questão?

O ‘segredo’ está na pega correta. Se o bebê abocanha só o mamilo, ele não bebe leite suficiente. Mas, se mudamos um ou dois centímetros, tudo muda. Esses centímetros são muito importantes e podem fazer toda a diferença. Temos vídeos em nosso site, com textos explicativos em português. As mães podem acessar e aprender se o bebê está conseguindo mamar o suficiente ou não; e o que fazer, caso o bebê não esteja; ou se os mamilos estiverem machucados, ou se a ‘pega’ não estiver boa.

Durante as palestras, o senhor falou sobre a falta de conhecimento dos profissionais da saúde. Como isso atrapalha?

É um problema grande, porque as mães precisam de apoio, não de fórmula. Os médicos obstetras, enfermeiros e pediatras não aprendem sobre isso na faculdade, não sabem ensinar, porque a amamentação não é considerada importante por eles. Eles acham também basta colocar o bebê no seio, que ele vai fazer todo o trabalho. O que é verdade, na maioria das vezes. Mas nem sempre. Se a mulher não tiver a ajuda de alguém, melhor ainda. É melhor a própria mãe pesquisar e aprender por ela mesma.

Muitas mães sofrem com preconceito e intervenção de terceiros. Como ajudá-las a enfrentar isso?

A amamentação é algo natural, mas nós a tornamos ‘não natural’. Isso é culpa do sistema. O apoio da família também é muito importante. Geralmente, os pais costumam comprar o leite artificial, porquê têm ciúme e não querem a mãe conectada ao bebê o tempo todo.

A proibição de bicos artificiais também foi algo enfatizado durante suas palestras. Por quê?

Bicos de silicone deveriam ser proibidos, exceto se forem recomendados por um profissional em amamentação. As mães são ensinadas que bicos de silicone são iguais aos mamilos, o que é uma mentira. Quando as mães ouvem, por exemplo, que, se seus filhos não forem bem nutridos, eles terão problemas neurológicos, elas entram em pânico. No Canadá isso acontece sempre. Isso é porque os médicos amam as fórmulas, mas não amam a amamentação.

O que dizer às mulheres que não acreditam nos benefícios do leite materno ou não o acham suficiente para alimentar o bebê?

Elas não acreditam em Deus? Realmente acreditam que um leite produzido em uma fábrica é tão bom ou melhor do que a natureza faz? Nunca será. Você já viu o que há realmente na fórmula? Óleo de peixe, batata desidratada, milho... Os ingredientes são totalmente diferentes do que os componentes encontrados no leite materno. Leite artificial nunca será tão bom quanto o materno.

Perfil

Jack Newman é um pediatra canadense especialista em amamentação que coordena, desde 1984, a primeira clínica totalmente dedicada a ajudar mães a amamentar. Ele acredita que o leite materno é muito superior a qualquer outro alimento para bebês, que as mães podem amamentar na frequência, maneira e por quanto tempo quiserem; e, mesmo em situações especiais — fazendo uso de medicamentos, cirurgias emergenciais, intervenções na mama, etc. —, que não só podem, como elas devem amamentar.

Destaque

Os temas disponíveis no site oficial do pediatra Jack Newman em português são: Amamentação e o bebê prematuro; Amamentação e Doenças; Amamentação e Icterícia; Amamentação – Começando Bem; Compressão das Mamas; e Pomada Mamilar para Todas as Finalidades. Todos são gratuitos.

Dicas para uma amamentação adequada:

- Prestar atenção na ‘pega’: o queixo encosta no peito, enquanto o nariz fica distante, e os lábios formam uma “boca de peixinho”; o bebê pega a auréola mais com o lábio de baixo do que com o de cima;

- O bebê não chora, ou fica irritado e vira a cabeça para os lados;

- Cair no sono pode ser um indicativo de que a saída de leite diminuiu. De acordo com Jack Newman, bebês respondem ao fluxo de alimento.

- Não utilizar chupetas ou mamadeiras para não causar confusão de bicos e desmame precoce. O pediatra também condena veementemente os protetores flexíveis de mamilo.

- Em caso de dificuldade, deve-se buscar ajuda de um banco de leite e consultoria profissional em amamentação;

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