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Livro narra saga do empresário Eike Batista desde exploração de ouro na Amazônia

Jornalista Malu Gaspar apresenta o livro 'Tudo ou nada – Eike Batista e a verdadeira história do Grupo X' (Record), lançado no final do ano passado 23/03/2015 às 10:09
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Carreira de Eike Batista como empreendedor teve início na Amazônia, revela jornalista
JONY CLAY BORGES ---

Quando começou a ser exibida na televisão a novela “Império”, sobre um magnata que constrói sua fortuna a partir do garimpo na Amazônia, a jornalista Malu Gaspar lembrou logo da história de outro personagem da vida real, até mais famoso que o Comendador do folhetim: Eike Batista. Mas qual a relação entre eles? É que Eike também iniciou sua saga empreendedora nos garimpos da região, nos anos 1980. É o que Malu conta no livro “Tudo ou nada – Eike Batista e a verdadeira história do Grupo X” (Record), lançado no final do ano passado.

“A carreira dele como empreendedor começou no garimpo na Amazônia”, conta a autora, em entrevista por telefone à reportagem. Ao longo de 546 páginas, ela narra a ascensão e a queda de Eike, da juventude entre a Europa e o Brasil até sua saída do edifício Serrador, luxuosa sede do Grupo X, às vésperas de ser julgado por especulação. A Amazônia, declara ela em entrevista por telefone à reportagem, foi cenário importante no início dessa trajetória.

“Eike morou em Genebra e Bruxelas parte da adolescência, mas sempre vinha ao Brasil. Numa dessas vindas, soube que havia uma ‘corrida do ouro’ na região. Ele tinha espírito empreendedor, e começou a fazer viagens em busca de lugares para comprar ouro para revender no Sudeste”, conta a autora, lembrando que era tudo bem aventureiro. “Ele começou essa atividade indo de teco-teco aos lugares para comprar ouro. Ele foi a Itaituba (PA), estabeleceu contato com Ditão, que comandava o garimpo ali, para comprar o minério. Eles chegavam com cacos de roupa e voltavam em barcos cheios de ouro, com as roupas por cima”.

A atividade na região foi o impulso para Eike deslanchar sua carreira como empreendedor. Com o dinheiro ganho com o ouro, o empresário foi além e começou a adquirir minas e terrenos para exploração, que depois repassava a outros operadores. “Em determinado momento, ele tinha uma bela pilha de direitos de lavra e exploração. Dizia que tinha 8 milhões de hectares da Amazônia”, conta a jornalista.

Do garimpo às ações

O sucesso do modelo de negócios de Eike lhe permitiu montar sua primeira grande companhia, adquirindo participações na canadense TVX, e tornar-se sócio de grandes mineradoras internacionais, nos anos 1980 e 1990. Isso daria início a um outro momento na trajetória do empresário, quando começou a operar no mercado de capitais.

“No Canadá, ele conheceu o mercado financeiro e aprendeu a lançar projetos na Bolsa”, narra Malu. Também lá, revela a jornalista, ele desenvolveu uma experiência que lembra, em escala menor, o caso do Grupo X. “Ele comprou terras que dizia serem promissoras para exploração, contratou os melhores executivos, começou a explorar em vários lugares do mundo. No final, porém, as terras não tinham minério suficiente ou eram difíceis de explorar”.

Do caso resultou que Eike enfrentou problemas no mercado canadense e teve a empresa tomada dele. Anos depois, após se reerguer e criar a empresa OGX para a exploração de petróleo e gás natural, ele replicaria o erro do Canadá em escala global, como avalia Malu.

“A princípio, tudo o que montou tinha razão de ser. A questão é que ele fez promessas sem fundamento, e quando a realidade se revelou pior, recusou-se a voltar atrás e refazer os planos. Ele foi avisado que não havia o óleo que dizia que havia para a OGX. Ele vendeu o que não tinha”, comenta a escritora, lembrando a imagem mirabolante criada pelo magnata, de uma petroleira capaz de produzir, em sete anos, um milhão de barris de petróleo/dia – número que até uma gigante como a Petrobras levou 55 anos para alcançar. “Estava na cara que não havia como entregar. Tavez tudo pudesse ter tido outro desfecho, mas não da forma como ele conduziu. Foi uma questão de tempo”.

O escândalo logo tomou os noticiários: o homem que fora o mais rico do País – e o sétimo do mundo – foi à bancarrota. Mas a dúvida ficou no ar: ele agiu por leviandade ou má fé? Para Malu, um pouco das duas coisas. “Quando ler o livro, você verá que, em alguns momentos, Eike parece ingênuo, de acreditar em coisas como promessas de políticos. Mas ele também ignora pessoas que avisam a ele sobre os planos superdimensionados. Creio que até certo ponto ele foi ingênuo, mas depois foi irresponsável, por divulgar dados que sabia serem mentira”.

Romance da vida real

Malu fala com conhecimento de causa: ela começou a seguir a trajetória de Eike e do Grupo X há dez anos, no trabalho como jornalista. “Tive oportunidade de entrevistá-lo em ocasiões formais e informais, conheci pessoas que trabalham e trabalharam com ele. Tinha uma coleção de histórias”, conta a jornalista, que teve a ideia de escrever o livro ao notar a repercussão das dificuldades de Eike, há poucos anos. “As pessoas se perguntavam como alguém podia ascender e cair de forma tão espetacular. Pensei, ‘Eu sei responder a isso’”.

Em um ano de trabalho, Malu fez mais de cem entrevistas, desencavou documentos e coletou material de inúmeras fontes. Transformou tudo numa narrativa envolvente e acessível até aos menos chegados ao noticiário econômico. “Minha ideia era fazer um thriller, um romance da economia. É uma história fácil de entender, não tem nada de ‘economês’”, diz.

O resultado do enorme esforço de Malu, afinal, é o romance de um personagem da vida real, mas que pode ser lido também como metáfora do País hoje.

“Para mim, a história do Eike é uma parábola do Brasil. Nos últimos anos, ele foi uma figura central do capitalismo brasileiro. Você o via sempre ao lado de políticos, banqueiros, artistas. Essa é a história de um personagem que também é uma história do Brasil recente”, conclui a escritora.

‘Acho difícil ele voltar’

O escândalo de Eike Batista e do Grupo X teve vários episódios bizarros desde que ganhou os noticiários. É o que se pode dizer, por exemplo, da recente declaração de Eike dizendo que voltará aos negócios em breve. Malu Gaspar acha difícil. “Hoje ele deve R$ 1 bilhão a diversos credores. Sua quebra foi em escala global, não há ninguém no mundo que não saiba de sua história. Acho difícil ele conseguir atrair investimentos de novo nestas circunstâncias. Creio que nunca mais vamos vê-lo da forma como ele foi antes”, opina.

Outra esquisitice foi o caso do juiz Flávio Roberto de Souza, que resolveu tomar para si bens confiscados do empresário, como um carro Porsche e um piano. “No mundo que envolve Eike acontecem as coisas mais absurdas. As pessoas me perguntam se tudo o que escrevi em meu livro é verdade. Sim, não romanceei nada. Mas o juiz parece saído de um roteiro do meu livro”, comenta Malu.

Bizarrices à parte, a jornalista aponta que o caso tem repercussões bem sérias na economia. “O Brasil hoje vive uma crise: o Governo está quebrado e precisa de investidores privados para fazer o país acontecer. Mas o Eike abalou a fé das pessoas no mercado. E o fato de ele não ter sido julgado até hoje dá a impressão de que investir no mercado de capitais no Brasil não é sério. Afora o lado pitoresco, a coisa do juiz pegar o carro ou o ovo Fabergé (achado pela Polícia Federal na casa de Eike, e que se revelou ser falso), há um lado muito triste, uma impressão de que as coisas não funcionam, de que pessoas podem cometer crimes e vai ficar por isso mesmo”.

Ficha

TUDO OU NADA - EIKE BATISTA E A VERDADEIRA HISTÓRIA DO GRUPO Xautora

Malu Gaspar

Editora

Record

Páginas

546

Preço sugerido

R$ 55

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